Netflix está mais de olho no Brasil do que parece e está mudando até nossas novelas

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Divulgação

Não é difícil encontrar alguém que goste de assistir séries. Seja na televisão ou em serviços de streaming, o gênero se tornou bastante popular entre o público. Os maiores exemplos a serem citados são os seriados disponíveis na Netflix, como “House of Cards”, “Luke Cage” e “3%”, o primeiro original brasileiro da empresa. 

Em uma época em que os telespectadores querem assistir seus programas preferidos quando quiserem e na tela em que preferem, a Netflix se tornou um sucesso no mundo inteiro com um total de 93,8 milhões de assinantes.

Impulsionado por suas séries originais, o mercado da Netflix fora dos Estados Unidos responde por quase metade da base de assinantes do streaming – 47% ou 44,4 milhões – e conquista cada vez mais pessoas, fazendo até com que estas prefiram o serviço aos canais de televisão.

O novo modelo, inclusive, atingiu as grandes empresas de comunicação ao redor do mundo, como a HBO, que tem na Netflix uma verdadeira rival em premiações do porte do Emmy e Globo de Ouro.

A Netflix pode não estar “matando” a TV como a conhecemos hoje, mas com certeza está mudando a experiência de assistir à telinha. E como a empresa cresce tanto em todos os cantos do globo? Viciando os assinantes nos produtos do serviço de streaming. 

A fórmula de sucesso das séries originais Netflix

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Robert Viglasky e JoJo Whilden/Netflix

Apesar de ter produções de outros estúdios disponíveis em seu catálogo, como os queridinhos "Grey's Anatomy" e "The Walking Dead",  foram as séries originais da Netflix que a fizeram ganhar relevância e fãs no mercado. Com títulos como “The Crown”, “Orange Is The New Black” e “Stranger Things”, a empresa descobriu um público que tem apetite pelo entretenimento. 

A Netflix revolucionou o modo de produzir séries fazendo o oposto do que os estúdios tradicionais fazem. Além de não interferir no conteúdo das séries, investiu em deixar todos os capítulos da produção disponíveis de uma só vez. Desse modo, os espectadores podem assistir a qualquer hora e em qualquer lugar quantos episódios quiserem. 

“Essa flexibilidade é uma mudança bem-vinda, já que os espectadores esperam que os serviços estejam disponíveis a seu próprio ritmo”, explica o jornalista Lucas Shaw, especialista em TV e mídias digitais da Bloomberg Bussiness Week, em entrevista ao Vix.

Investindo bilhões de dólares em sua programação original, a companhia conseguiu aperfeiçoar e tornar seu conteúdo cada vez mais amplo – de um modo que atingisse as diferentes faixas da população. 

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Divulgação

O primeiro grande sucesso foi “House of Cards”, lançado em 2013 e baseado em uma minissérie da BBC de mesmo nome que foi ao ar nos anos 1990. A série foi uma aposta que deu certo e hoje caminha para a sua quinta temporada. 

Seguindo o mesmo caminho, a empresa passou a testar comédias, desenhos, longas-metragens e documentários originais – que fizeram o número de assinantes e o de prêmios crescerem a cada vez mais. No início de 2017, por exemplo, a Netflix liderou as indicações no Globo de Ouro com 70% das nomeações. Conquistou o posto de concorrente direta da HBO, toda poderosa da TV que tem o próprio serviço de streaming, o HBO Go, mais caro e disponível em menos países fora dos Estados Unidos.

“3%”: a primeira série brasileira original da Netflix

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Pedro Saad/Netflix

Para aproveitar e investir no sucesso que as séries fazem com o público brasileiro, a Netflix lançou em 2016 a primeira temporada de “3%”, um thriller que se passa em um futuro distópico não tão distante. A repercussão superou as expectativas, tanto que o produto nacional ganhou elogios de importantes veículos internacionais, como The Hollywood Reporter. A próxima temporada, inclusive, já está confirmada.

A série acontece em uma cidade fictícia, onde os brasileiros sofrem com a falta de comida e mantimentos em geral. Quando completam 20 anos, os jovens ganham uma única chance de participar de uma disputa que premia 3% dos competidores. Os vencedores ganham a oportunidade de morar em um local cheio de privilégios, o Mar Alto. 

O projeto era arriscado, mas mostrou que a Netflix está prestando atenção no Brasil e nos talentos que temos no país, como Bianca Comparato, João Miguel e Michel Gomes. 

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Pedro Saad/Netflix

Em entrevista ao Vix, Bianca Comparato, intérprete da protagonista Michele, contou que o sucesso da série se tornou algo inacreditável. “É muito gratificante poder representar o Brasil em outros países. Sempre falam que nossa língua é uma barreira, e ‘3%’ mostra que não necessariamente. Quero que mais séries e produtos brasileiros sejam reconhecidos fora do país”, diz. 

