Trombose venosa: sintomas, fatores de risco e tratamento da doença altamente fatal

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A trombose é uma doença que causa obstrução de uma ou mais veias ou artérias profundas. Ela surge em decorrência da formação de coágulos que impedem a passagem correta do sangue pelo corpo. Muito grave, ela pode provocar amputações de membros, embolia pulmonar e, em muitos casos, leva à morte. De acordo com o Ministério da Saúde, a trombose foi responsável por mais de 7,5 mil óbitos em todo o país em 2013.

A trombose venosa é mais comum do que a arterial. Entenda as diferenças, os sintomas, os fatores de riscos para a doença e saiba como tratar e preveni-la.

Trombose arterial

A trombose arterial, que é causada pelo entupimento de artérias, é muito mais rara que a trombose venosa, mas pode acontecer em qualquer artéria do corpo. “Se acontece na cabeça, ocorre um derrame; no coração, um infarto; e na perna, podem acontecer amputações”, exemplifica a cirurgiã vascular e angiologista Aline Lamaita, do hospital Albert Einstein (SP).

Causas

As tromboses arteriais costumam ser decorrentes de problemas graves de circulação, principalmente nas pernas, doenças ateroscleróticas avançadas ou diabetes.

“A artéria vai ficando mais rígida com o passar dos anos e vai acontecendo acúmulo de placas de colesterol dentro dela, se o colesterol da pessoa é muito alto, o acúmulo é acelerado. Tabagismo e hipertensão também aumentam os riscos”, explica.

Trombose venosa

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Já a trombose venosa pode ocorrer de duas formas: em veias profundas, desencadeando um quadro mais delicado e podendo levar à embolia, e em veias superficiais, condição que é chamada de tromboflebite.

Tromboflebite

Nos casos de tromboflebite, as chances de embolia são muito pequenas. Os sintomas são vermelhidão e local dolorido. Se não for tratada adequadamente, ela pode desencadear uma trombose venosa profunda, que é o quadro mais grave.

Por que acontece?

Ela pode ocorrer, por exemplo, em pessoas que receberam medicamento pela veia, já que isso pode inflamar as veias mais superficiais.

Como evitar complicações?

Ao observar os sintomas, a pessoa deve consultar um médico vascular. O tratamento pode ser feito com anti-inflamatório e compressa e, em alguns casos, anticoagulante por um curto tempo.

Trombose venosa profunda

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Aline Lamaita explica que a trombose venosa profunda (TVP) é a inflamação decorrente do desenvolvimento de coágulos sanguíneos, chamados trombos, na parede de vasos das pernas e coxas. Quando o coágulo se desloca para o pulmão, acontece a embolia pulmonar, que é fatal em muitos casos. Como esta trombose atinge os vasos mais profundos, é considerada mais grave. 

Segundo a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, somente no Brasil, cerca de 120 mil novos casos de trombose venosa profunda são diagnosticados por ano. Apesar de comum, pesquisa do Ibope apontou que 44% da população brasileira desconhece os sintomas da doença. Além disso, a taxa de recorrência é alta. A estimativa é que 25% dos pacientes que já tiveram a doença vão ter um novo episódio de trombose.

A angiologista afirma que até 95% dos casos de trombose venosa acontecem nas pernas, mas o entupimento pode ocorrer em qualquer veia do corpo, como no cérebro e no braço.

“É mais comum nas pernas porque as veias são mais longas e estão mais distantes do coração, que é para onde o sangue tem que voltar. A incidência é muito alta e chances de mortalidade são grandes, mas é possível prevenir”, explica Aline.

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Grupos de risco

As pessoas mais propensas a esta complicação são as que estão hospitalizadas, que passaram por cirurgias ou que estão sem andar e têm problemas de circulação.

Sintomas

Aline afirma que os principais sintomas deste tipo de trombose são dor, calor, sensibilidade, inchaço e vermelhidão nas pernas.

"Quanto aos sinais de uma embolia pulmonar, temos a falta inesperada de respiração, a respiração rápida, a dor no peito e a frequência cardíaca alta, tosse e catarro com sangue", comenta a médica. A gravidade varia de acordo com o tamanho do embolo que se soltou. "Quando é grande, pode ocorrer um infarto pulmonar e morte súbita", alerta.

