Pacientes com lúpus não acham hidroxicloroquina na farmácia: "Preciso para viver"

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Após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, citar um estudo chinês que testou o uso da substância hidroxicloroquina em pacientes com COVID-19 e pedir que o FDA (Food and Drugs Administration, espécie de Anvisa norte-americana) acelere os testes para que a droga seja usada contra a doença causada pelo novo coronavírus no país, o medicamento parece ter se esgotado das farmácias brasileiras.

Ao que tudo indica, houve uma busca em massa por pessoas que desejam se proteger contra o vírus. Mensagens que circulam nas redes sociais indicam que o medicamento seria a cura para a COVID-19 (o que foi desmentido) e até recomendam posologia.

Diante disso, órgãos de saúde se posicionaram contraindicando seu uso para casos de SARS-CoV-2, ressaltando que ainda não há evidências concretas de sua eficácia e lembrando que o medicamento pode causar efeitos colaterais, agravando a saúde de quem o toma indiscriminadamente.

Além do risco causado pelo uso irresponsável da droga, outro problema surgiu: pacientes que precisam tomá-la diariamente, como os portadores de lúpus, ficaram sem seus medicamentos e fazem um apelo para que a população pare de comprar o remédio desnecessariamente.

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Portadores de lúpus relatam falta do remédio no Brasil

O estudo citado por Trump foi publicado no periódico “International Journal of Antimicrobial Agents” e tratou 20 pacientes com COVID-19 usando a substância combinada a um antibiótico, obtendo redução da carga viral dos infectados. A droga normalmente é voltada para o tratamento de doenças reumáticas, lúpus e malária.

Menos de um dia após a fala do presidente norte-americano, pessoas que têm lúpus e outras doenças normalmente tratadas com a substância em questão começaram a relatar que estão sem o medicamento e não conseguem encontrá-lo em farmácias - nem em suas próprias cidades, nem em outros municípios e até estados.

Após 20 anos usando este medicamento diariamente para controlar o lúpus (doença autoimune que não tem cura e provoca dores nas articulações, manchas na pele e febre), Arlete Zuppo Jabali, de São Paulo, é uma das pessoas que pode ficar sem o remédio em breve, e seu marido, Antonio Carlos Jabali, falou ao VIX sobre a situação.

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“A gente normalmente tem aqui uma caixa, uma caixa e meia, não fazemos estoque, e aí ontem, depois da notícia que soltaram, eu fui procurar em cinco farmácias online e não tinha em nenhuma. Pelo que eu estou vendo por aí, não tem em mais nenhuma farmácia”, afirma ele.

Lays Alpino está vivendo o mesmo, mas em Alagoas. “Na minha cidade, está em falta em todas as farmácias populares."

Consequências de ficar sem o remédio

O remédio em questão é um dos medicamentos que fazem o lúpus “estacionar”, ou seja, evitar que o sistema imunológico do paciente siga atacando o próprio organismo e gere, como consequência, os sintomas. Sendo assim, ficar sem ele significa ter a doença reativada – algo que, além de gerar dores, compromete a saúde da pessoa de forma geral.

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“Se você parar esse remédio, como alguns outros, o lúpus entra em atividade, e aí a pessoa pode ter todos os problemas que a doença traz. Ele ataca o fígado, pulmão, coração... É supersério! Não dá para ficar sem o remédio”, afirma Antonio, e Lays diz o mesmo sobre a perspectiva de não conseguir tomar o medicamento.

“Ele ajuda a deixar a doença inativa, ou seja, para não sentir dor nas articulações, ter manchas na pele, fadiga, enxaqueca... E é o que acontece se eu deixo de tomar”, afirma a alagoana.

Às pessoas que estão comprando para “garantir” tratamento para COVID-19, Lays lembra que tomar o remédio sem precisar não só prejudica quem realmente precisa como também gera problemas para a pessoa.

“Se elas compram um medicamento que não precisam, é o mesmo que ter gasolina sem ter carro. Você além de gastar dinheiro com algo que não vai te servir, ainda pode ser prejudicado pelo uso indevido”, disse ela, que, assim como Arlete, toma o remédio há 20 anos, desde que foi diagnosticada, e usou o Instagram para falar da situação. “Eu preciso desse remédio para viver”, disse ela na rede social.

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Remédio não deve ser usado contra coronavírus, dizem órgãos de saúde

Diante da situação, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) se pronunciou, reforçando que a substância em questão segue sendo registrada pelo órgão como um medicamento voltado para o tratamento de artrite, lúpus, doenças fotossensíveis e malária, e que, apesar de promissores, os estudos sobre seu uso em casos de COVID-19 ainda são inconclusivos.

“Não há recomendação da Anvisa, no momento, para sua utilização em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação pelo novo coronavírus”, diz o comunicado.

Efeitos colaterais

Além disso, a nota também cita efeitos adversos que a automedicação com a substância pode gerar – algo detalhado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP).

Em seu perfil oficial do Twitter, o órgão afirma que fazer uso da substância sem indicação provoca alteração da atividade elétrica do coração e do cérebro e danos na retina, podendo causar arritmias cardíacas e convulsões.

Uso desnecessário de vagas em hospitais

Além disso, é preciso lembrar também que há, atualmente, um esforço coletivo para que o sistema de saúde não fique sobrecarregado devido à pandemia – e tanto pacientes com lúpus ficando sem seus remédios quanto pessoas sofrendo com os efeitos colaterais da automedicação com a substância podem precisar de atendimento médico emergencial, ocupando leitos que podem ser necessários para pacientes com COVID-19.

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