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Em carta ao corpo, ela conta como passou a enfim amá-lo: “Dá tempo de me desculpar?"

O corpo fala, emite sinais, constrói sua própria linguagem e, nem sempre sabemos ou queremos escutar. Falar com o corpo também é desafiador, principalmente quando estamos acostumados a reproduzir um discurso de ódio a nossa forma física que, por vezes, “insiste” em não se encaixar nos padrões de beleza.

A recepcionista Fábia E. Gomes, 26 anos, de São Paulo, deu um passo inspirador nesta relação de amor próprio, dentro de um projeto fotográfico lindo – o Entre Tantos Amores, o Próprio – da fotógrafa Andreza Pinheiro.

As duas são amigas e fizeram uma sessão de fotos libertadoras de Fábia que, depois de “26 anos de complexo”, também escreveu uma carta para o próprio corpo. 

O relato intenso tem uma mensagem importante para muitas mulheres que também vivem em crise com o corpo – vítimas de uma sociedade que não valoriza individualidades e molda o pensamento para a cultura da insatisfação com o que se tem –: “está tudo bem”. 

E, a qualquer hora que você estiver pronta para perceber isso, poderá fazer das palavras de Fábia as suas e direcioná-las diretamente a seu corpo: “Ainda dá tempo de me desculpar? Você vem me motivando cada dia mais a ver que você é único, é meu, e eu posso ser o que quiser com você. Juntos, transformamos nossa dor em luta, somos parceiros de guerra! Podemos somar 13 kg, 18 kg ou 25 kg, que a nossa essência continua a mesma”.

Relato sobre amor próprio

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Andreza Pinheiro/Entre Tantos Amores, o Próprio

Fábia está em um processo de aceitação do corpo, em um exercício diário de autoestima e, em entrevista ao VIX, explicou que as fotos tiradas pela amiga foram uma experiência renovadora neste sentido.

“Cresci rodeada de regras, cresci sabendo que não era magra. A distorção que eu fazia da minha própria imagem era desumana, e isso se estendeu por esses longos anos. Eu estava cansada, as pessoas também estavam. Eu sabia que algo deveria ser feito, então, procurei empoderamento e suporte em quem realmente poderia me ajudar”, relata a recepcionista, que passou pelo efeito sanfona e por uma tentativa de suicídio por não se sentir bem com o corpo.

“Depois de perder 15 kg e engordar 18 kg depois de quatro anos, suicídio foi uma opção, mas ainda bem que mal sucedida. Foram choros intermináveis... Até que eu entendi que estava tudo bem”, comenta. 

“O processo de aceitação é contínuo. Ele não parou ali. Poder se olhar no espelho de forma mais leve tem tornado os meus dias melhores. Entender que o meu corpo é parte do meu dia a dia e das minhas ações demanda exercícios diários de autoestima. Todos os dias eu me desafio a ser alguém melhor para mim mesma. Hoje, bem acima do meu peso, eu consigo sair na rua sem medo e consigo comer sem culpa. Mas, é importante lembrar que é um dia de cada vez”.

Leia a carta completa:

“Venho por intermédio de palavras demonstrar tudo aquilo que passamos juntos. Falar nunca foi meu forte, no quesito fazer, costumo procrastinar, mas quando escrevo… senta que lá vem história. 

Lembra quando enfrentamos nosso primeiro 1Cº da vida? Passamos juntos por calores intensos, você me permitiu mergulhar em águas lindas, me levou para todos os lugares que eu quis, sempre fez minhas vontades. Pedalamos até você ficar exausto, andamos até não sentir mais os pés. Dançamos até o chão, pogamos, batemos cabelo e o único retorno que eu te dei depois de tudo foi ódio, repúdio, raiva.

Eu achei que você era o culpado por nenhum relacionamento dar certo, por minhas calças nunca serem menor que 44, por nunca entrar numa roupa tamanho P. Te achei um erro. Por que comigo? Por que em mim? Quanto choro dentro de provadores, quantas noites sem dormir, quantas crises existenciais, crises de ansiedade, crises, crises e mais crises… como a sociedade nos aceitaria?

Por que éramos tão feios juntos? E, em momento nenhum você me deixou. Você continuou aqui, saudável, pronto pra outra. Nunca doente, sempre forte. 

Ouvimos coisas horríveis, já disseram que meu rosto era mais bonito do que você, que era grande demais pra mim, que podíamos emagrecer o quanto fosse que nunca iríamos mudar. 

Te cortei, coloquei coisas em você as quais talvez nunca entenda. Quis te modificar, modifiquei. Passamos juntos por escoriações de drenagem, agulhadas de carboxiterapia (lembra como era horrível?), bisturi, anestesia geral, tatuagens, fiz de tudo para que você deixasse de ser você. Te cobri em roupas largas… cogitei não existirmos mais, e assim acabar com essa dor, mas você é mais persistente do que eu imaginava.

Juntos tomamos shakes, contamos pontos, tiramos o carbo, o glúten, tomamos laxante, chás milagrosos, sibutramina, passamos fome, fomos ao médico caçar problemas por você ser tão “fora do padrão”… mas que diabos de padrão? Mídia, revistas, pessoas, internet… é isso! O padrão que sempre nos apagou e nos diminuiu, e eu ainda queria que você fizesse parte dele! Como eu pude? 

Ainda dá tempo de me desculpar? Você vem me motivando cada dia mais a ver que você é único, é meu, e eu posso ser o que quiser com você. Juntos, transformamos nossa dor em luta, somos parceiros de guerra! Podemos somar 13, 18 ou 25 Kg que a nossa essência continua a mesma. 

Obrigada por me suportar (literalmente!), segurar a barra, nunca me deixar na mão. Você é demais, eu sei que é… eu vou te enxergar assim, aguenta mais um pouco, estamos no caminho certo.. Está tudo bem amigo.

Agora, paro por aqui. Afinal, são lágrimas de 26 anos complexos rolando. Ninguém disse que seria fácil, mas me alertaram que seria libertador!”.

Projeto fotográfico de aceitação do corpo

A fotógrafa Andreza Pinheiro é de São Paulo e é a idealizadora do projeto “Entre tantos amores, o próprio”. "O projeto surgiu em um momento em que eu precisava de uma motivação, além do prazer de fotografar", declarou a profissional em entrevista ao VIX.

Quem for de São Paulo e tiver uma história de transformação e aceitação pode participar do projeto, enviando o relato para o e-mail projeto.etaop@gmail.com. A fotógrafa faz uma seleção após encontrar com a interessada pessoalmente - e não há nenhum custo envolvido.

"Cada fotografia carrega uma história e percebi que outras mulheres poderiam se identificar ou se fortalecer com isso. Entre algumas conversas e por amigas que me inspiram surgiu o projeto, que foi nomeado junto com a Fábia".

Fábia já havia sido modelo para outros projetos de faculdade da amiga, mas, “a exposição era contida. Na verdade, eu tentava me esconder com meia calça, cintas e qualquer outra tentativa de emagrecimento”, relata.

“Eu tenho certa dificuldade de lidar com o meu aumento de peso em fotos. Então, colocar meu corpo pra jogo de uma forma tão sensível e intensa, coisa que só a Andreza conseguiria fazer, fez com que eu entendesse que meu corpo não anula a minha capacidade de ser feliz, ele apenas soma”. 

Histórias de amor ao corpo