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O que é doença possibilitada pelo mau uso de lente que fez mulher optar por tirar o olho

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Gentileza de Marcela Monferdini

Tão comum quanto pessoas que optam por usar lentes de contato são aquelas que não cuidam delas da forma como deveriam - e isso, junto de outros fatores, pode possibilitar problemas sérios nos olhos. Foi o que aconteceu com a advogada Marcela Monferdini que, após sofrer durante sete anos com uma condição gravíssima, optou por remover o olho que havia adoecido.

Diagnóstico errado e cinco meses de dor

Em entrevista ao VIX, Marcela lembra que percebeu algo de errado com um de seus olhos em dezembro de 2007. “Fui dormir com coceira e vermelhidão, nada de mais. Acordei no dia seguinte e não conseguia abrir meu olho, estava muito inchado. Eu jogava água, tentava abrir e não conseguia”, explicou, ressaltando que os sintomas evoluíram rapidamente.

Quando tudo começou, ela tinha a sensação de estar com areia no olho, e isso logo progrediu. “Foi evoluindo de areia para uma pedrinha, de pedrinha foi como se tivesse um alfinete, do alfinete para um prego”, conta, descrevendo que seu principal sintoma ao longo do desenvolvimento da doença foi a fotofobia (ou seja, a dificuldade em enxergar na luz).

“Hoje, tenho a testa enrugada porque ficava com aquele olhar de quem tenta enxergar e não consegue, sempre de óculos escuros, cabeça muito baixa, lacrimejando muito”, lembra. Assustada, ela foi a diversos médicos e, até então, o diagnóstico era sempre o mesmo: herpes ocular. A partir disso, ela iniciou uma série de tratamentos - sem saber que eles eram inapropriados.

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Gentileza de Marcela Monferdini | Gentileza de Marcela Monferdini

“Teve um médico que me tratou com 23 colírios corticoides em um mês, meio que na base da tentativa”, afirmou, lembrando que nenhum deles fez o efeito esperado. Em outro médico, Marcela recebeu a recomendação de utilizar uma lente terapêutica e conta que foi neste momento que as coisas desandaram e o problema piorou de forma crítica.

“Na hora que ele colocou a lente, eu senti um alívio muito grande, não tinha mais dor. Só que, quando a gente foi tirar, eu vi a besteira que tinha feito, porque meu olho estava inteirinho branco”, contou. Foi apenas cinco meses e cerca de sete médicos depois de os sintomas começarem que Marcela finalmente teve o diagnóstico correto: uma doença causada por uma ameba.

Acanthamoeba keratitis: o que é e como acontece?

Por indicação, a advogada chegou ao médico que finalmente fez o diagnóstico correto. Ele, que havia tratado o primeiro caso desta doença em sua cidade natal, Ribeirão Preto (interior de São Paulo), detectou que a advogada estava com acanthamoeba keratitis, infecção causada por um protozoário que tem vida livre - ou seja, pode ser encontrado no ambiente, especialmente na água.

O olho completamente branco após o uso da lente de contato terapêutica, no caso, era sinal de que a ameba havia tomado conta da córnea de Marcela (parte externa do olho, que refrata a luz e protege o órgão) - e o fato de ela ter ido parar no olho da advogada se deve a uma série de fatores que incluem a questão das lentes de contato.

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Gentileza de Marcela Monferdini | Gentileza de Marcela Monferdini

De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (o CDC), essa ameba habita o planeta inteiro e a maior parte das pessoas é exposta a ela ao longo da vida, mas poucas ficam doentes a partir disso. O uso de lentes de contato, porém, pode - junto de outras condições - ser um agravante para que o microrganismo se torne prejudicial.

Conforme conta Marcela, a explicação médica para o quadro dela foi a de que ela havia tido uma ceratite - doença caracterizada por uma inflamação na córnea que gera dores, sensibilidade à luz e a sensação de corpo estranho no olho - e essa lesão, junto de uma possível queda na imunidade, serviu de entrada para a ameba, que provavelmente estava nas lentes de contato.

Apesar de inadequados, os maus hábitos que Marcela tinha com a lente não eram incomuns, e sim coisas que muita gente faz por julgá-las como inofensivas. Ela explica, por exemplo, que naquela época as soluções para limpeza de lentes eram mais caras e, por vezes, ela substituía os produtos específicos por soro fisiológico.

Além disso, ela conta que também era frequente que ela utilizasse as lentes por um período maior do que o recomendado pelas marcas e tinha hábitos como os de coçar o olho, nadar e tomar banho quando estava com elas. Mas, ainda que isso possa estar ligado com a ocorrência de acanthamoeba keratitis em algumas pessoas, não é um fator determinante em todos os casos.

