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3 crianças morreram no Brasil por síndrome recém-descoberta associada à COVID-19

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Shawn Hempel vía Shutterstock | SciePro/Shutterstock

O Ministério da Saúde (MS) monitora casos da Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P), que tem aparecido em algumas crianças e adolescentes semanas após o contato com o SARS-CoV-2. O objetivo é confirmar se o quadro está mesmo relacionado à COVID-19, como vêm apontando evidências de diversos países e conforme foi alertado pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS).

Até julho, o Brasil havia registrado três mortes de crianças pela síndrome, todas no estado do Rio de Janeiro, e 71 casos, espalhados pelos estados do Ceará (29), Rio de Janeiro (22), Pará (18) e Piauí (2), conforme divulgação do MS feita em agosto.

Ainda que seja estatisticamente menos letal para crianças, a COVID-19 pode estar associada ao surgimento desta doença rara, que, por sua vez, é grave e pode levar à morte. Alguns casos fora do Brasil foram registrados inclusive em crianças assintomáticas para o coronavírus.

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CrispyPork/Shutterstock

Síndrome inflamatória em crianças possivelmente ligada à COVID-19

Desde abril, médicos em diversos países têm feito alertas a respeito de uma possível complicação da COVID-19 em crianças, mesmo em casos nos quais os pacientes não desenvolveram sintomas da infecção. Inicialmente, o quadro vinha sendo relacionado à vasculite conhecida como Síndrome de Kawasaki, mas, ao longo do tempo, foram notadas particularidades que levaram os médicos e cientistas a desconfiarem de outro quadro.

A síndrome observada atualmente tem uma gravidade maior, uma gama mais ampla de sintomas e um possível acometimento cardíaco importante, além de prevalecer, aparentemente, em crianças mais velhas do que as que costumam ser acometidas pela doença de Kawasaki. Assim, determinou-se que se trata de uma condição distinta, e ela passou então a ser classificada como Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P).

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Kateryna Kon/Shutterstock

Segundo Leonardo Campos, reumatologista pediátrico do Hospital Universitário Antônio Pedro e da Sociedade de Pediatria do Rio de Janeiro (SOPERJ), ainda não há confirmação científica da relação entre a SIM-P e o novo coronavírus, mas foi observado que, em um extenso número de pacientes que apresentaram o quadro inflamatório, ele apareceu semanas após infecção pelo vírus.

“Até o momento, todos os estudos mostram uma relação temporal relevante entre a infecção pelo SARS-CoV-2 e o desenvolvimento da SIM-P, com aumento do número de casos de quadros semelhantes à Síndrome de Kawasaki e outras características peculiares não observadas frequentemente antes da pandemia, como acometimento cardíaco grave e prevalência em crianças maiores”, afirma o médico.

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Chanintorn.v/Shutterstock

Conforme explica Campos, ainda não há dados suficientes para cravar o motivo desta manifestação em crianças, mas algumas hipóteses já foram levantadas. “A SIM-P parece surgir devido à resposta inflamatória desencadeada pela interação do vírus com o organismo de um indivíduo predisposto a desenvolver um quadro inflamatório”, diz ele, ressaltando que, em geral, ele aparece de duas a quatro semanas após a COVID-19.

Por vezes, no entanto, a síndrome aparece sem que o paciente tenha manifestado a infecção pelo novo coronavírus e os sintomas clássicos da doença (febre, tosse, falta de ar, entre outros). Segundo Campos, alguns dos casos têm o contágio anterior pelo SARS-CoV-2 identificado apenas por exames laboratoriais após o quadro ter passado despercebido pelo paciente.

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AGCuesta/Shutterstock

SIM-P no Brasil

Além de ter sido documentada no Reino Unido, nos Estados Unidos e em outros países, a SIM-P associada à COVID-19 também tem sido observada no Brasil – e, desde o dia 6 de agosto, o Ministério da Saúde tornou obrigatória a notificação dos casos, que, até julho, somavam 71, com três óbitos.

Segundo Campos, porém, devido ao fato de que anteriormente a SIM-P não estava sendo devidamente notificada, os números podem não ser fiéis à realidade. Nos Estados Unidos, onde houve um acompanhamento mais rígido da doença, foram registrados 570 casos entre março e julho, com um total de dez óbitos (o que representa 1,8% dos pacientes).