Tratamento

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Assim que a trombose for diagnosticada, o paciente precisa começar a tomar anticoagulante para impedir que coágulos se soltem e sigam em direção ao pulmão. O anticoagulante deve ser tomado de três a seis meses, dependendo da veia que foi afetada, para deixar os trombos mais rígidos e impedir que eles se desprendam das paredes dos vasos.

Caso a pessoa tenha antecedentes ou uma prédisposição grande a ter trombose, pode ser que o medicamento precise ser utilizado para sempre, sem interrupção.

No caso da trombose venosa profunda distal, que são as que acontecem do joelho para baixo, as veias afetadas são menores e o tratamento pode ser feito em casa. O paciente só vai precisar fazer repouso até o anticoagulante começar a fazer efeito e depois caminhar com a meia de compressão, sem nunca fazer massagem.

Caso o tipo seja proximal, ou seja, em veias que estão acima do joelho, as veias afetadas costumam ser mais importantes e as chances de embolia são maiores. Neste caso, o indicado é que o tratamento seja iniciado no hospital.

Quem teve trombose também deve usar meia de compressão por pelo menos um ano (tirando só para dormir) e, se necessário, tratar as veias com sequelas. “O tratamento parece o de varizes, são remédios para melhorar o inchaço e a retenção de líquido, e as varizes são tratadas para melhorar a circulação”, explica a cirurgiã vascular. Quem se recupera 100% não precisa usar a meia de compressão depois do primeiro ano.

De acordo com Aline, a indicação de cirurgia é raríssima e acontece apenas quando há uma contraindicação de coagulante. É uma situação de exceção. “É em último caso, uma tentativa de salvar a pessoa”, comenta.

Injetar trombolítico, medicação que tenta dissolver o trombo, também não é comum porque são grandes as chances de sangramento e o risco é alto.

Trombose pode matar?

De acordo com a Sociedade Internacional de Trombose e Hemostasia, o tromboembolismo venoso é a causa número 1 de mortes evitáveis em hospitais e 60% dos casos ocorrem durante ou após internações. De acordo com Aline, a trombose venosa poderia ser evitada em muitos casos, se todos os médicos realizassem uma avaliação nos pacientes antes de interná-los e tomassem algumas precauções.

“Pacientes internados e/ou que passaram por cirurgias ortopédicas ou ginecológicas têm mais risco de terem trombose venosa porque eles ficam muito tempo parados e porque nestas cirurgias há uma manipulação maior de veias, o que pode desencadear inflamações”, explica a cirurgiã vascular.

Causas e fatores de risco

Anticoncepcional e trombose

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Muitos anticoncepcionais aumentam os riscos de trombose - a grande maioria causa esse efeito. Mesmo assim, a doença é mais comum em pessoas que têm prédisposição genética e agravantes, como fumar, ser sedentário, obeso, ter doenças crônicas, etc. 

“Todas as pessoas que tomam hormônio estão sujeitas ao risco de ter trombose. O que acontece é que algumas, por questões próprias delas, têm esse risco aumentado”, comenta o neurologista clínico do HCor Eli Faria. 

Caso a mulher saiba que tem casos de trombose na família, deve sinalizar isto ao ginecologista para que ele leve isto em consideração na hora de prescrever um anticoncepcional.

Recentemente, uma jovem universitária teve trombose cerebral após tomar umas das pílulas mais perigosas por 5 anos. 

Perigos de trabalhar sentado

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Segundo estudo feito a partir de 16 relatórios sobre idosos dos EUA, Europa Ocidental e Austrália e publicado na revista médica britânica "The Lancet", ficar sentado por oito horas ou mais aumenta em 10% os riscos de morte por trombose, já que a circulação sanguínea é afetada.

“Como a panturrilha é o coração das pernas, a cada contração muscular bombeamos o sangue e ativamos a nossa circulação. Quando a musculatura fica parada muito tempo, pode haver retenção de líquido nas pernas, inchaço, sensação de pernas pesadas e cansadas e isso aumenta as chances de desenvolvimento de varizes e trombose venosa", explica a cirurgiã vascular.

De acordo com o hematologista e vice-presidente do Grupo Cooperativo Latino Americano de Hemostasia e Trombose (CLAHT) João Carlos de Campos Guerra, 100 ml de sangue vão da panturrilha de volta para o coração em apenas um minuto. Permanecer sentado por muito tempo pode atrapalhar a circulação e aumentar os riscos da formação de trombos.

