Ginecologia natural: por que mulheres estão mudando o jeito de cuidar da saúde íntima?

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"Não quer engravidar? Toma pílula", "Está com cólica? Pega um analgésico", "Candidíase? Compra uma pomada". Já parou para pensar na quantidade de substâncias artificiais que usamos diariamente? Por esses e outros motivos, acabamos nos desconectando de nossos corpos e encarando fenômenos como ovulação e menstruação de maneira negativa, o que evita entendermos sinais que o organismo dá.

A fim de mudar essa concepção e garantir a saúde com autonomia e liberdade, surge a ginecologia natural. O método visa transformar concepções ultrapassadas e promover o autoconhecimento do corpo feminino. A seguir, entenda tudo sobre ginecologia natural:

Afinal, o que é ginecologia natural?

A prática natural não é uma especialidade da medicina, mas uma nova forma de enxergar o cuidado com o corpo feminino, o processo de adoecimento e o ciclo menstrual.

A ginecologista Bel Saide explica que o método trata a saúde da mulher holisticamente, ou seja, a vê de forma integral. “Se uma paciente falar que tem cisto no ovário, não vou simplesmente examinar e pedir testes, mas ouvir toda a história dela, quais são seus sentimentos e pensamentos, no que acredita e como lida com sua feminilidade e menstruação", ressalta.

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Muitos tratamentos aplicados pela metodologia não são fundamentados cientificamente, mas há quem diga que são "comprovados na prática". Há diversos grupos no Facebook, como o Laboratório de ginecologia natural, e sites, como o Ginecologia Natural, em que é fácil encontrar relatos de quem experimentou e gostou.

Foi o caso da estudante Luciana Console, que encontrou na ginecologia natural uma maneira de levar uma vida mais saudável: "Sempre que eu ia na ginecologista comum, acabava saindo com uma receita de remédio e eu me questionava o quão invasivo e desnecessário foram todos os tratamentos que realizei, já que eu não sentia nada", conta.

Por meio de comunidades na web e coletivos de saúde feminina, a jovem de 26 anos mudou seus hábitos: ela aderiu ao DIU de cobre (que não contém hormônios), passou a usar sabonetes sem sulfato para a região íntima e absorventes ecológicos lavados com óleo essencial de melaleuca. 

Origem

A ginecologia natural é um movimento proveniente de países da América Latina, como Chile, Uruguai e Argentina, cujas habitantes começaram a resgatar os saberes ancestrais de cuidados com seus corpos.

Apesar de ainda ser pouco conhecido no Brasil, o assunto está em ascensão e ganhando adeptas.

Substitui a ginecologia convencional?

A naturóloga, fitoterapeuta e facilitadora em ginecologia natural, Ana Carolina Arruda, lembra que já ouviu muitos relatos de pessoas beneficiadas pela ginecologia natural: "Ela já ajudou mulheres com síndrome dos ovários policísticos, candidíase, endometriose e até mesmo HPV. Também é excelente para realizar uma transição bem feita do anticoncepcional para um método mais saudável".

Apesar tratar diversos acometimentos, a proposta não é substituir a ginecologia tradicional, mas complementá-la. "Apesar de ser muito eficaz, ela não exclui a ginecologia convencional, mas caminha junto com ela. Por exemplo, dependendo do caso, eu passo os tratamentos mas também peço exames, prescrevo remédios comuns ou indico cirurgia", explica a Dra. Bel. 

Empoderamento feminino e autocuidado

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Uma das prováveis explicações para o crescimento da ginecologia natural é o avanço do feminismo. Como é centrada no protagonismo da mulher, a prática atrai muitas pessoas que buscam um atendimento mais humanizado, sem preconceitos ou julgamentos e que ensine a paciente a cuidar de seu corpo sem depender de um terceiro.

As adeptas enxergam no pedido excessivo de exames, no uso frequente de medicação e nas idas constantes ao consultório - práticas que são mais recorrentes na ginecologia tradicional - um impulso para buscar uma nova metodologia. Com esse outro tipo de tratamento, seus desejos são serem vistas como uma pessoa com sentimentos, desejos e particularidades e não apenas como uma doença ginecológica.

Autoconhecimento

São poucas as mulheres que se sentem confortáveis ao realizar o exame ginecológico. Além da posição desconfortável - com as pernas abertas e apoiadas no estribo ginecológico - alguns procedimentos, principalmente os invasivos, podem causar sensação de mal-estar.

