7 provas de que Marielle virou semente e ainda hoje está transformando nossas vidas

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Kauê Scarim / PSOL

A morte de Marielle Franco permanece sem esclarecimento cerca de um ano após a execução que chocou o país, em março de 2018. As investigações continuam em sigilo e a única certeza até agora é de que, seja qual for o fim dessa história, o caso não será reduzido a apenas mais um no rol de crimes impunes no Brasil. Isso graças a um movimento impremeditado, social e político, de pessoas que buscam provar que as ideias da parlamentar germinaram, que Marielle vive.

Quinta vereadora mais votada nas eleições municipais de 2016, ela retratava os 46.502 votos que recebeu na capital fluminense, mas não somente seus eleitores. Aos 38 anos, Marielle dedicou seu mandato interrompido precocemente na Câmara à defesa das minorias e à representatividade feminina, LGBTI e negra na política brasileira.

Após o assassinato brutal, que também vitimou o motorista Anderson Pedro Gomes, de 39 anos, Marielle agora se torna o símbolo de resistência que motiva a transformar o "luto em luta". A vereadora inspirou homenagens e manifestações, no Brasil e no mundo, e iniciativas que impactam ainda hoje a vida cotidiana e política dos cidadãos. Depois da tragédia, Marielle virou semente.

Legado de Marielle Franco

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Matheus Obst / Shutterstock

1. Mudança no perfil político do Brasil

A execução de Marielle potencializou o crescimento da presença das mulheres negras na política, algo que poderia ter demorado mais tempo, segundo avalia a ex-assessora da vereadora, e agora eleita deputada estadual pelo Rio de Janeiro, com mais de 40 mil votos, Mônica Francisco. “É um processo do qual ela mesma foi fruto, um processo histórico da luta feminina no século XXI”, diz em entrevista ao VIX.

Nas eleições de 2018, ficou evidente o crescimento da participação feminina negra nos parlamentos brasileiros (ainda que, proporcionalmente, o número seja baixo em relação à população e esteja longe do cenário ideal). Foram eleitas 65 candidatas autodeclaradas pretas ou pardas para cargos na Câmara dos Deputados, no Senado e nas assembleias estaduais. Essa marca equivale a 4% das vagas disputadas no pleito e representa um crescimento de 38% em relação a 2014.

Atrás somente de São Paulo, o Rio de Janeiro se tornou o segundo Estado brasileiro com maior presença de mulheres negras na política. Quatro dessas parlamentares eleitas, todas representantes do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), são ligadas diretamente a Marielle Franco.

2. Mulheres seguindo as pautas de Marielle

Além de Mônica, há outras mulheres que entraram recentemente na política com a missão de defender pautas ligadas aos direitos humanos, às questões raciais e às causas feministas. Exatamente como fez a vereadora.

Outras ex-assessoras de Marielle, Renata Souza e Dani Monteiro também foram eleitas deputadas estaduais pelo Rio. Já Talíria Petrone, que era amiga pessoal da ativista assassinada, conseguiu um cargo como deputada federal e irá trabalhar diretamente em Brasília.

“Marielle sempre falou que não queria estar sozinha como uma mulher negra na política institucional. Ela já se colocava a missão de estimular mais participação e isonomia democrática na política. E suas lutas foram encampadas por todas aquelas que se sentiram convocadas a estarem nesse lugar. Marielle semeou esses frutos ainda em vida”, conta Renata Souza, amiga da vereadora desde a faculdade e que trabalhou ao lado dela por 12 anos.

3. Filha de Marielle na política

Desde que assumiu o cargo na Assembleia, Renata também tomou a decisão de fazer germinar outra “semente” deixada por Marielle e convocou para seu gabinete Luyara dos Santos, filha da vereadora assassinada. A jovem de 19 anos compõe a equipe de negritude e juventude da deputada, com a função de acompanhar de perto os desdobramentos desses dois temas.

“Luyara representa o fruto da sobrevivência de uma mãe preta que criou sozinha uma filha. Seja na política ou em qualquer lugar que queira, ela tem toda a condição e ferramentas para trabalhar pela garantia da vida da juventude negra favelada e periférica”, completou.

4. Viúva carrega e espalha nome da vereadora

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Fernando Frazão/Agência Brasil

Embora nunca tenha enveredado pela política antes, nem mesmo quando a vereadora era viva, a arquiteta Mônica Benício, viúva de Marielle, também assumiu o compromisso de dar continuidade ao legado da companheira – tanto dentro quanto fora da Câmara.

Após o crime, ela deixou de lado sua profissão para se dedicar 100% à memória de Marielle e mergulhou na luta pelos direitos humanos, encabeçando ações e iniciativas que cobram respostas das autoridades sobre o assassinato da parceira. Em seu primeiro discurso público, realizado no plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília, Mônica resumiu seu sentimento diante da missão.

“A Marielle tinha urgência de vida e pulsava luta, e isso está sendo demonstrado no Brasil e no mundo. A voz dela não pode ser calada com a morte de seu corpo. A luta não terminou com a morte dela, com a ausência física dela. A Marielle se transformou numa coisa muito maior, ela se tornou um símbolo de esperança e é por isso que a gente vai lutar e seguir lutando, porque Marielle é resistência, Marielle é força, Marielle é potência", disse ela, ao lado da cunhada, Anielle Franco.

