Como infectados com sintomas brandos e assintomáticos ajudam a espalhar Covid-19

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Como boa parte das pessoas com COVID-19 apresenta sintomas leves e mal requer atendimento médico para se recuperar, uma grande porcentagem dos quadros acaba não sendo notificada – e, embora muita gente não esteja levando a pandemia a sério por este motivo, estudos e especialistas apontam que pacientes assim têm um papel bastante expressivo na disseminação do novo coronavírus.

Casos não documentados de COVID-19 podem ser os maiores transmissores

De acordo com o site da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 80% das pessoas infectadas por SARS-CoV-2, o novo coronavírus, se recuperam sem precisar de cuidados médicos e, no Brasil, a orientação para pessoas que estão com sintomas leves é a de não sair de casa para não sobrecarregar hospitais. Com isso, é esperado (e sabido) que diversos casos não sejam documentados.

O fato de um caso não ser documentado por ter sintomas muito leves e não requerer atendimento emergencial, porém, não faz com que a pessoa fique impossibilitada de transmitir a doença – e tanto estudos quanto médicos estão alertando para o fato de que boa parte das infecções documentadas são causadas por aquelas não documentadas.

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É o caso, por exemplo, de um estudo publicado na plataforma “Science”, que, a partir de dados da epidemia chinesa, revelou que 79% dos casos documentados tiveram origem em pacientes não notificados. Embora cálculos demonstrem que estas pessoas não são tão contagiosas quanto aquelas com sintomas mais expressivos (sua capacidade de transmissão é cerca de 55%), elas representam 86% do total de casos, uma quantidade bastante grande.

Isso, segundo o infectologista João Prats da BP, a Beneficência Portuguesa de São Paulo, ocorre porque, ao apresentar sinais brandos da infecção, muita gente mal percebe que está doente e não se resguarda, fazendo com que o vírus circule entre familiares, colegas de trabalho, amigos e, posteriormente, passe para pessoas que estão fora de seus círculos sociais.

“Geralmente quem tem a doença leve, como crianças e pessoas saudáveis, pode, por ter esses sintomas leves, ter contato com familiares e achar que está tudo bem. Nem percebem que estão doentes”, diz o médico, lembrando que, apesar de a doença ser branda na maior parte dos casos, estas pessoas também podem ter contato com indivíduos mais frágeis.

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Além do fato de que pessoas com sintomas leves têm sido apontadas como grandes transmissoras de COVID-19, outros estudos apontaram ainda que os pacientes em geral (de quadros brandos ou graves) podem transmitir a infecção antes que a tosse seca, a febre e outros sintomas comuns do novo coronavírus apareçam.

Conforme demonstra outro estudo, realizado por pesquisadores da Universidade do Texas e cuja publicação prévia foi discutida no site da instituição, de 450 pessoas infectadas com COVID-19, 10% adquiriram a doença a partir de pessoas que estavam infectadas, mas ainda não haviam desenvolvido os sintomas.

Fora isso, diversas pessoas que contraem o vírus não irão desenvolver qualquer tipo de sintomas, mas, mesmo assim, podem transmitir a doença. Segundo o médico, é possível que estas pessoas tenham uma quantidade pequena de vírus no organismo e, como não tossem ou espirram, é mais difícil que haja transmissão, mas, ainda assim, o compartilhamento de objetos como copos e talheres pode ocasionar o contágio.

A importância do isolamento e do distanciamento social

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Tanto pelo fato de que pessoas assintomáticas ou pré-sintomáticas podem transmitir a doença (a partir, por exemplo, do compartilhamento de objetos pessoais) quanto pelo fato de que boa parte dos casos não será identificada, o distanciamento social orientado por órgãos de saúde é de extrema importância, e Prats enfatiza isso.

“Se essas pessoas estão com sintomas muito leves, elas pode nem achar que estão doentes, não procurar o médico e não ficar em isolamento. Podem acabar contaminando sem querer principalmente as pessoas de alto risco”, diz ele, se referindo a idosos, portadores de diabetes, doenças cardiovasculares e respiratórias, e imunodeprimidas.

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"O distanciamento social acaba sendo uma medida interessante para evitar esse tipo de contaminação”, explica, lembrando que fazer isso no começo da epidemia é essencial. Isso porque, apesar de vírus terem uma taxa básica de transmissão estabelecida, ela acaba mudando em situações como a atual, aumentando de acordo com o momento da epidemia.

A taxa de transmissão de um vírus consiste no número de pessoas para as quais um paciente infectado pode transmitir a doença e, ainda que a do novo coronavírus fique em torno de 2,7 (isto é, cada pessoa infectada transmite o vírus para, aproximadamente, outras três), Prats afirma que ela cresce conforme o contágio se intensifica. “Nessa fase da transmissão exponencial, quando começa a ter transmissão comunitária, esse número pode chegar a 5, 7”, esclarece.

Por este motivo, o médico volta a enfatizar a importância da quarentena. “A nossa ideia com o isolamento é realmente reduzir ao máximo [as transmissões], tentando fazer com que a taxa chegue a menos que 1 e a epidemia não se sustente mais”, conclui.

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