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O que está por trás de uma morte cerebral e o que acontece com o corpo?

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*Matéria publicada em 2 de fevereiro de 2017

Vítima de um AVC (Acidente Vascular Cerebral) causado pelo rompimento de um aneurisma, a ex-primeira-dama Marisa Letícia não resistiu às complicações e sofreu morte cerebral após 10 dias internada no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Segundo a legislação brasileira, morte cerebral é o mesmo que morte, pois, apesar de os outros órgãos possivelmente permaneceram funcionando, sem o funcionamento cerebral, não existe a possibilidade de haver qualquer consciência. O ex-presidente Lula e a família autorizaram a doação de órgãos de Dona Marisa.

Entenda a seguir como ocorre este delicado quadro, de que forma os médicos conseguem constatar que não há mais atividade cerebral e o que acontece com o funcionamento do corpo após o cérebro se “desligar”.

O que é morte encefálica?

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John Moore / Staff / Getty Images News

Vulgarmente chamada de morte cerebral, a morte encefálica é a parada total e irreversível das funções do cérebro. De acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, este diagnóstico é definido como “morte baseada na ausência de todas as funções neurológicas”.

O que causa e como os médicos conseguem detectar?

A neurologista Gisele Sampaio, vice-coordenadora do Departamento Científico de Doenças Cerebrovasculares da Academia Brasileira de Neurologia, explica que a morte cerebral é consequência da elevada pressão intracraniana.

Em situações como esta, a pressão arterial dentro do crânio está tão alta que impede que haja passagem do sangue das artérias que chegam ao cérebro para os tecidos cerebrais.

Sem a adequada irrigação de sangue, que é responsável por levar oxigênio e nutrientes ao cérebro, o tecido “morre” e sua função não pode ser recuperada.

Para detectar se houve morte encefálica, são feitos exames médicos baseados em sólidas e reconhecidas normas médicas.

Primeiro é feito um exame clínico para avaliar se o paciente não tem mais reflexos cerebrais, como reflexo nas pupilas, e se não é mais capaz de respirar sem a ajuda de aparelhos.

Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, em muitos casos, os testes são feitos mais de uma vez com intervalo de horas para assegurar um resultado exato.

Além disso, a equipe médica também faz um exame de fluxo sanguíneo (angiograma cerebral) ou um eletroencefalograma para confirmar a ausência de fluxo sanguíneo cerebral ou atividade cerebral.

Exame feito em Dona Marisa

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Pool / Pool/gettyimages

Em nota divulgada às 10h25 do dia 2 de fevereiro, o hospital Sírio-Libanês afirma que Marisa Letícia foi submetida a um Doppler transcraniano que indicou a ausência do fluxo cerebral.

O Doppler transcraniano é um exame não invasivo e indolor que é feito quando há suspeita de morte encefálica e hipertensão intracraniana. O exame tem como objetivo avaliar a circulação sanguínea dos principais vasos intracranianos.

O médico especialista encosta um dispositivo em determinadas regiões da cabeça do paciente a fim de detectar sinais de fluxo sanguíneo nas artérias do cérebro.

Após a morte cerebral, o que acontece com o corpo?

Durante os testes para a confirmação da morte cerebral, o paciente permanece ligado a um ventilador mecânico que permite a respiração artificial.

O ventilador providencia oxigênio e é por isso que o coração continua batendo mesmo com a suspeita de morte cerebral. Quando a morte encefálica é declarada, cabe aos familiares a decisão de remover o ventilador, o que acarreta a paralisação dos outros órgãos, ou fazer a doação dos órgãos e tecidos.

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Life science of anatomy/Shutterstock

Permanecer “vivo” após morte encefálica é possível?

Uma vez decretada a morte cerebral, a pessoa é declarada morta. Ou seja, mesmo que ela continue ligada a um ventilador mecânico, ela não está viva.

“Morte encefálica é morte. Os aparelhos devem ser desligados porque não se trata de uma manutenção de vida. Com a morte encefálica, não é possível que a pessoa continue nem mesmo em estado vegetativo”, explica o neurologista Eduardo Wajnberg.

Doação dos outros órgãos

Para que seja realizada a doação de órgãos, é preciso que um parente assine um documento na presença de duas testemunhas autorizando a retirada de tecidos, órgãos e partes do corpo da pessoa falecida.

O autorizador pode ser um cônjuge ou parente, maior de idade.

Até que aconteça o procedimento de doação de órgãos, o doador permanece com o suporte do ventilador mecânico. “A pessoa é mantida ligada ao ventilador para que aconteça a correta oxigenação dos órgãos”, comenta o neurologista.

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