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jjpoole/IStock

“Tinha gente que tinha um cuidado absurdo [com as lentes] e tinha gente que não tinha. Pode ter um fator de predisposição genética, usuários de lente com imunidade baixa... ”, explica, lembrando que, hoje, ela ainda utiliza lentes no olho que ainda tem, mas redobrou seus cuidados com ela e optou por uma descartável, que troca diariamente.

De transplantes malsucedidos à remoção do olho

Ao receber o diagnóstico correto, no primeiro semestre de 2008, Marcela lembra que já estava bastante debilitada. “Eu estava muito mal, tinha emagrecido quase 15 kg, estava deformada. O olho estava muito feio, a bochecha, toda corroída porque os remédios escorriam”, conta, e, neste momento, ela foi informada de que precisaria de um transplante.

Isso, porém, não poderia ser feito antes de enfraquecer a ameba com um tratamento específico. “Se você faz um transplante com o protozoário forte, a chance de ele continuar no olho é muito grande, aí se perde o transplante”, disse ela, que começou a utilizar dois colírios para tentar frear a ação do protozoário. A espera, no entanto, tinha um risco alto.

“Como minha córnea estava muito tomada, meu médico falou: ‘Uma hora ela [ameba] vai perfurar a córnea e, quando ela perfurar, tem que fazer um transplante de urgência’. Foi o que aconteceu”, narra. Praticamente um ano após ficar doente, em novembro de 2008, ela passou por seu primeiro transplante de córnea - e ele só agravou a situação.

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Gentileza de Marcela Monferdini

“Fiz o transplante nove horas da manhã e, quando foi duas da tarde, ele já havia sido rejeitado”, relembrou, contando também que, nesse momento, ela ainda desenvolveu glaucoma e catarata no olho comprometido. Foi então que ela encontrou uma médica especialista em doenças raras e passou a ir semanalmente de Ribeirão para São Paulo para fazer um novo tratamento.

“Ela tirou tudo o que eu estava usando e começou um novo tratamento. Foi bom, começou a dar certo, mas, em março de 2009, eu tive uma reação muito forte e tive que ser hospitalizada. Comecei a vomitar muito, tinha dor de cabeça… Eu sabia que era meu olho. Um médico resolveu então medir a pressão do olho e ela estava altíssima. Era o glaucoma”, conta ela.

Nesse momento, ela precisou de outro transplante - mas, desta vez, ele foi diferente. “Foi feito um procedimento triplo, que é um transplante, mais a cirurgia de catarata e uma cirurgia de glaucoma - o implante de válvulas de irrigação”, diz Marcela, que relata também uma verdadeira batalha para fazer o corpo não rejeitar o segundo transplante como fez com o primeiro.

Para que o organismo não rejeite um órgão transplantado, é preciso usar medicamentos imunossupressores, que enfraquecem as defesas do corpo e dificultam que ele lute contra o corpo estranho - o órgão novo. Esses remédios, porém, tiveram efeitos colaterais complicados para a advogada, que se viu em um dilema cada vez maior.

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Gentileza de Marcela Monferdini

“Esses remédios aumentavam a pressão do olho, desencadeando glaucoma. Se eu controlava a pressão do olho, os remédios desencadeavam a rejeição. Eu tive muitas dores, era insuportável, eu não tinha vida, tranquei minha faculdade na época, estava no último ano”, contou ela, que passou os cinco anos seguintes com a vida estacionada.

Durante o período que se seguiu, Marcela apostou em uma série de tratamentos - inclusive experimentais, como cobrir o olho com membrana amniótica, parte interna da placenta - que também não foram eficazes. Além disso, ela também estava constantemente com dor e seu estado psicológico, obviamente, não era dos melhores.

“Eu não tinha trabalho, perspectiva de vida. Via a vida das minhas amigas, casando, tendo filho, eu não tinha isso. Na época, eu namorava meu ex-namorado e a doença era impeditiva. Ele dizia que não ia conseguir me sustentar com a doença. Eu não podia fazer nada”, conta, e, aos 30 anos, finalmente decidiu que removeria seu olho doente.

Assim, passados sete anos desde que adoecera, Marcela foi em busca da cirurgia, e a falta de apoio das pessoas à sua volta foi um empecilho tão grande quanto toda a burocracia que envolvia o processo. “A maioria dos médicos não aceitava, meus familiares não aceitavam, achavam que eu estaria desistindo de lutar, mas eu não estava perdendo um olho, estava ganhando uma vida”, explica.

