"Dedos de COVID": o que médicos dizem sobre o possível sintoma da doença

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Em meio às muitas descobertas e especulações sobre o COVID-19, médicos e estudiosos têm observado alguns novos sinais que aparentam estar ligados à infecção – e um deles, um sintoma dermatológico apelidado de “dedos de COVID”, tem dividido opiniões no meio médico. Entenda como este sintoma se manifesta e o que dizem os especialistas a respeito dele.

“Dedos de COVID-19”: o que é isso?

Por se tratar de uma doença desconhecida até o início deste ano, a infecção causada pelo novo coronavírus ainda está sendo estudada e, de tempos em tempos, novos sintomas ou complicações passam a ser relacionados a ela por especialistas. Um deles, por sua vez, vem sendo chamado de “dedos de COVID”, e se trata de uma manifestação na pele.

Segundo alguns poucos estudos, realizados tanto na Ásia quanto na Europa, há certos indícios de que o SARS-CoV-2 pode estar causando, em alguns pacientes, uma lesão cutânea caracterizada por vermelhidão, inchaço, bolhas ocasionais e descamação. Em geral, o sintoma foi relatado com mais frequência nas extremidades do corpo (ou seja, pontas dos dedos das mãos e dos pés), mas há também relatos de pacientes de COVID-19 com erupções no tronco.

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O que dizem os médicos

Assim como outros sintomas do coronavírus relatados por estudos pequenos, boa parte dos especialistas acredita não haver provas conclusivas de que os “dedos de COVID-19” sejam um sinal determinante da doença – até porque, desde que a pandemia começou, não foram documentados muitas destas manifestações. Um destes médicos é Paulo Ricardo Criado, coordenador da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

Conforme explicou ele em uma análise acerca de estudos que documentaram o sintoma, os indícios ainda são muito singelos e insuficientes para estabelecer uma relação entre as erupções cutâneas e a infecção pelo novo coronavírus. “Até o presente momento, não há, sob minha opinião pessoal, qualquer marcador cutâneo que indique a presença de infecção pelo SARS-CoV-2”, escreveu ele.

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Por outro lado, no mesmo artigo, ele citou que estudos acerca de outros tipos de coronavírus (como o causador da Síndrome Respiratória Aguda Grave, a SARS) demonstraram relação entre eles e doenças com “repercussão dermatológica” – mas isso, segundo o médico, também não comprova nada, especialmente porque o COVID-19 é causado por um vírus de estrutura diferente da dos demais.

Médicos na Espanha, porém, têm feito alertas quanto ao sintoma. Em entrevista ao canal local “Antena 3”, a dermatologista espanhola Cristina Galván relatou ter observado o sintoma especialmente em pacientes com menor predisposição ao contágio pelo vírus, como recém-nascidos, crianças e adolescentes, e destacou que vários de seus colegas também estão observando quadros parecidos.

“A pele das extremidades tende a ficar vermelha em um setor da população que, em um primeiro momento, não se considerava ‘de risco’ [para o COVID-19] (...) embora este novo sintoma não possa ser limitado a pessoas jovens”, explicou a médica, enfatizando que também não vê este sintoma como conclusivo para diagnóstico da infecção. Já a dermatologista brasileira Marcela Condé explica a possível relação.

Segundo a médica da Clínica Penchel, estas erupções cutâneas observadas em casos de COVID-19 são chamadas petéquias e aparecem como consequência de sangramentos ocasionados por uma diminuição na quantidade de plaquetas no sangue. Isso, conforme explica, é comum em doenças que geram alteração na coagulação sanguínea, como a dengue e a mononucleose.

A também dermatologista da SBD Maria Paula Del Nero também tende a relacionar os “dedos de COVID” a uma manifestação vascular, e lembra que o impacto na circulação sanguínea é um aspecto que tem sido observado em quadros de coronavírus, mesmo na ausência de erupções na pele.

“Provavelmente é uma manifestação autoimune ou inflamação dos vasos pelo vírus. Já foram observados vários sinais de inflamação dos vasos provocando vasculite em outros locais, não só a pele”, afirma.

Não é sintoma determinante

Marcela Condé lembra que este tipo de sintoma costuma aparecer acompanhado de outros típicos da doença e já em uma fase avançada. A orientação é observar este tipo de manifestação caso ocorra, mas somente buscar atendimento emergencial caso tenha os sintomas de alerta da COVID-19, conforme estabelecido pelas autoridades de saúde, como febre, tosse e dificuldade para respirar.

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