Por que situação do coronavírus na Itália é tão grave? Alguns fatores ajudam a explicar

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Em meio à pandemia de COVID-19, a Itália é um dos países que mais tem sofrido com a propagação do novo coronavírus, descoberto na China em dezembro de 2019. Lá, os casos já passam de 24 mil e já foram contabilizadas mais de 1,8 mil vítimas fatais da doença até esta segunda-feira (16), o que representa uma taxa de mortalidade pelo vírus de mais de 7%, sendo a média mundial 3,5%.

O infectologista Esper Kallás recentemente explicou a diferença entre o surto no país e a situação de outras nações, que registraram números menos alarmantes.

Coronavírus na Itália: por que a situação é pior?

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Vittorio Zunino Celotto/Equipe/Getty Images

Diante das muitas dúvidas acerca do que fazer contra o SARS-CoV-2, novo tipo de coronavírus que se espalhou mundialmente após sua epidemia na China, o infectologista participou de uma conversa com o médico Drauzio Varella sobre a pandemia, explicando suas hipóteses para o fato de a comparação entre a Itália e a Coreia do Sul, outro país bastante afetado, serem tão discrepantes.

Conforme ressaltou Drauzio no vídeo publicado em seu canal do YouTube, enquanto a taxa de mortalidade média do vírus divulgada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) recentemente é de 3,5%, a da Itália aumenta cada dia mais (passando dos 7%) e a da Coreia do Sul ficou em apenas 0,7%. Essa grande diferença, segundo Esper, pode ser explicada por uma série de fatores entre os quais ele explicou três.

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Marco Di Lauro/Correspondente/Getty Images

Menos testes

Em primeiro lugar, o infectologista comparou a quantidade de testes feitos em um curto intervalo de tempo na Coreia e na Itália, afirmando que este é um ponto crucial porque contabilizar os casos com exatidão acaba “diluindo” o número de vítimas fatais, diminuindo a taxa de mortalidade. No caso, a Coreia realizou muito mais testes desde o início da epidemia do país, algo que pode explicar a taxa tão baixa.

“Quando estava com mil casos, a Coreia já tinha feito 500 mil testes. Como eles fazem muito mais teste [...], você vê o ‘iceberg’ melhor”, disse o infectologista.

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Segundo o veículo britânico “BBC”, apesar de terem registrado os primeiros casos em épocas próximas, a Coreia fez 4 mil testes por milhão entre 3 de janeiro e 11 de março, enquanto a Itália fez cerca de mil por milhão até 10 de março.

Isso, segundo Esper, pode ser explicado pelo fato de que a Coreia é referência neste tipo de infraestrutura e se preparou para a epidemia antes de ela chegar. “Eles têm fábricas no país que trabalham com esse tipo de metodologia, conseguiram fazer esse trabalho melhor que qualquer lugar no mundo”, afirmou o infectologista, dando ainda outras razões para a situação alarmante da Itália.

População idosa

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Conforme descoberto durante a epidemia chinesa, o COVID-19 tem a letalidade dobrada e até triplicada em pessoas idosas (especialmente acima dos 70 e 80 anos) – e, segundo Esper, a Itália tem uma desvantagem neste aspecto. “Quanto mais velha a faixa etária, mais pessoas idosas, que tem outros problemas de saúde, vão pegar o vírus e acabam morrendo da doença mais proporcionalmente que uma população mais nova”, diz ele, se referindo ao fato de que a Itália tem a segunda população mais idosa do mundo.

Isso, no entanto, é um fator que depende de outros para ter consequências tão alarmantes, visto que países como a Alemanha e o Japão também têm populações bastante idosas e não vêm enfrentando uma situação tão grave. De acordo com Esper, algo a ser levado em conta é a capacidade que o sistema de saúde local tem de agir contra o vírus, bem como a rapidez da nação em tomar medidas para contê-lo.

Curva epidemiológica: muitos casos em poucos dias

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Marco Di Lauro/Correspondente/Getty Images Europe

Apesar de a Itália ter um dos melhores sistemas de saúde do mundo, o país está sofrendo com uma sobrecarga em hospitais, e Antonio Pesenti, coordenador da unidade de terapia intensiva da região da Lombardia, na Itália, afirmou ao veículo local “Corriere Della Serra” que médicos estão tendo de tratar pacientes graves nas salas de cirurgia, de recuperação e até mesmo nos corredores – e isso se deve à forma repentina como os casos no país aumentaram.

Nos últimos dias, em apenas 24 horas, a Itália teve um aumento de 25% no número de mortes e registrou mais de 3,5 mil novos casos, rapidez que, segundo autoridades, prejudica o trabalho dos hospitais, que não dão conta da demanda. Conforme afirmou Elisabetta Groppelli, virologista da Universidade de Londres, na Inglaterra, à “VICE”, é imprescindível que isso mude para que a situação seja controlada.

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Antonio Rico/Shutterstock

Isso, segundo ela, só ocorrerá caso a população e as empresas sigam à risca as medidas de quarentena do governo (das quais muitos cidadãos italianos escaparam ao saber que seriam anunciadas, espalhando mais ainda o coronavírus), já que quanto mais devagar for a transmissão, mais tempo o sistema de saúde tem para acompanhar casos com necessidade de cuidados intensivos e curar pacientes, com menos escassez de espaço, material e profissionais.

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