Por que quadro de Gugu era praticamente irreversível: Escala de Glasgow indicou nível 3

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Divulgação/SBT

Dois dias após ser internado em estado grave por sofrer um acidente doméstico, Gugu Liberato morreu na última sexta-feira (22), em Orlando, na Flórida (Estados Unidos), diante da constatação da morte encefálica do apresentador.

Segundo informações de sua assessoria de imprensa, o apresentador chegou ao hospital com sangramento intracraniano e um quadro classificado como grau 3 na chamada Escala de Glasgow. Entenda o que é isso e por que esta categorização indica um quadro gravíssimo.

Acidente e morte cerebral de Gugu

Conforme explica o comunicado que anunciou a morte do apresentador, o acidente aconteceu quando Gugu fazia um reparo no ar-condicionado da casa, instalado no sótão. No cômodo, o “piso” de gesso cedeu, fazendo com que o apresentador caísse de uma altura de cerca de quatro metros e chegasse ao hospital com uma fratura na região da têmpora direita.

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Divulgação/SBT

Entrevistado pelo “Jornal Nacional” (Rede Globo), Guilherme Lipsky - neurocirurgião brasileiro chamado pela família de Gugu para avaliar o quadro do apresentador em Orlando (Estados Unidos), onde o acidente ocorreu - explicou que a fratura em questão gerou um sangramento intracraniano intenso e que, apesar de estar respirando ao ser atendido pela emergência, o quadro era grave desde o início.

“[Ele] tinha alguma alguma atividade respiratória, então não era, de início, uma morte encefálica. Acontece que o quadro foi se deteriorando rapidamente, e aí as provas subsequentes comprovaram isso”, explicou o médico, que, ao “Fantástico” (Rede Globo), também afirmou que não foram feitas intervenções expressivas para tentar reverter o quadro.

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Edu Moraes/Record TV

“A maioria dos protocolos de atendimento de trauma internacionais dizem [que o indicado é] não investir, porque se você investe e faz medidas heroicas, acaba acarretando um sofrimento muito grande para o paciente, que vai ficar meses internado em coma grave. A chance de morrer é alta e, se não morre, há uma chance muito grande de entrar em estado vegetativo persistente”, esclareceu Lipsky.

Após um tempo de observação que, segundo o médico, é necessário em quadros como o de Gugu, a morte cerebral do apresentador foi decretada, e sua família autorizou então a doação dos órgãos - algo que era um desejo dele. A partir da decisão de doar os órgãos de Gugu, eles poderão beneficiar até 50 pessoas.

Escala de Glasgow: o que é?

No mesmo comunicado em que o falecimento do apresentador foi oficializado, há também a informação de que, ao dar entrada no hospital, seu quadro foi classificado como grau 3 na chamada Escala de Coma de Glasgow - que é uma gradação utilizada desde a década de 80 para determinar o nível de consciência e resposta do organismo após uma lesão cerebral.

Segundo informações da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a escala foi proposta por professores do Instituto de Ciências Neurológicas de Glasgow (Escócia), e se baseia em três variáveis: abertura ocular, resposta verbal e resposta motora. Para aplicá-la, o paciente é avaliado em diferentes critérios dentro destes três campos, recebendo uma pontuação que “descreve” o quão grave ou irreversível é o quadro.

Quando examinado, o paciente é submetido a diferentes estímulos e, conforme responde (ou não) a eles, recebe pontos que vão de 1 a 6. Como os critérios se enquadram em três variáveis, a menor pontuação com a qual uma pessoa pode ser classificada é 3 - algo que ocorreu com Gugu e que indica ausência de resposta a estímulos tanto oculares quanto verbais e motores.

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Jalisko/Shutterstock

Esta avaliação, no entanto, não é realizada apenas uma vez; durante a observação do paciente, os testes são reaplicados para que se possa avaliar a evolução ou involução do quadro. Além disso, uma publicação científica realizada por três pesquisadores (entre os quais está Graham Teasdale, um dos professores que propôs a Escala de Glasgow) afirma que a pontuação não é usada para determinar o desfecho do paciente.

De acordo com a publicação, ainda que estudos tenham encontrado uma relação entre a pontuação e a mortalidade após uma lesão cerebral (sendo 15 a mais “promissora” e 3 a que indica menores chances de recuperação), ela não é utilizada como determinante, e sim como uma espécie de guia para monitorar o paciente e definir as melhores estratégias para se abordar o caso.

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Tefi/Shutterstock

Critérios para pontuação

Dentro dos três campos que funcionam como base para a Escala de Glasgow, há diversos critérios que ajudam a estabelecer a pontuação do quadro. São eles:

Abertura ocular

  • Resposta espontânea (4 pontos);
  • Resposta a estímulos sonoros (3 pontos);
  • Resposta ao estímulo de pressão (2 pontos);
  • Nenhuma (1 ponto).

Resposta verbal

  • Orientada (5 pontos);
  • Confusa (4 pontos);
  • Palavras soltas (3 pontos);
  • Apenas sons (2 pontos);
  • Nenhuma (1 ponto).

Resposta motora

  • Obedece comandos (6 pontos);
  • Localiza estímulo (5 pontos);
  • Flexão normal (4 pontos);
  • Flexão anormal (3 pontos);
  • Extensão anormal (2 pontos);
  • Nenhuma (1).
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Limitações e alterações no método

De acordo com o site oficial da Escala de Glasgow, organizado pela Royal College of Physicians and Surgeons of Glasgow, alguns fatores podem interferir na classificação do paciente dentro do método, como a dificuldade de entendimento pela língua falada, perda de audição ou de fala, intubação, traqueostomia, sedação induzida por medicamentos, entre outros.

Além disso, a escala é modificada quando aplicada em crianças abaixo do cinco anos de idade. No caso delas, a resposta aos estímulos é classificada de maneira diferente, sendo o choro e a emissão de sons, por exemplo, o critério para análise da resposta verbal de bebês de até um ano.

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