De mil pessoas com coronavírus, cerca de 30 morrem; já na gripe comum, apenas 1

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Tanto pela semelhança entre os sintomas quanto pelo fato de gerar um quadro leve na maioria dos infectados, o COVID-19, doença causada pelo novo coronavírus, tem sido comparado à gripe comum. Em mais de uma ocasião, o Presidente da República, Jair Bolsonaro, se referiu ao quadro como "gripezinha", minimizando as sérias consequências da pandemia que já matou mais de 20 mil pessoas no mundo em menos de quatro meses.

Porém, os dados mostram outro cenário e, segundo especialistas, as duas doenças se diferem em muitos pontos, o que torna o SARS-CoV-2 uma ameaça maior.

Coronavírus e gripe sazonal: diferenças

O epidemiologista André Ribas, professor da Faculdade São Leopoldo Mandic, afirma que subestimar o vírus é perigoso.

“A infecção, clinicamente, pode ser um pouco parecida, mas do ponto de vista de mortalidade, a do coronavírus é imensamente maior. A taxa básica de transmissão é incrivelmente maior também”, afirma, explicando em quais pontos as duas infecções diferem e mostrando por que a situação do COVID-19 não pode ser resumida em uma “gripezinha”.

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Sintomas

Como ambas são doenças que afetam o trato respiratório, o COVID-19 e ainfluenza (gripe sazonal) apresentam sintomas parecidos, como febre, tosse, coriza ocasional e um potencial para complicações respiratórias. Sendo assim, do ponto de vista clínico geral, o epidemiologista afirma que não há diferenças entre os sintomas das duas infecções.

Com relação aos sintomas, o que muda, de acordo com uma comparação elaborada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e publicada no site do órgão, é a quantidade de pessoas acometidas por COVID-19 e por gripe comum que experimentam quadros graves ou gravíssimos destas doenças.

Segundo o órgão, é estimado que 15% dos infectados pelo novo coronavírus desenvolvem sintomas severos que requerem oxigenação, enquanto 5% são acometidos por quadros de infecção mais críticos, fazendo com que os pacientes precisem de ventilação mecânica – percentuais que, quando se trata da influenza, são menores.

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Transmissão

Um dos principais pontos que diferenciam a gripe sazonal e a infecção pelo novo coronavírus é a taxa básica de transmissão deles. Esta taxa, segundo Ribas, representa o número de pessoas que um único infectado pode contaminar: enquanto a da influenza sazonal fica em torno de 1,3, a do COVID-19 é o dobro: 2,6.

“A taxa básica de transmissão é incrivelmente maior. Parece um número pequeno, mas, como o aumento [dos casos] é exponencial, tem uma diferença incrível essa uma unidade”, afirma o epidemiologista, se referindo ao fato de que apenas um caso da doença pode, rapidamente, originar muitos outros.

Na influenza, um caso dá origem a cerca de dois, que, por sua vez, dão origem a cerca de 4, que dão origem a cerca de oito em um quarto “ciclo” de contágio, e daí por diante. Enquanto isso, um caso de COVID-19 dá origem a aproximadamente três, que dão origem a cerca de nove, que por sua vez dão origem a cerca de 27 em um mesmo número de “ciclos” (porém em menos tempo).

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Consequências para o sistema de saúde

Por causar mortes e ser uma ameaça especialmente para as populações mais idosas, a gripe é, sim, um problema que sistemas de saúde do mundo todo enfrentam constantemente – e este é justamente o ponto que faz o COVID-19 representar um obstáculo maior que a influenza para hospitais e profissionais da área.

Enquanto os vírus da gripe sazonal são conhecidos, passíveis de imunização (realizada gratuitamente) e suas estatísticas são monitoradas (e previstas), o novo coronavírus é desconhecido e, atualmente, o mundo vive um “pico” de contágio, algo diferente de um cenário com casos distribuídos de forma relativamente uniforme em um período ou concentrados em uma época do ano.

Segundo o epidemiologista, a transmissão do COVID-19 é bem mais rápida e, por isso, o número de casos esperado em um curto espaço de tempo é bem maior, algo que sobrecarrega o sistema de saúde. “O grande acúmulo de pacientes afetados muito rapidamente piora a situação. Realmente, a velocidade de transmissão do COVID-19 contribui para o agravamento da lotação de hospitais”, diz.

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Apesar de as chances de desenvolver quadros mais graves seja realmente bem maior para a população acima dos 60 anos (que é minoria no Brasil), boa parte dos infectados (4%, segundo Ribas) tende a ser pessoas que estão abaixo desta faixa etária. Isso, por sua vez, faz com que o número de pacientes precisando de cuidados intensivos ao mesmo tempo supere a capacidade do sistema de saúde.

É justamente deste fato que vem a recomendação de “achatar” a chamada curva epidemiológica; quando as transmissões não são contidas, o gráfico de número de casos por dia é ilustrado por um pico que ultrapassa a capacidade do sistema de saúde. Ao contê-las (especialmente com o isolamento, que é importante tanto para idosos quanto para os mais jovens), o contágio desacelera, reduzindo a quantidade de novos casos por dia e desafogando hospitais.

Mortalidade

De acordo com a OMS, a taxa de mortalidade da infecção pelo novo coronavírus fica entre 3 e 4% - percentual já superior ao da influenza, que geralmente está abaixo de 0,1%. Esta diferença, no entanto, pode aumentar, porque a falta de conhecimento sobre o vírus e a variação da situação epidemiológica de cada país transformam essa taxa em algo dinâmico.

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“A taxa de letalidade varia de acordo com a resposta do sistema, a capacidade de atendimento dos pacientes”, afirma o médico, e isto explica, por exemplo, por que a taxa de letalidade do novo coronavírus na Coreia do Sul tem ficado em torno de 0,7%, enquanto a da Itália passa dos 7%.

Grupos de risco

Segundo a OMS, as pessoas que estão sob mais risco de desenvolver complicações e morrer em decorrência da influenza e do novo coronavírus também são um pouco diferentes. Enquanto o grupo de risco da gripe é composto por crianças, gestantes, idosos, portadores de doenças crônicas e imunodeprimidos, o COVID-19 não tem em seu grupo de maior vulnerabilidade as crianças, nem as mulheres grávidas.

COVID-19 não é letal apenas para idosos

Outra taxa que tem sido destacada é a de mortalidade por idade, e Ribas frisa que é importante não menosprezar o percentual aparentemente baixo. Muito se fala sobre o COVID-19 ser letal “apenas” entre idosos, e isso não é real; conforme explica o médico, desde o início da pandemia, na China, tem se observado que a quantidade de casos graves entre menores de 60 anos é, apesar de menor, preocupante.

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“Entre os pacientes com menos de 65 anos, a necessidade de internar em UTI foi de 4%. Parece pouco, mas não é, porque não tem recurso para a internação de tanta gente”, explica o médico, e o cenário é claro: se os leitos de UTI não são suficientes para internar todos que precisam, há mais mortes, sejam elas de pessoas idosas ou não.

“Na minha estimativa, aplicando à população brasileira, que é mais jovem que a chinesa e que a italiana, eu estimo que em torno de 60% dos leitos de UTI vão ser ocupados por adultos jovens”, calcula o epidemiologista.

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