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O que é transtorno borderline? Mais comum em mulheres, ele leva emoções ao limite

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Também conhecido como transtorno de personalidade limítrofe (TPL), borderline é um distúrbio que afeta principalmente o equilíbrio emocional. O quadro interfere em todas as esferas da vida, desde trabalho até relacionamentos amorosos e familiares, impede o planejamento em longo prazo e ainda pode surgir concomitantemente a outros quadros psiquiátricos como depressão e bipolaridade.

A técnica em administração Luz Martin trata o distúrbio há seis anos e explica que as diferenças com relação a quem não tem uma alteração de personalidade são muitas. "Em mim, as principais característica são o medo de abandono, vazio e falta inexplicável e impossível de ser preenchida", conta.

Apesar de ser menos conhecido do que outras condições do mesmo tipo, como esquizofrenia e transtorno antissocial, o borderline é muito mais comum e atinge ao menos 1,6% da população, sendo 75% mulheres.

O que é transtorno de personalidade borderline?

Segundo a psiquiatra Suzzana Bernardes, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), TPL é um dos tipos de transtorno de personalidade caracterizado pela instabilidade emocional, que muda ao longo do dia muitas vezes sem ter nenhum episódio desencadeante. O distúrbio afeta principalmente as relações pessoais, a autoimagem e a visão dos relacionamentos.

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Borderline e personalidade limítrofe são termos que surgiram em referência aos pacientes que vivem na "borda", ou seja, fronteira, entre duas formas de atividade psíquica: a psicose e a neurose.

A primeira é caracterizada pela perda de contato com a realidade, gerando delírios, já a segunda é o desequilíbrio mental que causa instabilidade emocional mas não desconfigura a percepção da realidade.

Causas

Assim como a maioria dos distúrbios psiquiátricos, não se sabe com precisão quais são as causas do TPL, mas entende-se que fatores ambientais e genéticos podem influenciar seu aparecimento.

Há especialistas e estudos que indicam que o distúrbio pode ter origem em episódios de abusos na infância. Já outros acreditam que a predisposição genética também deve ser levada em conta.

Características do transtorno borderline

É preciso lembrar que cada pessoa é única e lida com seus sentimentos de maneira individual. Contudo, os sintomas de transtorno borderline mais conhecidos incluem:

Instabilidade emocional

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Angústia, ansiedade, medo e inquietude são sentimentos que surgem em episódios para "borderlines", como costuma se chamar coloquialmente quem possui o transtorno. Além disso, é frequentemente relatada uma sensação intensa de vazio.

Medo de abandono

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Luz Martin explica que o medo de solidão é um de seus sentimentos mais marcantes: “Eu estou constantemente com a convicção de que minha família, amigos, colegas, todos vão me deixar, não por que vão morrer, mas porque eu não os mereço. É como se isso fosse me fazer ficar sem chão", desabafa.

Essas pessoas vivem constantemente com o medo de serem abandonados. Para eles, o abandono real ou ilusório significa que são seres ruins. Por isso, possuem raiva inadequada diante de episódios comuns, como fim de compromissos, atrasos ou cancelamento de encontros por terceiros.

Segundo a psiquiatra Suzzana Bernandes, essa característica faz com que grande parte de seus relacionamentos sejam caóticos, com brigas, discussão, ciúmes etc.

Impulsividade

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Podem ocorrer ataques de raiva sem que necessariamente haja algum estímulo externo, visto que o próprio pensamento já é capaz de alterar o humor. Alguns também costumam ser sarcásticos e ficar entediados facilmente.

Em casos menos frequentes, os momentos de nervosismo podem vir acompanhados de alucinações.

Comportamento autodestrutivo e compulsões

Em momentos de muito sofrimento emocional, as pessoas com transtorno borderline podem usar a dor física como uma forma de externalizar e aliviar o que sentem, podendo apresentar acesso de raiva e automutilação. Amigos e familiares devem ficar atentos a essa forma de manifestação da doença, já que pode ser uma maneira dessas pessoas mostrarem que estão precisando de ajuda.

Outra possibilidade é se envolver em situações potencialmente perigosas, como fazer sexo desprotegido e realizar infrações no trânsito. Ainda costumam se autossabotar, regredindo após receberem elogios ou incentivos por exemplo.

Por último, possuem tendência a compulsões, como vício em drogas, consumismo, sexo, jogos e comida.

Desenvolvimento de outros transtornos

Grande parte das pessoas com transtorno de personalidade borderline podem desenvolver outras condições ao mesmo tempo. Entram nessa lista depressão, ansiedade, bipolaridade, distúrbios alimentares e causados pelo abuso de substâncias, estresse pós-traumático, entre outros.

Relacionamentos conturbados

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“Depois que comecei o tratamento percebi que sou border desde os 13 anos, principalmente por me apaixonar e apegar muito rápido as pessoas”. O depoimento da estudante Mariane Da Cruz ressalta uma das características mais marcantes da personalidade borderline.A idealização de companheiros e amigos faz com que compartilhem histórias íntimas e segredos com pessoas logo após conhecê-las.

Contudo, sinais mínimos de que o conhecido não está disponível para ouvir ou conversar, como atraso em um compromisso ou demora em responder uma mensagem, pode ser o gatilho que desperta sentimentos negativos para os portadores desse distúrbio, como ciúmes, raiva, culpa e desvalorização do relacionamento.

“Por isso, tenho dificuldade em fazer novas amizades e manter as antigas. Todos os meus namoros acabaram se tornando abusivos. Também há o fato de que é difícil fazer com que as pessoas entendam como penso”, exemplifica Mariane.