Mas já imaginou fazer seu próprio exame? Algumas rodas de conversa, cursos e profissionais ensinam a entender a fisiologia feminina e analisar as condições do colo do útero, vulva e vagina. Isso faz com que o corpo seja cuidado mais constantemente pela própria pessoa, que busca auxílio médico se surgirem anormalidades.

O autoconhecimento não para por aí. Na ginecologia natural, a paciente entende a importância de ouvir os sinais do corpo, observar e anotar cada detalhe. A partir disso, ela consegue entender facilmente o ciclo menstrual, ou seja, quando tem TPM, quando ovula, quando irá menstruar e quando seu muco está anormal, adaptando sua rotina e tomando cuidados especiais em cada fase. 

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As especialistas citam, por exemplo, que se perceber que entrará na TPM, a mulher pode apostar em alimentos e tratamentos naturais que amenizem os sintomas. Já se está com candidíase, pode fazer uso de banhos de assento com barbatimão - erva com ação antifúngica e cicatrizante - e ingerir alimentos que aumentam a imunidade.

"Ela aprende a se tocar e perceber quando algo não vai bem. Ainda por cima, os conhecimentos são necessários para que, se necessário, questione o médico quanto aos tratamentos tradicionais", conclui a naturóloga Ana Carolina Arruda.

A arquiteta Ana Paula Carvalho, 29, é umas das recém-adeptas ao método e afirma já sentir os benefícios: "Percebi que a ginecologia não é uma coisa pontual que se resume aos órgãos genitais. Agora, eu tenho noção de que cada pessoa é diferente e que o corpo deve ser tratado inteiramente. É muito bacana perceber o amor que ganhei por mim mesma".

Consultas duradouras e detalhadas

A consulta, também chamada de consulta humanizada, é longa e visa compreender o processo pelo qual a paciente passa, analisando sua história, traumas, alimentação, emoções e sentimentos com o próprio corpo.

Apesar de contar com as informações cedidas pela especialista, a escolha final sobre qual método ou tratamento seguir é somente da paciente. O processo se assemelha de certa forma ao parto humanizado, em que a gestante é protagonista ao dar a luz e tem poder de decisão.

Como é feita a ginecologia natural?

Como o próprio nome sugere, essa ginecologia se baseia em tratamentos mais naturais. Entre seus pontos cruciais, estão:

Menos contracepção hormonal

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O anticoncepcional oral é um dos métodos contraceptivos mais populares e fáceis de serem encontrados. Criado para evitar gravidez, sua finalidade mudou com o passar das décadas. Hoje, os diferentes tipos de pílula servem para tratar espinhas, endometriose, ovários policísticos, entre outros problemas. Mas será que o uso abusivo de hormônios não é arriscado?

É cada vez maior o número de mulheres abandonando os hormônios por conta dos já conhecidos efeitos colaterais. Nas bulas das diversas marcas é possível ver os possíveis efeitos colaterais: alterações do humor, baixa libido, problemas na pele, modificação de peso, aumento do colesterol, enjoos, dores de cabeça e mais.

A pílula mais perigosa é também a mais comum, que é o contraceptivo combinado com estrogênio. Além da trombose, esse hormônio também está relacionado a infarto, AVC, embolia pulmonar, diabetes, enxaqueca e até mesmo câncer.

Assim, a ginecologia natural defende a utilização de métodos mais naturais, de preferência combinados: como o DIU de cobre, camisinha, diafragma e método sintotermal (que consiste na medição diária da temperatura basal aliada à percepção da fertilidade). Mas vale lembrar que, como deve ser em qualquer consulta, na ginecologia natural a escolha da mulher é soberana e nada impede uma adepta de usar pílula, se assim ela desejar.

Alimentação

Sabe a frase "você é o que você come"? Pois é, ela vale para todo o corpo, inclusive as partes íntimas.

A ginecologia natural acredita que a alimentação está intrinsecamente relacionada com a saúde porque influencia todos os processos, podendo evitar ou contribuir com TPM, endometriose, ovários policísticos, entre outras doenças. "Um cardápio mais natural, com menos industrializados, glúten e laticínios, reforça o sistema imune e, consequentemente, a saúde da mulher", ressalta a médica Bel Saide. 

Contra uso de remédios desnecessários

Um dos pontos cruciais é evitar o uso de desnecessário de medicamentos e pensar em tratamentos naturais que não apenas combatam o problema em si, mas ofereçam recursos para que a mulher evite a recidiva.

