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"The Keepers": assassinato, crimes sexuais e Igreja são tema de documentário da Netflix

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Netflix

Apesar de ter como tema central um assassinato, “The Keepers” tem muitos outros motivos para ser perturbadora – principalmente porque é uma história real. A série-documentário produzida pela Netflix baseia-se na morte misteriosa de uma freira norte-americana e, acompanhando depoimentos de pessoas que faziam parte da comunidade na época, outros crimes tão terríveis quanto o próprio assassinato começam a ser levantados.

Em 1969, a Irmã Cathy Cesnik desapareceu da cidade de Baltimore, nos Estados Unidos, onde dava aulas em um colégio católico - seu corpo foi encontrado meses depois às margens de um rio da região. Décadas se passaram e a polícia nunca conseguiu solucionar o caso, que foi arquivado. Por isso, duas ex-alunas de Cathy decidiram começar a reunir provas de que a freira havia sido assassinada a sangue frio.

Gemma Hoskins e Abbie Schaub, com mais de 60 anos de idade, dedicaram-se completamente ao caso e utilizaram as redes sociais para entrar em contato com pessoas que pudessem ter pistas sobre o caso. Com essa ajuda, somada às investigações na própria cidade, uma história muito mais sombria começou a ser apontada: o padre Joseph Maskell, que trabalhava na escola com Cathy, foi acusado de pedofilia e abuso sexual por diversas ex-alunas. A partir daí, Gemma e Abbie começaram a suspeitar de seu envolvimento no assassinato da freira.

Crítica de "The Keepers"

Depoimentos

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O caso não foi solucionado e não há provas concretas contra o padre, no entanto, são tão numerosas as vítimas que contam suas histórias na série que toda a narrativa conduz quem está assistindo a deduzir o que aconteceu - mesmo porque um dos pontos levantados logo no início é de que a Irmã Cathy ameaçou denunciá-lo.

Diversas mulheres que estudaram no colégio Archbishop Keough explicam, em detalhes, todos os abusos cometidos pelo padre. Este talvez seja um dos grandes trunfos da série: décadas depois, as vítimas parecem dispostas a esmiuçar o comportamento do Padre Maskell e a colocar para fora todo o terror causado pelo abuso sistêmico que ele causou na escola.

Em uma das passagens mais impressionantes, uma das ex-alunas do Archbishop Keough conta que o padre a chamava em sua sala e levava homens – que ela nunca havia visto antes – para estuprá-la. Outras vítimas relatam como esses abusos aconteceram durante anos, acompanhados do terrorismo psicológico feito pelo padre.

Quebra-cabeça

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À medida em que os episódios avançam – são 7 no total –, o assassinato da Irmã Cathy torna-se mais uma peça em quebra-cabeça muito complexo do que o drama principal. Ao contrário de “Making a Murderer”, centrado em uma pessoa e em uma investigação, “The Keepers” se embrenha em uma sociedade perversa, difícil de denunciar e muito polêmica: as alunas que conduzem a investigação apontam um acobertamento da Igreja Católica e omissão da polícia.

A construção do cenário completo, realizada pouco a pouco com os depoimentos da vítima, lembra bastante a história do filme vencedor do Oscar em 2015 “Spotlight: Segredos Revelados”, em que um grupo de jornalista investiga casos de abusos sexual e pedofilia cometidos por membros da arquidiocese católica de Boston, nos Estados Unidos.

E é quebra-cabeça: envolver uma das instituições mais poderosas do mundo e relacioná-la a crimes tão graves e que vão diretamente contra a fé pregada é um processo, no mínimo, tenso e corajoso.

Imagens

Por último, visual de “The Keepers” torna a experiência ainda mais submersiva. Nada mais assustador do que vídeos e fotos antigas, em preto e branco, de corredores, escolas e igrejas vazias, ou ainda de crianças, freiras, padres e rituais supermacabros.

Assim, combinadas aos depoimentos chocantes, as imagens são fundamentais para construir e transmitir o clima terrível dos acontecimentos narrados e mostrar que a vida real pode ser pior do que qualquer filme de terror.

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