Doenças psiquiátricas pioram na pandemia: o que saber e fazer para não ceder ao pavor

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Com a chegada da pandemia de COVID-19 ao Brasil, o dia a dia da população vem mudando drasticamente e as pessoas já estão sentindo os impactos disso tanto na saúde mental quanto no bem-estar físico. Isso porque, segundo especialistas, o medo e o isolamento da quarentena “bagunçam” o organismo, e é preciso adotar algumas práticas para se manter saudável em momentos como este e, principalmente, focar nas informações importantes para evitar pânico e confusão.

Efeitos psicológicos e físicos da pandemia

Consequências para o emocional

De acordo com Saulo Nader, neurologista do Albert Einstein e da Universidade de São Paulo (USP), a enxurrada de notícias e especulações que tem cercado as pessoas desde a confirmação dos primeiros casos de infecção pelo novo coronavírus no Brasil gera uma mistura de emoções e reações fisiológicas que podem ter consequências ruins para a saúde mental e física.

Ao mesmo tempo em que lembra que sentir medo diante da situação é perfeitamente normal, o especialista alerta para o risco de deixarmos o assombro tomar a mente, algo que pode fazer o próprio cérebro adoecer. Isso porque, conforme explica, esse pânico pode alterar a química cerebral, fazendo a “central de emoções” do órgão entrar em colapso.

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Para a psiquiatra Maria Fernanda Caliani, esta pode, inclusive, ser a porta de entrada para distúrbios. “Em momentos de crise, pessoas que sofrem de doenças psiquiátricas podem piorar, e algumas pessoas podem desenvolver doenças psiquiátricas reativas ao momento de pavor”, afirma ela, citando ansiedade, depressão e pânico como exemplos.

Consequências para o corpo

Tudo isso, por sua vez, impacta o físico, deixando o corpo suscetível a doenças em geral (inclusive o COVID-19). Conforme explica Nader, a fragilidade emocional pode derrubar as defesas naturais do organismo, fazendo com que ele fique menos resistente a infecções. A imunidade, inclusive, dá sinais de que está baixa, e ter cistites, candidíases e manifestações de herpes repetidamente são alguns deles.

Além disso, quem tem ou desenvolve doenças psiquiátricas graças ao medo constante pode, segundo Nader, apresentar os sintomas físicos típicos do pânico, como formigamento, secura na boca e falta de ar – algo que pode inclusive intensificar o nervosismo, já que a dificuldade para respirar é um dos sintomas do coronavírus (apesar de se apresentar de forma diferente da manifestação emocional).

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Sinais de que o medo está tomando conta

Com tantas coisas para se preocupar, pode ser difícil reconhecer se o medo está tomando conta da mente – e os especialistas explicam quais fatores podem indicar que o corpo está adoecendo. Para eles, apresentar os seguintes sinais mostra que a crise está, de fato, afetando seu emocional e seu organismo de forma geral:

  • Se preocupar excessivamente com o tema, pensando e falando sobre ele o tempo todo;
  • Sentir necessidade de checar as estatísticas e notícias sobre COVID-19 a todo momento;
  • Ter pensamentos intrusos sobre o assunto (ou seja, perceber que o tema está “invadindo” até pensamentos normais);
  • Ter sintomas como aperto no peito, angústia e ansiedade ao ter contato com notícias sobre o tema;
  • Exagerar nas medidas de prevenção e, por consequência, acabar adotando comportamentos repetitivos e exaustivo de lavagem das mãos ou outras partes do corpo;
  • Notar o surgimento de sintomas como tristeza repentina sem motivo aparente, apatia diante de coisas até então prazerosas, falta de energia para executar as tarefas do dia a dia, alterações no sono (insônia ou sonolência exagerada) e no apetite, irritabilidade e impaciência excessiva, e dificuldade de controlar as emoções.
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Recomendações para conter o pânico

Há, porém, algumas formas de evitar que o medo tome conta e gere efeitos negativos no corpo. De acordo com os especialistas, é importante:

  • Manter o foco nas orientações que os órgãos de saúde dão para prevenir a infecção, sem adotar medidas exageradas como uso de máscara cirúrgica sem a presença de sintomas. Aqui, é importante lavar as mãos (com qualquer tipo de sabonete, não havendo a necessidade de ser bactericida) com frequência por ao menos 20 segundos, evitar tocar o rosto, higienizar superfícies usadas constantemente, sair de casa apenas em caso de necessidade e evitar contato físico com outras pessoas, bem como a divisão de bens pessoais;
  • Lembre-se de que a situação é passageira e que o isolamento não durará para sempre. Apesar de a situação ser angustiante de qualquer forma, ter em mente que estamos cada vez mais próximos de atravessar a situação é uma forma de se acalmar;
  • Aproveite o tempo livre para atividades de lazer em vez de se afundar em notícias. Com o isolamento e a necessidade de ficar em casa, cria-se uma oportunidade para, por exemplo, descobrir bons passatempos ou realizar tarefas até então negligenciadas. Aqui, é possível, por exemplo, assistir filmes e séries, ler, se entreter com jogos e colocar em prática algum tipo de arte – mesmo que por diversão;
  • Ter em mente que o distanciamento social não significa cortar contato com as pessoas. Para evitar a solidão, é possível (e necessário) manter contato com pessoas queridas usando o telefone, as redes sociais e as chamadas de vídeo. É possível até assistir um filme “junto” de um amigo, basta usar a criatividade e os recursos da tecnologia;
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  • Faça algum tipo de atividade física. Segundo o neurologista, a prática de exercícios faz bem não só para o corpo, mas para o cérebro, já que libera substâncias responsáveis pelo bem-estar e até pela qualidade do sono. Isso vale tanto para quem já pratica quanto para quem não está habituado, e o médico recomenda caminhar pelo quintal, na esteira, pular corda, dançar, etc;
  • Não descontinue a terapia caso já faça. Com a recomendação de distanciamento social, é possível que muitos profissionais disponibilizem atendimento via chamadas de vídeo ou telefônicas, e seguir com as sessões é essencial para manter a saúde mental em dia;
  • Se policie com relação ao tempo gasto em redes sociais. Segundo a psiquiatra, o momento favorece o surgimento das fake news e orientações mal-intencionadas sem fundamento, e a web está cheia delas, portanto é essencial, além de ter discernimento e buscar fontes confiáveis antes de repassar a informação, dosar o tempo que se passa online;
  • Evite a busca por informações alarmantes. Com a chegada da pandemia ao Brasil, a tendência é o número de casos aumentarem, mas saber detalhes sobre os quadros mais graves encontrados e consumir dados sobre óbitos compulsivamente não só não faz bem para o psicológico como também não acrescenta nada útil ao dia a dia;
  • Evite ver notícias logo ao acordar ou antes de ir dormir. Para garantir uma boa rotina, é importante começar o dia de forma calma, tomar café da manhã e só então conectar-se ao mundo, ao mesmo tempo em que, para dormir bem, é essencial deixar o cérebro relaxar - algo que ele não faz se estiver ligado em notícias sobre o coronavírus.

Informações relevantes sobre a situação

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  • A ideia de fazer quarentena e isolamento social pode soar assustadora e até apocalíptica, mas esta é uma medida que se faz extremamente necessária por um motivo simples: quanto menos pessoas circulando, menor é a quantidade de vírus nos ambientes. Conforme as pessoas se distanciam umas das outras, o ritmo das transmissões desacelera, fazendo com que hospitais tenham mais tempo para cuidar dos pacientes internados e "estancando" a epidemia;
  • De acordo com a OMS, as pessoas mais suscetíveis a casos graves de COVID-19 são as idosas, portadoras de comorbidades como diabetes, doenças cardiorrespiratórias e imunodeprimidas (aquelas que fazem quimioterapia, por exemplo) - e praticar o isolamento social é especialmente importante para elas. Apesar de pessoas mais jovens em geral apresentarem quadros brandos ao contrair o vírus, elas ainda transmitem, e quanto menor for o número de casos graves, mais livres ficam as Unidades de Terapia Intensiva;
  • Apesar de a internet estar repleta de fotos e vídeos mostrando desabastecimento de estabelecimentos ao redor do mundo, a situação não está ocorrendo nem em supermercados nem em farmácias brasileiras. Com exceção de produtos como álcool em gel e máscaras cirúrgicas (que só devem ser usadas por pessoas com sintomas de gripe e profissionais da saúde), não há relatos de falta, por exemplo, de papel higiênico, comida, água ou combustível. Aqui, é preciso lembrar também da necessidade de se consumir com consciência, assegurando que todos tenham como se proteger e se alimentar durante o período de quarentena;
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  • O pico das transmissões e consequências causadas pelo novo coronavírus costuma acontecer algum tempo após o local registrar contágio comunitário (ou seja, quando o vírus se espalha para além de grupos restritos e não é mais possível identificar a origem das infecções), e isso significa que o Brasil ainda enfrentará o ápice da doença - o que não é sinal para pânico, e sim para a necessidade de seguir à risca as orientações do governo e autoridades sanitárias: intensificar os hábitos de saúde, manter distância de outras pessoas, usar máscara ao apresentar sintomas e evitar sair de casa;
  • Ainda que muitas pessoas já estejam tentando comparar a situação epidemiológica no Brasil com o início do surto na Itália, onde as consequências foram mais graves, foram muitos os fatores que agravaram a epidemia italiana. Além de o país ter a segunda população mais idosa do mundo, não houve um controle tão rígido dos casos iniciais e as medidas de quarentena demoraram a ser tomadas, conjunto que, segundo especialistas, pode ter contribuído com a situação. Sendo assim, em vez de enxergar o histórico italiano com medo, o melhor é vê-lo como um alerta de que as orientações de quarentena e higiene devem ser seguidas;
  • Segundo a OMS, uma a cada seis pessoas infectadas com o novo coronavírus desenvolve complicações mais sérias da doença (como falta de ar) e pode precisar de atendimento de urgência, enquanto aproximadamente 80% dos casos são brandos e não requerem cuidados diferentes dos necessários em quadros gripais. Sendo assim, ao perceber o surgimento de sintomas comuns de COVID-19 (como tosse seca, dor de garganta e febre): sem pânico. O melhor e mais seguro a fazer é ficar em casa, se hidratar, alimentar-se bem e descansar.
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