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Jovem diabética morre após método extremo para emagrecer; caso alerta famílias

Há um ano, Lisa Day morreu em decorrência de complicações causadas por um distúrbio alimentar e psicológico pouco conhecido chamado diabulimia. O termo refere-se a diabéticos do tipo 1 que injetam menos insulina do que o necessário de propósito para perder peso.

A jovem foi diagnosticada com diabetes tipo 1 em 2001, aos 14 anos. Na época, os médicos prescreveram injeções diárias de insulina e pediram para que ela cuidasse da alimentação.

Lisa, no entanto, desenvolveu uma grave obsessão sobre o corpo. Pouco tempo depois, descobriu que, deixando de tomar a dose diária de insulina, conseguiria emagrecer.

Apesar de extrema, a atitude da jovem tem servido de alerta para familiares de pessoas em situações parecidas, já que ela é mais comum do que se sabe.

Trantorno de imagem 

Em setembro de 2001, Lisa começou a escrever um diário sob recomendação médica para registrar suas escolhas alimentares. Com o diagnóstico de diabetes, suas refeições passaram a ser muito mais restritas.

Por anos, ela escreveu não só sobre o que comia, mas também sobre sua tristeza em ser diabética e, principalmente, sua dificuldade em aceitar o próprio corpo. Mesmo sendo muito magra, ela escrevia, recorrentemente, que era gorda.

Foto de Lisa com a mãe, Doreen

"Acabei de vomitar algumas batatas chips e talvez tente vomitar mais. Estou tão GORDA”, afirma em um trecho do diário. O registro foi encontrado e cedido pela irmã da vítima, Katie Edwards, à rede britânica BBC News.

Além disso, a jovem também comemorava quando conseguia perder peso. Em novembro de 2002, escreveu que havia perdido 9 kg e que estava pesando 47 kg. No mês seguinte, comemorou novamente.

"Joe e Tom mandaram mensagens. Me disseram que estou em boa forma. BELEZA, minha perda de peso está dando resultados".

Bulimia

Em um trecho do diário, a jovem escreveu que achava que era bulímica. Dias depois, afirmou que estava se obrigando a vomitar porque, se não fizesse isso, se sentia culpada pelo o que comeu. No ano seguinte, assumiu que sofria com a doença, mas disse estar melhorando. A família acredita que ela morreu sem saber que sofria também de diabulimia.

Em entrevista à rede britânica BBC News, Katie Edwards diz que ela e sua mãe não sabiam o quão grave era o problema de sua irmã mais nova e que só encontraram o diário recentemente.

"Antes de ser diabética, Lisa era completamente feliz. Comia o que queria e não tinha problema algum com comida. Quando a diagnosticaram, pediram que escrevesse um diário em que registrasse o que comia, bem como os níveis de açúcar em seu sangue", revelou Katie.

Consequências da diabetes não tratada

Quando não tratada ou tratada de forma errada, a diabetes tipo 1 pode causar cegueira, problemas renais, perda de cabelo e até a morte precoce, como aconteceu com Lisa.

Katie Edwards anunciou a morte da irmã por meio de postagem no Facebook

"No princípio, ela era esperta - não comia muito -, mas se deu conta de que, se não tomasse insulina, perderia peso de qualquer jeito. E poderia comer as coisas que não deveria”, relembrou a irmã.

Na época em que emagreceu bastante, Katie diz que quando Lisa comia, era só batata cozinha e peixe cozido.

"Lembro-me de uma vez que mamãe lhe deu um sorvete e ela estava orgulhosa de tê-lo comido. Mas sentiu-se mal, porque o estômago rejeitou o sorvete, já que Lisa não vinha comendo o suficiente", afirmou a irmã.

Por causa de seus problemas de saúde e do uso incorreto de insulina, Lisa acabou desenvolvendo um grave problema no estômago.

"Ela desenvolveu um problema estomacal e, quando comia, seu estômago não processava o alimento. Tinha dores terríveis e foi internada algumas vezes entre janeiro e abril do ano passado. Os médicos disseram que isso foi causado pelo uso incorreto da insulina, e isso a deprimiu". 

Insulina engorda?

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Andrey_Popov/Shutterstock

A insulina não engorda, mas a falta de insulina no corpo é capaz de provocar emagrecimento. A endocrinologista especialista em diabetes e transtornos alimentares Claudia Pieper explica que a falta de insulina no corpo faz com que a glicose fique alta e isso faz com que o paciente urine mais.

“A insulina ajuda a equilibrar a pessoa porque carrega a glicose para dentro das células. Quando há falta de insulina, a glicose fica na circulação sanguínea, o diabético passa a urina mais, elimina glicose na urina e emagrece. Apesar de emagrecer, é muito perigoso porque provoca a cetoacidose diabética e a pessoa entra em coma”, explica a endocrinologista.

A cetoacidose diabética é um quadro muito grave que pode levar os diabéticos à morte. Entre os principais sintomas estão vômitos, desidratação, dores abdominais e hálito azedo.

Diabulimia

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Syda Productions/Shutterstock

Estima-se que um terço das jovens mulheres que têm diabetes tipo 1 sofra de distúrbios alimentares, como anorexia e bulimia, ou se incomode com o próprio peso. De acordo com a endocrinologista Claudia Pieper, adolescentes e jovens adultas com diabetes tipo 1 têm 2,4% mais chances de desenvolver transtornos alimentares do que mulheres não diabéticas.

“A diabulimia é a opção intencional de pular, diminuir ou omitir a dose de insulina com o objetivo de emagrecer”, explica Claudia Pieper, que é autora do livro "Diabulimia, uma combinação perigosa".

Além disso, o transtorno pode vir acompanhado de outros mecanismos para emagrecer, como vomitar após as refeições (bulimia), deixar de comer e consumo de laxantes e diuréticos.

"Essa coisa de diabulimia, eu não sabia que outras pessoas também tinham. Isso só veio à tona depois que ela morreu. É muito triste. Se Lisa tivesse recebido ajuda 10 anos atrás, ela poderia ainda estar conosco, porque teria se cuidado mais", comentou a irmã mais velha da vítima.

Como identificar a doença

Por se tratar de um transtorno psicológico, é importante ficar bastante atento aos sinais da doença. Claudia explica que os mais comuns são: baixa autoestima, muitas preocupações relacionadas à alimentação, problema excessivo com a imagem corporal, emagrecimento excessivo, dores abdominais, pouca energia, sintomas de depressão, internações frequentes e negação à realização de exame de glicose e/ou alicação de insulina na frente de outras pessoas.

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