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O que a falta de remédios faz com a mente - e como a pressão potencializa quadro

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Reprodução/ Globoplay

Diante de comentários sobre a apatia, a tristeza e a clara angústia de Fiuk no “BBB 21”, a equipe dele prestou esclarecimentos nos últimos dias. Segundo ela, o cantor não está tomando os remédios que tomava para transtornos mentais - e, segundo médicos, a retirada desta medicação de forma abrupta ou incorreta pode gerar tanto o comportamento que virou piada na web quanto consequências ainda mais graves.

Comportamento de Fiuk no “BBB” chama atenção

Nas últimas semanas do “Big Brother Brasil”, muito tem se falado sobre o comportamento de Fiuk na casa. Isso porque, com o passar dos dias no confinamento do programa, ele começou a apresentar diversas crises de choro, momentos de apatia, alto consumo de cigarros e até certa frieza na relação com outros participantes - e, diante desta mudança de conduta e até de aparência, o cantor virou piada na web.

Em partes, críticas ao cantor têm como base as estratégias de jogo dele, mas a maioria dos comentários feitos sobre ele nas redes sociais ultimamente está relacionada justamente ao choro excessivo e à recente seriedade dele na casa, algo que a equipe do cantor respondeu com uma nota de esclarecimento. Nela, a assessoria de Fiuk revelou que ele está em “abstinência” de medicamentos controlados que costuma tomar.

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Reprodução/ Globoplay

Conversando com companheiros de confinamento, Fiuk já revelou ter TDAH (que, apesar de ter afetado o cantor já na infância, demorou anos para ser diagnosticado) e depressão, e a nota divulgada pela assessoria dele em suas redes sociais confirma estes diagnósticos, repudiando a zombaria com momentos de angústia, falta de atenção e frustração do participante.

“Piadas sobre a aparência e as condições mentais do Fiuk são de cunho extremamente desrespeitoso. A maneira que a sociedade sente prazer em brincar com a dor do próximo é devastadora. Os transtornos psicológicos e seus estigmas jamais devem ser motivos de zombaria. No programa, ele está em evidente abstinência de medicações para a depressão e ansiedade. Isso vem afetando muito o estado psíquico dele”, diz a nota.

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REprodução/ Globoplay

Pausa brusca no tratamento traz alterações psicossociais

Todo este quadro, segundo especialistas, pode ocorrer com qualquer paciente que, de uma hora para outra, para de tomar medicamentos como antidepressivos - usados frequentemente no tratamento de depressão, compulsões e mais - e estimulantes - receitados para tratar TDAH e outros distúrbios. Isso porque, quando não há um período de adaptação, os sintomas destes distúrbios retornam de forma exacerbada.

Conforme explica o psiquiatra Lucas Bifano, o TDAH, por exemplo, é uma condição em que a biologia do cérebro é diferente, gerando sintomas como dificuldades de concentração, irritabilidade, etc. Os medicamentos usados no tratamento, por sua vez, modulam o funcionamento do cérebro, abrandando ou eliminando os sintomas - e, por isso, ao ficar sem o remédio subitamente, o cérebro entra em “crise”.

Entre seus pacientes, Bifano diz já ter observado comportamentos bem característicos em épocas nas quais eles ficam sem o remédio por estarem, por exemplo, de férias. “Quando você sai da sua zona de conforto, mesmo com controle, e para de tomar o remédio, tudo piora. Os sentimentos afloram, a angústia dobra, ansiedade, a pessoa se sente incapaz, começa tudo e não termina, esquece o que tem para fazer”, afirma.

Toda essa agitação psíquica causada pela ruptura brusca do tratamento, segundo ele, é ainda mais intensa se o paciente estiver sob pressão como Fiuk. No caso do “BBB”, o psiquiatra avalia que o estresse gerado pelo clima de competição, pelo confinamento e pela exposição aumentam o sentimento de frustração diante de tarefas, a dificuldade de se relacionar, a impulsividade das reações, a irritabilidade e o baixo rendimento.

Quanto à depressão e à ansiedade, a psiquiatra Danielle Admoni afirma que os remédios frequentemente usados para tratar estes distúrbios podem gerar o que se chama de síndrome de descontinuação. Segundo ela, quando o “desmame” da medicação ocorre de forma adequada, o paciente fica bem sem ele, mas uma pausa abrupta e longa leva a consequências imediatas e evidentes.

“Os sintomas são diversos: náusea, dor de cabeça, irritabilidade, inquietação e, dependendo da medicação, pode haver algo mais específico”, diz ela, e ambos os especialistas reforçam que, em situações nas quais se rompe o tratamento de maneira brusca e não há qualquer acompanhamento psicológico ou médico, há muitas chances de o paciente apresentar pensamentos suicidas e a tendência de tirar a própria vida.

Além disso, em casos de pausa em tratamentos contínuos, é possível que o paciente “desconte” esta angústia recém-chegada em hábitos que nem sempre são saudáveis. Embora não seja possível afirmar que o consumo de cigarros de Fiuk aumentou durante as últimas semanas, Bifano afirma que é comum que pacientes com estes distúrbios adotem o fumo como válvula de escape.

Como o estresse tende a agravar a situação, uma redução nos fatores que causam este estresse podem, sim, ocasionar uma melhora do bem-estar - mas alterar o contexto social do paciente, por si só, não soluciona o problema.

Conforme explica Danielle, a reintrodução do uso normal dos medicamentos costuma controlar o quadro rapidamente. Em condições ideais, para fazer o paciente alcançar o maior nível de bem-estar possível, isso ainda seria combinado a acompanhamento médico regular, bem como algum tipo de terapia (psicanálise, terapia ocupacional, entre outras).

“Desmame” correto da medicação leva tempo

De acordo com os dois especialistas, tanto no caso da depressão e da ansiedade quanto com o TDAH, é possível, sim, que o paciente deixe de precisar da medicação para se sentir bem, sem os sintomas destes transtornos. A depressão e a ansiedade, com exceção de casos crônicos, podem ser curadas com o tratamento, enquanto a TDAH, apesar de crônica, pode ter seus sintomas bastante reduzidos.

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Montree Sanyos/shutterstock

Para parar o tratamento medicamentoso, porém, é preciso tempo e acompanhamento médico. Conforme explica Danielle, o desmame de medicamentos psiquiátricos começa, em geral, após pelo menos seis meses desde o momento em que há uma melhora significativa e consistente do paciente. Durante este período, a medicação é mantida e, após seis ou mais meses, a dosagem é reduzida gradativamente até uma dose mínima ou o desmame total.

No caso de pacientes com TDAH que tiveram seus sintomas estabilizados, é possível flexibilizar o tratamento, suspendendo o remédio em dias nos quais não há tanta necessidade de foco (como aos finais de semana para crianças em idade escolar) ou diminuindo a dosagem lentamente em meio a avaliações. Assim, é possível garantir o bem-estar da pessoa até que seja possível manter uma dose mínima constante ou retirar o remédio.

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