"A ginecologia comum não vai à raiz do problema e, muitas vezes, não consegue uma cura completa. Há mulheres que têm problemas constantes, como candidíase cinco vezes por ano, episódios frequentes de herpes, etc, mesmo tomando os medicamentos indicados pelo médico", destaca a naturóloga Ana Carolina Arruda.

Tratamentos naturais

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Além dos cuidados diários, o tratamento e a prevenção de doenças ocorrem por banhos de assento, mudanças na higiene, cuidado redobrado com a alimentação, ingestão de chás, conhecimento do próprio ciclo e cremes e pomadas feitos de compostos da natureza.

Há diferentes abordagens quanto às terapias que podem ser adotadas pelas médicas e facilitadoras em ginecologia natural, que são especialistas que compartilham conhecimentos.

A ginecologista Bel Saide afirma que tenta se ater às terapias comprovadas, como fitoterapia e aromaterapia, no entanto, explica que a ginecologia natural é mais do que fórmulas, visto que seu principal objetivo é transformar a maneira pela qual a mulher enxerga seu corpo por meio de uma série de cuidados integrados.

Apesar das diferenças, há o consenso de que cada indivíduo é único e, portanto, os cuidados são personalizados.

Tratamentos

Admirar a feminilidade

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Entender, aceitar e até mesmo admirar a feminilidade é um dos princípios da ginecologia natural capazes de contribuir com a saúde.

Ele inclui a desconstrução de mitos, como o de que a parte íntima é suja e fedida. "A vagina tem um odor característico que, quando alterado, indica que a presença de algum desequilíbrio que deve ser tratado", ressalta a naturóloga.

A ideia de que a menstruação é um período chato e incômodo também é rechaçada, já que esse período celebra a capacidade de gerar uma vida.

Ainda há o conceito de que encarar o ciclo de maneira negativa piora os efeitos da TPM e aumenta o risco de doenças, sem falar que essa relação pesada torna tudo mais difícil.

Banhos de assento

Essa técnica é muito usada e difundida pela ginecologia natural. O banho de assento trata infecção íntima porque contribui para a manutenção do pH vaginal. O método é simples e consiste em sentar por alguns minutos em uma bacia cheia do líquido terapêutico, que pode ser chá de camomila ou barbatimão, vinagre, bicarbonato, entre outras substâncias.

Entretanto, apenas uma especialista poderá indicar qual composto é mais indicado para você, visto que usar o errado pode piorar o problema em questão.

Coletor menstrual e absorvente de pano

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"Eu perguntava para minha médica se o absorvente descartável realmente não faz mal e ela negava, mas não sabia explicar o porquê. Então, comecei a duvidar se ela realmente tinha certeza ou se estava reproduzindo o que aprendeu", relata Luciana Console, que chegou a usar o coletor e hoje opta por absorventes de pano.

De acordo com a Dra. Bel Saide, esses produtos compostos por algodão, poliéster, rayon, polietileno, celulose e outros agridem a vagina, tornando-a abafada e irritada e, consequentemente, contribuindo para a proliferação de micro-organismos responsáveis pelo mau cheiro.

Além disso, cada mulher produz até 3 quilos de lixo com absorventes descartáveis por ano, outro apelo para o uso de métodos reutilizáveis.

Lavagem com água

A naturóloga Ana Carolina Arruda explica que o sabonete comum altera o pH vaginal, eliminando micro-organismos benéficos e dando chance a infecções, o que leva muitas mulheres adeptas à ginecologia natural a optarem por sabonetes compostos por ingredientes naturais ou mesmo a lavarem somente com água. Essa prática, como todas as outras, deve ser conversada com o ginecologista antes de ser colocada em prática.  

Limpeza uterina 

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Esse método, um pouco mais avançado, consiste em uma limpeza energética com o objetivo de tratar o organismo como um todo. "É uma tradição antiga que foi resgatada. Pode ser feita com alho ou ervas e limpa tanto fisicamente quanto energeticamente", explica a médica Bel Saide.

O princípio é simples: o útero retém energias de eventos do passado, que podem prejudicar a saúde atual. Sendo assim, o tratamento é indicado especialmente para infecções vaginais, abortos e para quem enfrentou abusos ou relações difíceis.

A arquiteta Ana Paula Carvalho fez a limpeza com alho para melhorar a conexão consigo mesma, sua comunicação com o exterior e se conhecer melhor. "Foi um tratamento com lactobacilos, mel, alho, floral de Bach e um chá de minha preferência. Foi significativo para mim e ajudou principalmente a melhorar minha dificuldade em me expressar e falar em público", relata.

Tratamento natural para vagina