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O que é bioplastia e por que está ligada a casos graves como do Dr. Bumbum e Urach?

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Reprodução/TV Globo

Recentemente, uma técnica médica usada para fins estéticos voltou a estar sob os holofotes após complicações de saúde em uma paciente. Trata-se da bioplastia, um tipo de injeção dada para aumentar o volume de certas partes do corpo.

O caso envolvendo o médico Denis Furtado, conhecido como Dr. Bumbum, e a morte da bancária Lilian Calixto acendeu um importante debate em torno do procedimento. A suspeita é que ela tenha desenvolvido problemas de saúde após realizar bioplastia nos glúteos.

Anteriormente, o método também esteve em pauta no episódio envolvendo a modelo Andressa Urach. Em 2015, ela desenvolveu um quadro de infecção generalizada após aplicação de hidrogel e PMMA nas coxas.

Urach, que chegou a ficar internada na UTI, respirando com a ajuda de aparelhos, precisou passar por lipoaspiração para remover os produtos injetados, que, segundo afirmou na época, causaram necrose em seu músculo.

O VIX conversou com especialistas da área da cirurgia plástica para entender o que é a bioplastia e como este procedimento pode estar relacionado com complicações de saúde.

O que é a bioplastia?

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funnyangel/Shutterstock

Trata-se de uma técnica de preenchimento corporal e projeções de volume a partir de aplicação de produtos no organismo. “Consiste em injetar substâncias para remodelar o corpo. O procedimento pode ser feito em pequenas áreas do corpo ou no rosto. É um método seguro quando feito com o produto adequado e um médico especialista”, diz a cirurgiã plástica Juliana Rizzatti, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

Para garantir a segurança do paciente, existem partes do corpo em que não é indicado realizar o procedimento, bem como produtos que não devem ser usados nas injeções.

Materiais usados na bioplastia

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molekuul_be/Shutterstock

Segundo os especialistas consultados para esta matéria, o material injetado em sessões de bioplastia pode ser o PMMA (polimetil-metacrilato ou acrílico) e o ácido hialurônico. O hidrogel, apesar de comumente usado para este fim, não é recomendado pela SBCP.

Assim, a escolha do produto usado na bioplastia depende da quantidade que será aplicada no organismo e o objetivo do procedimento.

PMMA

O PMMA (polimetil-metacrilato ou acrílico) se tornou uma substância comumente usada na bioplastia. O produto é liberado pela ANVISA, porém, desde que para fins específicos.

Ele é indicado para correções faciais, especialmente em pacientes com doenças que causam a lipodistrofia (quando há perda de gordura facial). "É um procedimento indicado para preenchimento de pequenas regiões do corpo, como em depressões da face comuns de serem vistas em casos avançados de HIV", diz o cirurgião plástico Giancarlo Dall´Olio, membro da SBCP.

O órgão, entretanto, não recomenda o uso do PMMA para aumento de volume corporal em grandes quantidades. Além disso, conforme explica Wilson Cintra, vice-presidente da instituição, o material é definitivo, o que significa que, caso haja complicações futuras ou o paciente se arrependa, é necessário realizar um novo procedimento para retirá-lo do organismo.

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vchal/Shutterstock

Ácido hialurônico

O ácido hialurônico é outro tipo de substância usada para preenchimento e aumento de volume corporal. Ao contrário do PMMA, ele não é definitivo no organismo e tem como principal atrativo a capacidade de ser completamente reabsorvido pelo corpo após 18 meses - o que o torna uma alternativa ainda mais segura.

"O risco é extremamente baixo se feito adequadamente", diz Cintra. Leandro Pereira, diretor da SBCP, reforça: "O ácido hialurônico não gera problemas futuros, é uma alternativa bastante segura."

Apesar de poder ser utilizado em maiores quantidades, o problema do ácido hialurônico está no valor do produto - mais caro, se comparado ao PMMA, de acordo com os especialistas.

"Isso torna a situação um pouco inviável. Na região glútea, por exemplo, ele não é usado devido ao preço muito alto", diz Pereira.

Hidrogel: pode ser usado?

O hidrogel, uma mistura de soro fisiológico com poliamidas, é outro produto comum de ser aplicado em procedimentos de preenchimento e projeção corporal. “A substância costuma ser usada para aumento de volume em regiões glúteas e nas coxas, além de preenchimento em rugas faciais”, detalha Juliana.

Porém, o uso do hidrogel não é recomendado pela SBCP para bioplastias, especialmente em procedimentos que envolvam regiões extensas do corpo, como glúteos, pernas e coxas, já que se tratam de áreas muito grandes e que oferecem mais riscos do que benefícios ao paciente - apesar de algumas marcas terem registro na ANVISA e seu uso não ser raro por alguns cirurgiões plásticos.

"Existem opções mais seguras para preenchimento em grandes quantidades, como gordura do próprio paciente ou implantes de silicones", lembra Juliana.

