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Colocar seu rosto no aplicativo que muda aparência é um risco, alertam especialistas

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Aiman Khair/Shutterstock

O FaceApp voltou a fazer sucesso nos últimos dias. Quem esteve conectado nas redes sociais com certeza se deparou com anônimos e famosos compartilhando imagens suas com características usualmente relacionadas ao sexo oposto.

Porém, há anos o mesmo FaceApp se envolve em polêmicas: acusações de transfobia e racismo, risco de roubo de dados por conta de sua política de privacidade, investigação nos Estados Unidos pelo FBI, notificação do Procon. Será, então, que essa simples brincadeira pode ser perigosa?

Histórico do FaceApp

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Reprodução/FaceApp | Reprodução/FaceApp

O advogado especialista em cibercrimes Luiz Augusto D'Urso faz um pedido: “Não desenterrem o FaceApp”.

O especialista explica que há duas orientações básicas para quando uma pessoa vai baixar um aplicativo novo. Ler o termo de uso do app, que normalmente passa despercebido, e também pesquisar sobre o histórico do programa e da empresa por trás dele.

“Principalmente esses apps febre. Quem produz? Qual o histórico? É mundialmente conhecido e fiscalizado? Quais dados vai colher? Para que serve? Se pesquisar sobre o FaceApp, vai tomar um susto, talvez a pessoa nem baixasse se fizesse isso antes.”

O problema com a Política de Privacidade e os Termos de Uso do aplicativo começam pela forma como são apresentados: na língua inglesa. Como estamos no Brasil, não serão todos os usuários brasileiros que vão conseguir entender o que está escrito.

Esse foi um dos motivos pelos quais o Google e a Apple foram multados no ano passado por conta do programa. De acordo com o Procon, as companhias têm responsabilidade sobre os produtos e serviços que oferecem. No caso do FaceApp, algumas cláusulas da política de privacidade e dos termos de uso também foram consideradas abusivas.

Como não ficava claro como a empresa utilizava os dados coletados dos usuários, o FBI chegou a fazer uma investigação sobre o app. O Departamento Federal de Investigação dos Estados Unidos fez um alerta sobre risco potencial de contrainteligência, especialmente porque o app é russo e há um histórico de conflitos entre os dois países.

Política de Privacidade foi atualizada

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Wachiwit/Shutterstock

Os Termos de Uso foram atualizados em dezembro de 2019, enquanto a Política de Privacidade mais recentemente, no dia 4 deste mês.

D'Urso, que também é presidente da Comissão Nacional de Cibercrimes da ABRACRIM (Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas), alerta, porém, que a finalidade do app ainda não ficou clara e é muito preocupante.

O risco de alguns dados acabarem na mão de criminosos ainda existe, através de roubo de dados. Esses mesmos dados podem ser usados, por exemplo, para extorsão. “Tem a Lei Geral de Proteção de Dados que logo vai começar a valer, e o FaceApp vem na contra mão.”

Outro risco é que esses dados estão armazenados em servidores de terceiros, que também podem ser roubados por cibercriminosos e utilizados para a falsificação de identidades. O fluxo de dados é bem maior do que a gente possa imaginar.

Reconhecimento facial é uma senha

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Divulgação/FaceApp | Divulgação/FaceApp

Como o FaceApp é um aplicativo de reconhecimento facial, Fabio Assolini, analista sênior de segurança da Kaspersky, de softwares de segurança para a Internet, alerta que essa mesma tecnologia é usada principalmente para a autenticação de senhas.

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David Becker/Getty Images

Para Assolini, como o aplicativo usa Inteligência Artificial para alterar as características físicas das pessoas, a partir de reconhecimento facial, a empresa dona do app pode vender essas fotos para outras empresas .

“Entendam o reconhecimento facial como uma senha, não saia utilizando em todos os lugares”, alerta a Kaspersky.

Outras plataformas

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Ink Drop/Shutterstock

Mas você pode se perguntar: meus dados já não estão expostos? Se você tem uma conta no Facebook ou Instagram, por exemplo, com grandes chances algumas fotos e dados já estão circulando pela internet, porém, como explica D'Urso, essas empresas maiores são muito mais fiscalizadas.

Prova disso é que no ano passado o Facebook foi multado em US$ 5 bilhões após a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos identificar que a empresa teria violado a privacidade de cerca de 87 milhões de usuários ao compartilhar suas informações com um escritório de consultoria pública.

“A atenção à utilização dos dados por essas empresas é mundial. O mundo, não só alguns países, controlam esses dados. Por isso as multas são tão altas. Então você percebe que essas empresas se preocupam mais por se tratar de empresas famosas. Em tese, o conteúdo armazenado está mais seguro, e os termos são mais claros.”

De qualquer forma, o especialista recomenda não armazenar tudo na internet porque o risco de vazamento é real. Senhas, fotos íntimas e dados profissionais, por exemplo, devem ser evitados.

“O FaceApp também vale como alerta de que as pessoas precisam redobrar a preocupação em relação a tendências e conteúdos que viralizam na internet”, completa o advogado.

Acusações de transfobia e racismo

Se os problemas com os dados colhidos pelo aplicativo não fossem suficientes, o app também está envolvido em polêmicas sociais.

Usuários voltaram a chamar atenção para o fato da alteração das características físicas das pessoas servirem como forma de transfobia, que é o preconceito com pessoas transgênero.

Outro problema é que o app também embranquece as pessoas após as modificações que são feitas, por isso as acusações de racismo.

O VIX entrou em contato com o FaceApp através de e-mail disponibilizado pela empresa em seu site, mas até a publicação desta matéria não teve resposta. Caso haja, a matéria será atualizada.

Atualização: o que diz o FaceApp

Em 17 de junho, o FaceApp respondeu nossa solicitação e disse que:

"A tecnologia de IA que usamos em nossos filtros exige cálculos avançados em um servidor, o que torna impossível editar uma imagem em um smartphone.

A imagem que não foi editada com nossos filtros não será enviada aos servidores e permanecerá apenas no seu dispositivo. Observe que não temos acesso a dados adicionais, como endereço de e-mail, ID da Apple ou iCloud ou contas do Google.

Todas as imagens são excluídas automaticamente nas próximas 48 horas após serem editadas em nosso aplicativo. Não podemos e não armazenamos imagens que nossos usuários carregam.

As imagens compartilhadas com os servidores são totalmente anônimas e armazenadas criptografadas. Não podemos identificar o usuário, seu dispositivo ou outros dados com base nas imagens. Não os usamos em publicidade nem em nenhum outro caso público.

Ninguém vê essas fotos, elas são processadas automaticamente apenas por computadores."

Segurança na internet