"Temos que ter coragem": como conselho de Marielle transformou Renata em um marco

“A gente nunca vai se imaginar nesse lugar. Temos que ter coragem. Vamos juntas. Vamos ver no que vai dar. E aí você me põe como chefe do seu gabinete”. Foi com essas palavras que a ex-vereadora Marielle Franco encorajou Renata Souza, uma de suas assessoras, a lançar uma candidatura na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), ainda em 2016.

O conselho dado pela amiga e companheira de militância não foi apenas ouvido, como resultou em um marco importantíssimo. Em 2018, Renata foi eleita deputada estadual com 63.937 votos. Em poucos meses no cargo, ela dedicou seus esforços a iniciativas que fizessem jus ao legado deixado pela amiga, o que culminou em uma nomeação histórica: no dia 26 de fevereiro de 2019, Renata Souza se tornou oficialmente a primeira mulher negra a presidir a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Ao falar sobre o novo cargo, ela faz questão de lembrar da influência da atuação da amiga no processo. “Marielle é a estrela guia na abertura de caminhos para nós, mulheres, na política. A construção que fizemos juntas em 12 anos de trabalho, dentro da Alerj e também na Câmara dos Vereadores, traz para nós uma responsabilidade muito grande, não só de continuidade desse trabalho desenvolvido por ela, mas também de ampliação dele”, afirma.

Renata Souza e Marielle Franco

Marielle foi a quinta vereadora mais votada nas eleições municipais de 2016, no Rio de Janeiro, e teve a trajetória política brutalmente interrompida. Na noite de 14 de março de 2018, ela foi assassinada a tiros ao sair de uma palestra na capital fluminense. O motorista Anderson Pedro Gomes, que estava com ela, também foi vítima dos disparos e não sobreviveu.

A morte de Marielle motivou um amplo movimento político e social que está garantindo que as ideias da ativista continuem germinando por todos os lados. A parlamentar se tornou um símbolo de resistência, o que motivou muita gente a transformar o "luto em luta". Renata é uma dessas pessoas.

Chefe de gabinete de Marielle

Assim como Marielle, ela defende minorias que são, historicamente, invisíveis aos olhos da política brasileira: mulher, negra e periférica. Ela mesma, aliás, é mais uma "cria da Maré", complexo de favelas na Zona Norte do Rio de Janeiro, que também era berço da vereadora assassinada. E foi justamente na comunidade que o caminho das duas acabou se cruzando.

Renata e Marielle se conheceram no ano 2000, quando fizeram pré-vestibular comunitário juntas. Desde então, as duas uniram interesses e forças na militância pelos direitos humanos e na luta por igualdade social, especialmente nas comunidades carentes do Rio de Janeiro. E dessa parceria acabou surgindo uma admiração mútua que guiou as colegas ruma à vida política.

“A Marielle me influencia há 18 anos. Nunca passou despercebida nas suas articulações e decisões políticas. Estudamos na PUC-RJ juntas, duas faveladas negras na universidade da elite do Rio. Nos inserimos nas lutas pela vida digna na favela a partir da brutalidade e violência. Logo trabalhamos cotidianamente nos últimos 12 anos de sua vida”, recordou Renata em entrevista ao VIX.

Quando Marielle decidiu se lançar como vereadora, Renata não deixou de apoiar a amiga e participou ativamente da campanha que a levou à vitória nas urnas. Uma vez eleita, Marielle reconheceu o apoio da colega nomeando-a como chefe de seu gabinete, cargo de alta confiança e responsabilidade política.

O trabalho das duas na Câmara Municipal só seria interrompido da maneira mais cruel: com pouco mais de um ano de mandato, Marielle foi assassinada depois de sair de um encontro com ativistas do movimento feminista negro. O crime que abalou a população poderia ter desanimado Renata a continuar na luta, porém o que ela fez foi exatamente o oposto.

“Em 2016, Mari me encorajou a uma possível candidatura. Suas palavras me deram força no momento em que tive que tomar uma decisão e vão me acompanhar em toda a minha caminhada política. Ela sempre falou que não queria estar sozinha como uma mulher negra na política institucional. E suas lutas foram encampadas por todas aquelas que se sentiram convocadas a estarem nesse lugar”, disse Renata.

Renata Souza na Alerj

Após assumir seu cargo na Assembleia, Renata também tomou a decisão de cultivar outra “semente” deixada por Marielle e levou para seu gabinete Luyara dos Santos, filha da vereadora assassinada. A jovem de 19 anos agora compõe a equipe de negritude e juventude da deputada, com a função de acompanhar de perto os desdobramentos desses dois temas.

“Luyara representa o fruto da sobrevivência de uma mãe preta que criou sozinha uma filha. Seja na política ou em qualquer lugar que queira, ela tem toda a condição e ferramentas para trabalhar pela garantia da vida da juventude negra favelada e periférica”, completou.

Renata sabe que, no momento atual, ela assumir o posto de presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania é simbólico, além de muito necessário.

“O trabalho da Marielle só ganhou força após a sua morte. Mas a gente observa que, ao mesmo tempo, ela trouxe para todas as mulheres, principalmente as mulheres negras, a importância de virem para a linha de frente da política. Não tenho dúvidas de que ela está muito orgulhosa e feliz onde quer que ela esteja, iluminando os nossos caminhos. Eu sinto, a gente sente a Marielle todos os dias”, finaliza.

Para relembrar a trajetória de Marielle Franco, assista ao vídeo abaixo

Morte de Marielle Franco