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siam.pukkato/Shutterstock

Sequelas

De acordo com o Ministério da Saúde, a maior parte dos casos (29) foi registrada no Ceará – e Caio Malachias, pediatra e diretor do Hospital Luís França, do sistema Hapvida, em Fortaleza, afirma que aproximadamente 16 crianças com o quadro foram tratadas na instituição durante os últimos três meses. Segundo ele, não houve nenhum óbito entre estes casos, mas alguns pacientes ainda apresentam sequelas.

“Os casos tiveram evolução satisfatória, mas todos mantêm-se, hoje, acompanhados pela nossa equipe de cardiologia, mantendo ecocardiografias periódicas para fazer avaliação das lesões cardíacas nos pacientes que apresentaram estas lesões. Dos que apresentaram, alguns já tiveram regressão e outros continuam sem evolução, mantendo a dilatação da [artéria] coronária no mesmo grau de quando estavam internados, sem piora”, diz.

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UGREEN 3S/shutterstock

Assim como Campos, Malachias afirma que não se observou ligação direta entre a SIM-P e a gravidade do quadro de COVID-19. “A criança pode ter sido assintomática, e a síndrome vem em uma fase posterior, depois da cura da COVID-19”, afirma o diretor do hospital. Segundo o Ministério da Saúde, os outros casos da SIM-P associada ao novo coronavírus foram registrados no Rio de Janeiro (22), no Pará (18) e no Piauí (2).

SIM-P: o que é preciso saber

Embora a síndrome ainda esteja sendo estudada (bem como sua relação com a COVID-19), já existem algumas informações úteis sobre ela, como a diferenciação para outras doenças, os principais sintomas e as possíveis sequelas observadas em pacientes.

SIM-P ou Kawasaki?

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SciePro/Shutterstock

Um dos primeiros alertas sobre uma síndrome inflamatória pediátrica afetando crianças que tiveram COVID-19 foi feito por médicos do Reino Unido que, na época, creditaram os casos à Síndrome de Kawasaki. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), de fato diversos pacientes com SIM-P podem apresentar critérios para a doença de Kawasaki completa ou incompleta, mas há diferenças entre as duas que geralmente permitem precisar o diagnóstico.

Conforme explica o órgão em um documento divulgado recentemente, enquanto a doença de Kawasaki costuma aparecer em crianças mais novas, a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica tem sido identificada em indivíduos mais velhos, em idade escolar ou adolescentes, além de apresentar um quadro inflamatório mais grave e lesões cardíacas – sintomas que não são observados na doença anterior.

Sintomas e complicações

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Arlee.P/Shutterstock

Conforme explica Campos, os sintomas mais frequentes da SIM-P são:

  • Febre acima de 38 persistente (mais de três dias);
  • Dor abdominal (que pode até simular apendicite);
  • Diarreia;
  • Vômitos;
  • Manchas no corpo;
  • Vermelhidão nos olhos, na boca ou nas extremidades (mãos e pés).

Além disso, a síndrome tende a afetar o coração – e isso é o que tem chamado mais a atenção dos especialistas de acordo com o médico. Segundo ele, ela pode causar disfunção cardíaca, choque ou miocardite em alguns pacientes, sendo estes os principais motivos de internação em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) em crianças acometidas pela SIM-P.

Tratamento

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Mesmo a síndrome não sendo amplamente conhecida, é possível tratá-la. “O tratamento precoce com medicamentos que visam controlar a inflamação é capaz de cessar o processo inflamatório na maioria dos pacientes e, principalmente, evitar que ocorra o comprometimento do coração, que pode se manifestar na forma de insuficiência cardíaca ou surgimento de dilatações nas artérias coronárias”, diz Campos.

Conforme descrito por Malachias, mesmo após o fim da internação, é preciso seguir monitorando e tratando alguns dos casos para avaliar cuidadosamente e buscar corrigir as lesões cardíacas.

Prevenção

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Maja Hitij/Equipe/Getty Images

Segundo Malachias, como a SIM-P está sendo relacionada à COVID-19, a melhor forma de prevenir que a criança seja acometida pela doença é prevenindo o contágio pelo novo coronavírus. É necessário, portanto, manter medidas de distanciamento social, higiene pessoal e o uso de máscaras fora de casa. Caso a criança ou alguém próximo tenha a infecção pelo novo coronavírus, é recomendado observá-la e buscar atendimento médico conforme sintomas da SIM-P aparecerem.

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