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Gentileza de Marcela Monferdini

Após passar por diversos médicos, ela finalmente conseguiu todos os laudos de que precisava - afirmando que ela realmente havia tentado todos os procedimentos cabíveis para contornar o problema - e fez a operação. “Não me arrependo. Tive sete anos para tomar essa decisão, foi algo muito bem pensado”, explica.

Adaptação à nova vida

Após retirar o olho, Marcela passou a usar uma prótese, mas, apesar de ela ser bastante realista, a advogada afirma que custou a se acostumar. “A parte da aceitação da prótese foi a mais difícil. Por mais que as pessoas falem que é perfeito, a gente vê os defeitos e não sente que é perfeito assim. Ainda depois da cirurgia, demorou um ano para eu me aceitar”, explica.

Após conseguir se adaptar, ela então finalmente pôde seguir com sua vida. “Estudei, passei em um concurso, saí da minha cidade e vim para São Paulo, terminei um namoro que era tóxico e hoje sou casada, tenho um filho, um emprego... Minha vida andou”, conta, confessando que o processo a fez descobrir uma força até então desconhecida.

“Falo para todo mundo que precisei perder um olho para enxergar melhor a vida. É verdade, eu não sabia que tinha essa força, aí quando você vê que passa por isso, fala: ‘Eu sou capaz de tudo’. Foi um aprendizado muito grande”, diz Marcela, que, hoje, tenta ajudar outras pessoas passando pela mesma situação que ela enfrentou de forma relativamente solitária.

“Eu converso com muitas pessoas na internet, muitas me procuram, tento fazer o que eu posso, nem que seja ajudar psicologicamente como um ombro amigo porque não sou médica, mas posso pelo menos conversar assim como fizeram comigo”, afirma.

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Gentileza de Marcela Monferdini | Gentileza de Marcela Monferdini

Lentes de contato: o que NÃO fazer com elas

Assim como Marcela, muitas pessoas cometem erros bem comuns ao manusear, armazenar e utilizar lentes - e, apesar de muitos os considerarem inofensivos, eles não são. Entre os cuidados com as lentes de contato, está o uso de produtos adequados, a troca diária da solução, higienização das mãos e, segundo o oftalmologista Renato Neves, a eliminação os seguintes hábitos:

  • Enxaguar as lentes com água corrente

Pela existência de inúmeros microrganismos na água, ela não deve ser usada para lavar a lente. Em vez de fazer essa higienização na pia ou no chuveiro, o mais indicado é lavar bem as mãos, colocar a lente na palma e usar uma solução apropriada para isso.

  • Molhar as lentes com saliva

Quando sentem algum incômodo nos olhos e estão longe de casa, é comum que as pessoas umedeçam as lentes com saliva na ausência de produtos adequados, mas isso não é nada seguro. “Passar saliva na lente é como mergulhá-la em uma banheira de bactérias”, diz o especialista.

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  • Reaproveitar a solução de limpeza

Para que as lentes fiquem bem limpas, além de usar produtos adequados, é necessário descartar o líquido após o contato dele com elas.

  • Esquecer de trocar a caixinha

Bem como as lentes, as caixinhas para armazená-las devem ser trocadas para evitar contaminação. Segundo o médico, é preciso fazer isso de três a quatro vezes por ano, além de higienizar o recipiente com frequência.

  • Fechar a caixinha ainda úmida

Após lavar o recipiente onde se guarda as lentes, é preciso esperar que seu interior seque antes de fechá-lo, já que a umidade favorece a proliferação de bactérias.

  • Usar soluções caseiras ou improvisadas para lavar as lentes

Tanto as lentes quando suas caixinhas devem ser higienizadas com produtos próprios para isso - e eles não podem ser substituídos por outras substâncias como colírios, soro fisiológico e água.

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  • Dormir de lentes

Como os olhos ficam fechados durante a noite, as córneas recebem menos lubrificação e, dessa forma, é possível que as lentes grudem ou arranhem a superfície do olho, gerando problemas.

  • Colocar as lentes depois de fazer a maquiagem

Para quem tem o hábito de se maquiar, é importante lembrar que as lentes devem ser colocadas antes, e não depois. Além disso, é preciso removê-las antes de fazer a limpeza do rosto e evitar maquiagem à prova d’água - já que elas podem acabar manchando as lentes de forma permanente.

  • Nadar e tomar banho usando lentes

Assim como ocorre caso as lentes sejam lavadas diretamente com água, tomar banho e nadar com elas na piscina ou no mar faz com que elas entrem em contato com uma série de microrganismos com os quais não deveriam entrar.

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Cuidados com os olhos