O médico afirma que ficar sentado por 90 minutos reduz a circulação sanguínea atrás do joelho em 50%, o que aumenta o risco de TVP nos membros inferiores.

Viagens de avião

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Aline comenta que o ideal é que pessoas que são mais propensas a terem trombose façam uma avaliação com um médico vascular antes de fazer viagens de mais de 4 horas. Além disso, todos devem andar a cada duas horas de voo, movimentar as pernas enquanto estiverem sentados, beber bastante líquido e evitar bebidas alcoólicas, porque elas engrossam o sangue.

Quem tem problema de circulação deve usar meias de compressão e caminhar e, em alguns casos, até tomar anticoagulante sob prescrição médica. 

Outros fatores

Além desses, outros fatores que aumentam as chances de pacientes terem a complicação são: abortos recorrentes, acidente vascular cerebral (AVC), uso de anticoncepcional hormonal, câncer, presença de cateter venoso central, doença inflamatória intestinal, doença pulmonar obstrutiva crônica, idade maior que 55 anos, infecção, insuficiência arterial periférica, cardíaca ou respiratória, obesidade, internação em UTI, paralisia dos membros inferiores, quimioterapia, reposição hormonal, tabagismo, varizes, insuficiência venosa periférica, antecedente familiar de trombose e TEV prévio.

Quem tem predisposição deve tomar mais cuidados, principalmente antes de cirurgias e de engravidar, e ter o acompanhamento de um médico vascular.

Trombose tem cura?

A trombose venosa deve ser tratada com anticoagulantes para impedir que o coágulo migre para o pulmão e cause uma embolia pulmonar. A cirurgiã vascular afirma que a primeira semana após a trombose é mais perigosa, já que os riscos de embolia são maiores.

Depois disso, é preciso que a pessoa tenha o acompanhamento de um médico vascular para prevenir outras tromboses ou, em alguns casos, tratar as sequelas.

“Algumas pessoas ficam com um problema de circulação crônico nas pernas chamado de Síndrome pós-trombótica e aí aparecem manchas, alguns vasos ficam com volume aumentado, aumentam as chances de ter varizes e isso precisa ser acompanhado por um médico”, explica Aline. 

Como evitar complicações

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Como as chances de trombose são grandes em hospitais porque os pacientes ficam deitados por um longo período de tempo, na internação é preciso avaliar os antecedentes familiares e do próprio paciente, a idade dele, se ele é fumante, obeso, sedentário, trombofílico ou realizou uma cirurgia recentemente e, a partir das informações, concluir se é um paciente com baixo, moderado ou alto risco de ter trombose.

“Com estas informações, dá para saber se o paciente só vai precisar meias de compressão e andar de duas em duas horas, se vai ser necessário medicação ou até mesmo um tratamento de compressão pneumática intermitente com bombas que simulam uma caminhada”, explica a cirurgiã vascular.

Pessoas que se submetem a cirurgias ortopédicas, geralmente, precisam tomar anticoagulantes já na internação e continuar tomando o medicamento durante a cicatrização como forma de prevenção.

Como prevenir a trombose?

Se você trabalha sentado o dia inteiro, saiba que para reverter este efeito negativo é necessário praticar pelo menos uma hora de atividade física por dia. A angiologista explica que a função dos exercícios é o de desenvolver a musculatura efetiva e, consequentemente, proteger o corpo da formação de coágulos.

"O hábito de realizar atividade física regular está relacionado a melhor controle de peso, melhora do diabetes, controle de pressão arterial e níveis de colesterol, além de um condicionamento cardiopulmonar", lista a médica.

O ideal é que a pessoa também inclua em seu dia a dia hábitos que ativam a circulação, como movimentar os pés a cada 15 minutos, andar um pouco a cada hora sentado e beber bastante água. Caso a pessoa já tenha problemas de circulação, pode ser que precise de meias de compressão para prevenir a trombose.

Após os 40 anos, os cuidados devem ser redobrados, já que a tendência é a perda de massa magra e aumento da incidência de doenças como hipertensão e diabetes, além do processo natural de envelhecimento.

Riscos da trombose