Com uma foto de Marielle tatuada em seu braço, Mônica também aceitou o convite para trabalhar na liderança do PSOL na Câmara dos Deputados, em Brasília, assessorando parlamentares principalmente nas pautas relacionadas às causas femininas e questões da comunidade LGBTI+. Desde então, sua atuação é incessante.

5. Sociedade mais consciente

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Elizabeth Paik / Shutterstock

Engana-se, porém, quem acredita que o impacto da morte de Marielle só fez surgir novas candidatas. De acordo com a pesquisadora Cinthia Gomes, integrante da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial e uma das organizadoras da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, o aumento da presença feminina negra na política é reflexo do surgimento de novas ativistas, mulheres que estão na sociedade. Ou seja: as novas "Marielles" não estão só no palanque, mas por todos os lados, nas ruas e comunidades.

“A percepção de que havia sido assassinada uma mulher, negra, militante, por causa de suas ideias e de sua atuação, foi muito chocante para as pessoas e isso ativou algo de indignação nelas, algo de perceber a necessidade de não apenas viver a sua própria vida. Isso gerou um sentimento de medo, de tristeza, mas também de revolta e de maior engajamento na luta”, acredita.

Ainda que tragicamente, a morte de Marielle parece ter conscientizado muita gente a lutar por reivindicações que, até então, não tinham vez no Brasil, como, por exemplo, as bandeiras defendidas pelo feminismo negro no Brasil.

“Preferíamos mil vezes que o fortalecimento da nossa luta não viesse dessa forma, mas o fato de a terem arrancado de nós daquele jeito vil, nos empurra a levantar todos os dias com mais gana de seguir lutando para mudar essa realidade”, diz a jornalista Luciana Araújo, outra organizadora da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo.

6. Projetos de Marielle Franco seguem

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Marcelo Camargo / Agência Brasil

No dia em que a morte de Marielle completou 150 dias, a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro também deu continuidade à atuação da vereadora, aprovando cinco propostas de Projetos de Lei de autoria dela. Dessas, quatro continuam aguardando sanção do prefeito e trarão benefícios consistentes à população quando se tornarem lei no município. São eles:

  • Espaço Coruja: cria um espaço para acolhimento das crianças no período da noite, para que pais ou responsáveis possam trabalhar ou estudar.
  • Assédio não é passageiro: cria a campanha permanente de enfrentamento ao assédio e violência sexual nos espaços públicos e transportes coletivos do Rio de Janeiro.
  • Dossiê Mulher Carioca: cria um dossiê a partir de dados da Saúde e Assistência Social para ajudar a formular políticas públicas para mulheres.
  • Efetivação das Medidas Socioeducativas em Meio Aberto: prevê que o município cumpra suas obrigações legais, garantindo que as medidas socioeducativas do Judiciário sejam cumpridas pelos adolescentes em meio aberto e, eventualmente, dando-lhes oportunidades de ingresso no mercado de trabalho.

O outro projeto assinado por Marielle em vida foi aceito pelo prefeito Marcelo Crivella e passou a ser lei no Rio de Janeiro, incluindo no calendário oficial da cidade o Dia de Thereza de Benguela, como celebração adicional ao Dia da Mulher Negra. Feita em homenagem à líder quilombola, a data passou a ser celebrada em todo 25 de julho.

Outras duas propostas da ex-vereadora ainda estão pendentes, aguardando votação. Uma delas institui assistência técnica pública para projeto, construção e regularização de habitação para famílias de baixa renda. Já a outra propõe a criação do dia de luta contra a homofobia.

7. Ninguém esqueceu

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Antonio Scorza / Shutterstock

Nas ruas, a vereadora foi lembrada por passeatas, manifestações e obras de arte construídas ao ar livre ao longo deste um ano de sua morte. Ela virou grafite da ativista paquistanesa e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Malala Yousafzai, no bairro do Catete, no Rio; em São Paulo, seu rosto estampa um painel gigante em uma famosa escadaria no bairro de Pinheiros; já na Bahia, Marielle pode virar nome de rua em Salvador; e ela até já inspirou a criação do "Dia Marielle Franco", no Rio de Janeiro, que será celebrado todo 14 de março.

Marielle também virou literatura. Sua dissertação de mestrado foi lançada como livro em 18 cidades brasileiras. Nela, a ativista faz uma análise sobre a implementação das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) e os impactos na segurança pública do Rio de Janeiro. Em breve, a irmã da vereadora, Anielle Franco, também deve lançar um livro de homenagens com o título provisório de "Cartas para Marielle".

E o impacto do assassinato de Marielle Franco não se limitou às fronteiras brasileiras. A Universidade Johns Hopkins, nos EUA, criou uma bolsa de estudos com o nome da ativista para interessados em cursar o mestrado em relações internacionais com foco em América Latina.

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Fernando Frazão / Agência Brasil

Todas essas ações representam afinal o desejo de manter Marielle presente, Marielle semente, Marielle viva, após o que a pesquisadora Cinthia Gomes considera um dos maiores atentados à democracia.

“Matar uma parlamentar, no exercício de seu mandato, por causa de sua atuação, que é comprometida com quem a elegeu, não é apenas um homicídio, é um crime político. Por isso, não podemos deixar de falar de Marielle", finaliza.

Se você quer conhecer um pouco mais da trajetória de Marielle Franco, assista ao vídeo abaixo

    Morte de Marielle Franco