A atriz de 31 anos aceitou o convite para “3%” em uma jogada arriscada. Apesar de estar inserida no círculo da Rede Globo, participando de sucessos como "Senhora do Destino" e "Avenida Brasil", Bianca queria diversificar os papéis de sua carreira, buscando personagens desafiadores e boas ideias. “O convite veio em 2015, quando soube que iria trabalhar com Cesar Charlone e João Miguel, além de fazer parte da primeira série brasileira da Netflix”, conta. 

Com o sucesso de público que se tornou, a aposta da empresa foi certeira. “O streaming revolucionou a maneira de ver o audiovisual. Hoje não há muita diferença entre TV e Netflix, tudo está emparelhado: filmes com cara de novela, série com cara de filme, novela que parece série”, pondera Bianca.

Como a Netflix mudou o jeito de ver TV

A Netflix viu no Brasil uma ótima oportunidade de crescimento e entrou no mercado em 2011 com certa resistência. Como era esperado, encontrou por aqui alguns problemas, como infraestrutura precária, pirataria e concorrentes locais fortes - a TV aberta e os canais a cabo ainda eram o jeito mais fácil de assistir a séries e filmes.

Os assinantes eram poucos, assim como os fãs do serviço. A solução encontrada pelos times de executivos da companhia para caminhar em direção ao sucesso foi a longo prazo: investir na internet, nas empresas de comunicação e em fortes campanhas de marketing. 

Recentemente, a Netflix deu mais um passo e atendeu ao pedido dos clientes, disponibilizando uma versão off-line do serviço para o celular – já que permitir o download de séries e filmes é de grande importância para países em que a internet não é boa.

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mphillips007/iStock

O maior segredo, no entanto, é saber os produtos que o público quer consumir. “Se você olhar para o cinema no Brasil, quase todos os filmes de maior bilheteria são dos Estados Unidos. Há um grande apetite por filmes e programas de TV de Hollywood em toda a América Latina”, diz Lucas Shaw.

Pensando em cativar cada vez mais seus clientes, a Netflix apostou em adaptar essas produções para os países que são fortes consumidores, percebendo que quanto mais local é a história, mais a audiência do país fica impactada – como é o caso do Brasil com “3%” e do México com “Club de Cuervos”. 

Entretanto, para que a empresa continue crescendo, será preciso investir e incentivar a disseminação de um serviço de streaming de alta qualidade em todo o país, além de produzir mais programas atrativos. As pessoas precisam de razões convincentes para contratar o serviço de R$ 19,90 e cada vez mais apostam na proposta de flexibilidade. 

O futuro da TV no Brasil

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Morrowind/Shutterstock

O sucesso crescente da Netflix no país preocupa a concorrência. Apesar do lento processo, conglomerados da mídia, como a Globo e o SBT, passaram a investir na internet para satisfazer a demanda e garantir que não percam seus telespectadores para outros serviços.  

A Globo, por exemplo, se rendeu ao “diferente formato” de liberar séries antes da estreia na televisão no Globo Play, que oferece programas sob demanda para assinantes por um preço menor do que o cobrado pela Netflix.O serviço custa R$ 14,20 e programas como "Dois Irmãos" e "Supermax" tiveram o conteúdo quase completo liberado na internet, reservando apenas o último capítulo para exibição exclusiva na TV - uma maneira de transformar essa audiência online em números no Ibope.

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Divulgação/Globo

“A GloboPlay está ganhando com essa fórmula. As pessoas querem 'sair na frente', serem as primeiras. E o ao vivo também garante isso. Nesse ponto de vista é até curioso pensar que estamos voltando ao passado, pois a televisão convencional era 100% ao vivo para prender a atenção do público ao novo meio”, comenta Elmo Francfort, consultor de TV e diretor-executivo de museu Pró-TV.

E a aposta é que as empresas de mídia cada vez mais lancem títulos online primeiro e invistam em serviços de vídeo que reproduzam sua grade linear de programação. Afinal, não se pode forçar as pessoas a assistirem a uma novela em um horário específico do dia se houver outro serviço que as deixe assistir a um programa a qualquer momento. Uma alternativa do SBT foi liberar os capítulos das novelas por 30 dias na internet.

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Zé Paulo Cardeal/Globo

Para o consultor de TV, a chegada da Netflix também provoca mudanças no jeito de fazer novelas.

“As novelas são produtos únicos e grandes, enquanto as séries são menores, fracionadas e por temporada: se gostou, pode continuar, senão para por ali. Acredito também que a telenovela precisa se reinventar, o que já está acontecendo com essas chamadas ‘micronovelas’”, diz Elmo. O horário das 23h se tornou o "berço" desse novo estilo, sendo que o maior sucesso até então foi "Verdades Secretas" - vencedora do Emmy Internacional de Melhor Novela em 2016.

Com exceção das grandes coberturas jornalísticas e dos esportes, a televisão está se movendo em direção ao modelo online e sob demanda. Em todo o mundo, com mais ou menos audácia, as grandes redes de TV estão começando a abraçar a distribuição digital de suas programações. Em um futuro próximo, querendo ou não, todos terão que se reajustar.

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