Riscos da bioplastia

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Victor Josan/shutterstock

A bioplastia pede atenção para que algumas complicações não se desenvolvam no organismo do paciente. "Mesmo quando bem executado, o procedimento pode trazer reação de corpo estranho, necroses, tromboses e até embolias", diz Juliana.

Quadros de embolias, tromboses e necroses estão relacionados ao risco de o produto cair na corrente sanguínea.

"A injeção de qualquer substância pode atingir um vaso sanguíneo e fazer com que a substância chegue aos pulmões”, explica o cirurgião plástico Newton Roldão sobre casos de bloqueio das artérias pulmonares. "Além disso, o contato com o vaso pode ocasionar necrose da região. A área glútea, por exemplo, guarda vasos muito calibrosos, que, se alcançados, podem levar à embolia”, adiciona Cintra.

O vice-presidente da SBCP salienta que, no caso do PMMA, o grande risco em usar o produto em regiões extensas do corpo é a amplificação destes perigos. “Se usar até 3 miligramas, ele pode causar os riscos inerentes à técnica, mas são pequenos. As quantidades maiores causam problemas igualmente maiores”, esclarece.

O PMMA ainda traz outra complicação específica, que diz respeito a possíveis deformações corporais que podem ocorrer no corpo do paciente. “A injeção acontece no meio dos tecidos. Em casos de complicações, não há possibilidade de retirar só o PMMA. É necessário a remoção dos tecidos, o que causa grandes deformações no corpo", alerta Cintra.

Em relação ao hidrogel, o problema está, além das complicações comuns da bioplastia, no desenvolvimento de processo infeccioso pela presença do produto no corpo, que possui taxa de rejeição elevada. Foi o que aconteceu com Andressa Urach, que apresentou um quadro de sepse após o agravamento de infecção nas coxas turbinadas com a substância.

“Ela estava bem até que a região começou a inflamar, o que a tornou porta de entrada para qualquer agente infecioso. Ela teve uma sepse por conta da infecção do produto”, explica Cintra.

No caso do ácido hialurônico, existe o risco de rejeição do organismo à substância. Entretanto, os médicos lembram a possibilidade da aplicação da hialurase, uma enzima que quebra o ácido, na região. "Há um antídoto", diz o vice-presidente da SBCP.

Em casos de complicações, o indicado é procurar ajuda médica para o tratamento. “A primeira coisa é procurar o hospital. Lá, o paciente realizará coleta de exames, que mostrarão se ele está em um quadro infeccioso para que o antibiótico seja administrado. Se ele tiver contato com o médico que o tratou, é importante contatá-lo para iniciar o tratamento”, diz Cintra.

Partes do corpo contraindicadas

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A técnica de preenchimento com substância injetável é recomendada para pequenas regiões do corpo, como o rosto. “A SBCP não recomenda o uso de produtos em grande quantidade, como realizado em glúteos ou coxas”, lembra Juliana.

Nestes casos, o aumento de volume de regiões extensas como as citadas deve ser obtido com outro procedimento a fim de evitar complicações.

Alternativas à bioplastia

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PapaPorpor/Shutterstock

Para quem busca obter aumento dos glúteos ou coxas, há técnicas que satisfazem o objetivo com muita eficácia, afirmam os especialistas.

O implante de próteses de silicone e a lipoenxertia são os mais indicados. Cintra esclarece: “A prótese glútea é similar a uma de mama. Não tem reação de corpo estranho porque é um silicone médico. E o enxerto de gordura é feito com a gordura do próprio paciente.”

Para a bioplastia em pequenas regiões, o ácido hialurônico continua como melhor opção para além do PMMA e do hidrogel. “Ele não tem que ser retirado do corpo, porque é reabsorvido por ele, e não gera problemas futuros”, lembra Pereira.

Cuidados na hora de fazer bioplastia

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Branislav Neni / Shuttterstock

Caso o paciente esteja certo sobre sua decisão de realizar um procedimento como a bioplastia, é preciso atentar-se a algumas informações importantes.

Entre as principais recomendações, os médicos sugerem que o paciente investigue se o especialista escolhido para fazer o procedimento é o mais adequado para o caso. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica recomenda que qualquer procedimento estético invasivo ou cosmiátrico seja feito somente por médicos especialistas em dermatologia ou cirurgia plástica.

Além disso, Cintra frisa que é importante checar junto ao Conselho Regional de Medicina (CRM) do seu estado se o profissional está com registro ativo.

“Avalie a formação, a especialidade e se a pessoa tem condições de exercer a função. É importante consultar o site da SBCP e ver se o nome do especialista consta lá. Se não estiver, quer dizer que ele provavelmente não fez especialização em cirurgia plástica ou não pertence à Sociedade”, diz o diretor do órgão.

Outro conselho é verificar se o local onde o procedimento será realizado está autorizado pela vigilância sanitária para recebê-lo.

Também é importante que o paciente esteja informado sobre o tipo de produto que será aplicado em seu corpo. “Existe um termo de comprometimento com todos os problemas possíveis causados pelas substâncias. Tem que informar obrigatoriamente o paciente sobre o que ele vai usar”, alerta Cintra.

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