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Aumento nos casos de cegueira preocupa médicos: qual a causa e o que fazer?

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Um recente estudo divulgado na revista científica "The Lancet" trouxe um dado que alarmou a classe médica: em 33 anos, o número de cegos deve triplicar no mundo. O salto previsto será de 170% - de 217 milhões de deficientes visuais hoje para 588 milhões em 2050, entre casos reversíveis e irreversíveis.

Especialistas brasileiros falaram sobre o tema na 61ª edição do Congresso Brasileiro de Oftalmologia, que aconteceu em Fortaleza (CE), em setembro. Por aqui, já são mais de 1,2 milhões de pessoas cegas. 

Por que o número de cegos irá aumentar tanto?

Para o oftalmologista Paulo Augusto de Arruda Melo, membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e ex-presidente da entidade, são duas as principais raízes da questão: o envelhecimento da população e a falta de acesso à saúde.

"Não é um aumento proporcional ao da população", garante. "Estamos falando de mudanças na característica mundial das pessoas. Isto é, temos doenças que antes eram pouco prevalentes, mas hoje são muito mais frequentes, já que as pessoas estão vivendo mais."

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De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), entre 60% e 80% dos casos de cegueira poderiam ser evitados ou tratados. Isso significa que a falta de informação e atendimento é a lacuna que pode comprometer a saúde das pessoas. 

"É também nos países mais carentes que ocorre um maior número de acidentes de trabalho. Há ainda as pessoas que poderiam recuperar a visão, mas não conseguem acesso aos serviços de saúde", comenta o especialista. 

Tipos de cegueira

Arruda Melo explica que há as cegueiras reversíveis, como a causada pela catarata, que pode ser corrigida com cirurgia, e as irreversíveis, que são as mais frequentes, resultantes do glaucoma e das doenças da retina, como a retinopatia diabética.

Glaucoma

Trata-se de uma doença que provoca lesão no nervo óptico e, consequentemente, deteriora o campo visual, podendo levar à cegueira.

Na maior parte dos casos, acompanha a pressão intraocular elevada, mas pode ocorrer glaucoma de "baixa pressão". O glaucoma crônico costuma atingir pessoas a partir de 35 anos de idade.

Como os sintomas costumam aparecer em fase avançada da doença, o exame oftalmológico anual, preventivo, é fundamental para detecção e tratamento precoce.  Em geral, o tratamento é feito com colírios. A cirurgia se torna opção quando o tratamento clínico não apresenta resultados.

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Retinopatia diabética

Quem tem diabetes apresenta um risco de perder a visão 25 vezes maior do que pessoas que não têm a doença. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a retinopatia diabética atinge mais de 75% das pessoas que portam a doença há mais de 20 anos.

O controle cuidadoso do diabetes, com uma dieta adequada e acompanhamento médico, é a principal forma de evitar o desenvolvimento da retinopatia diabética. Para manter a visão, diabéticos devem passar rotineiramente por uma consulta oftalmológica.

Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI)

A condição acontece após os 60 anos de idade e afeta a área central da retina (mácula). A DMRI causa baixa visão central (mancha central), trazendo comprometimento da qualidade de vida. Os danos à visão central são irreversíveis, mas a detecção precoce e os cuidados podem ajudar a controlar alguns dos efeitos da doença.

Cegueira congênita

A estimativa apontada pela "Lancet" não engloba casos de cegueira de nascença, que acontecem por fatores genéticos que levam a má-formações. Além disso, fatores externos, como desnutrição ou carência de nutrientes, também pode afetar o desenvolvimento do feto e, consequentemente, levar à cegueira. 

Como prevenir a cegueira adquirida 

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O oftalmologista Paulo Augusto de Arruda Melo aponta para possíveis caminhos que podem prevenir o aumento de quase 200% no número de cegos em 2050. 

"Os gestores de saúde precisam mudar o foco das verbas para atender a demanda. Combater e prevenir a cegueira é importante, pois a falta de visão compromete a independência das pessoas", diz. Sobretudo, existe uma preocupação grande com a educação da população e dos profissionais de saúde. 

Outro ponto é trabalhar com a população de risco. "Nós sabemos que as pessoas acima de 40 anos têm maior possibilidade de desenvolver glaucoma. E as pessoas diabéticas, de desenvolver doenças de retina", comenta o especialista. 

Em uma família onde há um membro portador de glaucoma, por exemplo, a probabilidade de haver outro é muito maior do que em uma casa que não possui nenhum glaucomatoso. "O portador deve comunicar a todos sobre a existência da doença", afirma. 

Grande parte dos casos de cegueira é reversível – é o caso das pessoas com catarata e que ainda não passaram por cirurgia. Mas outros problemas oftalmológicos, como retinopatia diabética, glaucoma e degeneração macular, podem ser mais graves e, se não forem tratados a tempo, levam à perda irreversível da visão.

Saúde e bem-estar