Percepção instável de si mesmo

A instabilidade também é marcante na autoimagem, fazendo com que variem constantemente entre atitudes de vingança e vitimização.

Suicídio e Transtorno Borderline

Pessoas com borderline têm mais risco de cometer suicídio. Isso se deve à sensação de vazio e solidão, principalmente quando há depressão envolvida. Algumas vezes, a descoberta do quadro ocorre justamente após uma tentativa de acabar com a própria vida.

Foi o caso da técnica em administração Luz Martin: “Descobri que era border quando fui internada pela primeira vez. Antes eu havia brigado com meu pai e saí de casa para morar com uma amiga. Lá, na casa dela, tive um ‘surto’, ou seja me senti muito sozinha, vazia e sem controle da vida. Então, tomei uma grande quantidade de remédios”, conta. Felizmente, a mãe da amiga de Luz a socorreu a tempo. “No outro dia, me levaram para um hospital psiquiátrico e foi nele que fui diagnosticada”, explica.

No entanto, a simples observação dos sinais de comportamento suicida, como consumo de substâncias e mudanças anormais no comportamento, e a busca por um especialista pode evitar com que o paciente chegue a este limite.

Diagnóstico

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O diagnóstico é clínico e segue os critérios do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria, que elenca os seguintes pontos de avaliação:

  • Dedicação intensa em evitar o abandono;
  • Presença de relacionamentos instáveis;
  • Mudanças frequentes de autoimagem;
  • Impulsividade e comportamento autodestrutivo em ao menos duas áreas,
  • Indícios suicidas ou de automutilação;
  • Flutuações de humor;
  • Sentimento de vazio;
  • Raiva demasiada;
  • Sintomas de psicose ou dissociação em momentos de estresse.

De acordo com a psiquiatra Suzzana Bernardes, as características surgem no início da vida adulta e a confirmação do diagnóstico só é feita após os 18 anos, pois antes disso ele pode ser confundido com outros quadros de instabilidade resultantes de oscilações hormonais da adolescência.

Algumas vezes, é preciso realizar testes de laboratório para eliminar a possibilidade de doenças que tenham sintomas semelhantes às psiquiátricas, como problemas de tireoide.

Transtorno borderline tem cura?

A psiquiatra Suzzana Bernardes explica que não há como curar borderline, pois o distúrbio persiste até o fim da vida.

Contudo, o DSM-5 ressalta que o nível de prejuízo social e a chance de suicídio caem conforme a idade avança, principalmente se forem aplicadas abordagens terapêuticas. Com isso, entre a terceira e a quinta década de vida já é possível ter uma vida afetiva e profissional mais estabilizada.

Tratamento

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Apesar de a condição acarretar em muito sofrimento, alguns tratamentos melhoram muito a qualidade de vida do paciente. A estudante Mariane da Cruz conta que sentiu uma melhora de aproximadamente 70% em todos os aspectos da vida após começar a fazer psicoterapia e tomar medicação. "Faço o tratamento há uns 2 anos e ele me ajuda a não ter os pensamentos intrusivos [aqueles que não dá para 'tirar da cabeça'] e não me automutilar. Além disso, faz com que eu diminua um pouco meus sentimentos, que são mais intensos do que na maioria das pessoas", conta.

Veja a seguir quais são as terapias indicadas:

Medicação

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Não existem medicações específicas para o transtorno, todavia algumas drogas podem controlar determinadas características. Por exemplo, é possível usar anticompulsivos para irritabilidade, estabilizadores de humor para instabilidade e antidepressivos para casos em que também haja depressão.

Terapia

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A psicoterapia individual e/ou em grupo é importantíssima para aprender a controlar sentimentos de abandono e impulsividade.

Esse tratamento reduz o sofrimento do indivíduo com personalidade borderline e faz com que ele deixe de perder laços afetivos e conquistas, como empregos.

O terapeuta deve estar especialmente focado em casos de transtorno de personalidade limítrofe, visto que a instabilidade desses pacientes pode fazer com que surjam consultas e ligações de emergência. Assim, indica-se buscar um profissional disponível e, de preferência, com experiência em lidar com o distúrbio.

Internação

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Em casos em que haja comportamento de risco para integridade física, pode ser necessária internação, visto que a proteção nem sempre é possível no ambiente domiciliar. Além disso, uma ala voltada a pacientes psiquiátricos disponibiliza atendimento em período integral com psicólogos, psiquiatras e outros especialistas, fornecendo o suporte necessário para o border.

Como lidar com Borderline?

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As emoções extremas dos indivíduos com transtorno borderline podem ser muito difíceis de lidar por parte de familiares, companheiros e amigos. É necessário paciência e sensibilidade para apoiar e compreender esses indivíduos.

Conversar e tentar não ignorar o indivíduo pode ser de grande ajuda, assim como incentivá-lo a se ocupar com atividades para seu próprio prazer.

Durante ataques de fúria pode haver uso de linguagem pejorativa, o que requer compreensão da família, visto que muitas vezes a pessoa com personalidade limítrofe não consegue controlar seus impulsos.

Fique atento a qualquer sinal de comportamento destrutivo e procure ajuda de um profissional sempre que os notar.

Outra sugestão importante é que pessoas que convivem diretamente com quem tem o transtorno borderline façam acompanhamento psicológico também. Assim eles conseguirão o suporte necessário para lidar com todos os aspectos do convívio sem se sobrecarregar psicologicamente.

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