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Rios voadores: há um volume enorme de água sobre nossas cabeças. De onde vem?

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Há um rio tão grande ou maior que o Rio Amazonas correndo pelo Brasil. Ele também começa na floresta amazônica e avança até a Cordilheira dos Andes. Depois se dividir em direção ao norte da Argentina e ao Sul, Sudeste e Centro-Oeste brasileiros. Esse rio, contudo, passa por cima de nossas cabeças.

O fenômeno é conhecido como rios voadores ou rios aéreos. A quantidade de água que transporta de fato supera 200.000 milhões de litros por segundo, que é vazão do Rio Amazonas em períodos de cheia. Por todo o continente sul-americano, ele deixa um rastro de chuvas e equilíbrio hídrico.

Trajeto do rio voador

Nascente

Ao contrário dos rios continentais, os rios voadores não terminam nos oceanos, começam neles. A água que evapora dos oceanos se forma como lagos aéreos móveis. No caso amazônico, essa grande condensação de água entra no continente pelos estados do Pará e Amapá até se concentrar sobre a floresta.

Segundo uma recente teoria científica chamada de bomba biótica, de pouco mais de dez anos, este processo se dá porque as florestas - dadas as condições das copas das árvores, rios, solos úmidos, etc. - têm capacidade de condensar a umidade, ou seja, conservar muita água, ao invés de reter diretamente a temperatura e a energia do Sol, como acontece com o Cerrado, por exemplo. 

Desta forma, estes lagos aéreos avançam em direção à floresta - ao contrário do que acontece nos desertos.

Em palestra, o professor Antonio Donato Nobre, pesquisador do clima amazônico pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE), explicou que, de acordo com a teoria da bomba biótica, os rios aéreos não só promovem equilíbrio hídrico, como também impedem que ocorra furacões. “A Amazônia puxa o vapor de água oceânico para o continente e o acelera, impedindo a organização dos furacões”, disse.

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Quando sobrevoa a Amazônia, esta concentração bastante densa de água precipita em forma de chuva. E chove muito: em média, são cerca de 3000 milímetros por ano - é o dobro do índice pluviométrico da cidade de São Paulo, por exemplo.

Acontece que mais da metade dessa água volta para a atmosfera depois de ser reciclada pela floresta. As árvores promovem um fenômeno chamado evapotranspiração, que nada mais é que o movimento no qual a água evapora das folhas das plantas. Assim, o equilíbrio hídrico da atmosfera se mantém.

O vapor de água reciclado pela Amazônia é menos denso e se movimenta em direção ao continente, empurrado pelos ventos alíseos, que é a corrente que empurra as massas de ar equatoriais para dentro do continente.

Atravessando o continente rumo à Cordilheira dos Andes

Isso significa que o ar continua bastante úmido e segue viagem para o interior do continente sul-americano, equilibrando os biomas da região.

O rio aéreo sobrevoa o continente em direção ao oeste. Sua altura de condensação e seu fluxo se localizam a aproximadamente três quilômetros acima do nível do mar. Isso significa que ao encontrar a Cordilheira dos Andes o rio vai bater com o topo de suas montanhas, grande parte delas superior a quatro mil metros.

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Parte do rio voador se precipita como chuva ou se transforma em neve nos Andes, e o fluxo das águas desvia seu rumo.

Brasil e Argentina

A correnteza vaga pelos ares em direção sul e leste, abastecendo Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil e norte da Argentina.

Rios voadores promovem um ciclo virtuoso por onde passam. “Há algo que chamamos de paradoxo da sorte”, informou o professor Antonio Nobre. “No globo, em toda zona equatorial há florestas, seguidas de longos trechos de deserto nas regiões tropicais. Aqui, há uma exceção”.

O quadrilátero que se localiza entre Cuiabá e Buenos Aires e entre São Paulo e os Andes seria um deserto se não fosse pelas correntes de água que drenam os tecidos da natureza. “Grande parte do PIB da América do Sul sai dessa região e depende desse rio”, disse a respeito, principalmente, do agronegócio, que depende das chuvas conduzidas por este fenômeno.

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Importância do rio: enorme produção de água 

Nenhum outro lugar do mundo é capaz de produzir tanta água na atmosfera quanto a Amazônia. Estima-se que existam cerca de 600 bilhões de árvores entre o Brasil e os outros oito países que compõem a floresta de 5,5 milhões de quilômetros quadrados.

E, de acordo com estudos desenvolvidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), cada árvore cuja copa tenha pelo menos 10 metros de diâmetro pode jogar para a atmosfera como forma de vapor 300 litros de água por dia.

Uma árvore com copa maior que 20 metros de diâmetro pode gerar mais que 1.000 litros diários - em termos de comparação, um brasileiro médio consome todos os dias cerca de 150 litros de água. É muita água.

A Cordilheira dos Andes, em forma de chuva e neve, retém aproximadamente 40% deste vapor de água amazônica. Então, os rios assumem mais de 20 rotas, sendo a principal aquela que entra no Brasil cortando Centro-Oeste, Sudeste e Sul.

“Cerca de 25% do volume de chuva nestas regiões é responsabilidade da água transportada pelos rios aéreos”, informa o professor Henrique Barbosa, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo. Ele explica que em sua rota, o rio recicla água em efeito cascata, até desaguar em locais onde a evapotranspiração não seja mais eficiente.

A floresta, hoje, faz um trabalho de magnitude difícil de imaginar: a quantidade de água que ela evapotranspira exigiria a quantidade de energia equivalente a de 50 mil usinas de Itaipu, a maior do mundo em capacidade produtiva.

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O grande risco que o rios voadores enfrentam é o aquecimento da atmosfera e, principalmente, o desmatamento da Amazônia. Sem árvores, menor a capacidade de evapotranspiração, o que significa menos água nas nuvens. Consequentemente, menos água nas plantações e menor produtividade - o que afeta diretamente a nossa vida.

Mais que uma floresta