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Por que complicação que Paulo Gustavo teve foi duplamente "rara e catastrófica"

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TV GLOBO / João Miguel Júnior

Após quase dois meses desde que foi internado em decorrência da COVID-19, o ator Paulo Gustavo teve complicações que tornaram seu quadro irreversível e acabou não resistindo. Logo após apresentar uma melhora animadora, o ator sofreu uma embolia gasosa disseminada – problema que, diferente da chamada tromboembolia, é raro e aconteceu devido a uma condição também pouco frequente.

Embolia gasosa: o que é

De acordo com os boletins médicos divulgados ao longo da internação de Paulo Gustavo, o ator apresentou, após uma breve melhora, um quadro de embolia gasosa que afetou seu sistema nervoso central e tornou a situação irreversível. Segundo a médica de CTI Nathalia Fortins, professora da plataforma Jaleko, embolias são quadros nos quais algo que não se dissolve no sangue provoca a obstrução de um vaso sanguíneo – e, no caso da gasosa, este material é o próprio ar.

Apesar de necessário para o organismo, o ar não entra na corrente sanguínea livremente; após a inspiração, os alvéolos (estruturas que existem aos milhões nos pulmões) se encarregam de transferir o oxigênio para o sangue, enquanto o gás carbônico faz o processo inverso e é expirado. Em casos como o de Paulo Gustavo, porém, o ar acaba circulando livremente nos vasos em forma de bolhas – algo que interrompe o fluxo sanguíneo em órgãos vitais ao viajar pelo corpo.

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yodiyim/iStock

De acordo com o clínico geral Felipe Magalhães, diretor científico da mesma plataforma, quadros assim são bastante raros e costumam ter uma vítima clássica: mergulhadores de grandes profundidades. Quanto mais o mergulhador desce sob a água, mais oxigênio é necessário para manter os pulmões inflados em meio à pressão – e, caso o retorno à superfície seja feito de forma apressada, o ar tende a se expandir, podendo levar à formação destas bolhas pelo corpo.

Além de ser uma condição rara, a embolia gasosa de Paulo Gustavo foi, segundo os boletins médicos, causada por algo igualmente raro: um tipo de fístula chamada de brônquio-venosa. Segundo Felipe, fístulas são rupturas responsáveis por ligar estruturas que não se comunicariam naturalmente, e elas podem acontecer em diversas partes do corpo.

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ttsz/iStock

Ao longo do tratamento, Paulo teve fístulas broncopleurais (entre uma estrutura interna do pulmão e a membrana que o reveste). Elas foram inicialmente sanadas, mas uma nova ruptura (a fístula brônquio-venosa, entre a mesma estrutura anterior e uma veia) foi responsável por permitir esta passagem de ar. Devido à obstrução causada pelas bolhas em vasos importantes, a embolia gasosa impede o sangue de chegar a determinados órgãos, levando-os, por isso, à falência.

“São eventos muito raros e que realmente podem ser catastróficos, como neste caso. Eventualmente, é possível uma tentativa de correção cirúrgica [das fístulas], mas, infelizmente, nem sempre há tempo hábil para isso”, afirma Felipe, ressaltando que estas rupturas podem ser causadas por certos procedimentos médicos, como o uso de cateter para hemodiálise ou da chamada Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO).

COVID-19 não é a causa direta

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Shawn Hempel vía Shutterstock

De acordo com Felipe, a embolia gasosa e a formação de fístulas brônquio-venosas não têm relação direta com a COVID-19 – ou seja, ter uma infecção pelo vírus não traz automaticamente um risco de desenvolver este quadro. As fístulas, no entanto, podem acontecer em decorrência de tratamentos usados em casos graves da doença, como o ECMO.

Embolia gasosa x tromboembolia

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Tatiana Shepeleva/Shutterstock

Apesar de compartilharem um nome, a embolia gasosa e a tromboembolia não são a mesma coisa. Isso porque, na gasosa, há obstrução de vasos sanguíneos por bolhas de ar e, na tromboembolia, esta obstrução de vasos ocorre por conta de coágulos. Enquanto no segundo caso é possível muitas vezes utilizar medicamentos para dissolver os coágulos, não há remédios que possam retirar o gás da corrente sanguínea.

Morte de Paulo Gustavo