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Além da microcefalia, o que mais o Zika causa nos bebês?

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Arte/Vix

A microcefalia é, de longe, a maior preocupação atrelada ao Zika vírus. Apesar de o problema, que afeta o perímetro da cabeça do bebê e algumas funções cerebrais, merecer toda a atenção, existem muitas outras formas de o vírus atingir o feto e prejudicar o desenvolvimento do bebê.

Como o Zika atinge o feto? 

Foi um surto de microcefalia no Nordeste do Brasil que ligou o sinal de alerta no país em 2015. Em novembro do mesmo ano, o Ministério da Saúde confirmou: o número crescente de casos tinha relação total com o Zika, vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypt (hoje, algumas evidências mostram que o mosquito comum também poderia ser responsável pela transmissão). No início, pouco se sabia sobre como o vírus era capaz de passar pela placenta e atingir o feto. Porém, em janeiro, uma pesquisa realizada por cientistas do Instituto Carlos Chagas, da Fiocruz Paraná, confirmou o que acontece no organismo da gestante.

Na análise, foram usadas amostras da placenta de uma mulher que sofreu um aborto retido (quando o feto para de se desenvolver) na oitava semana de gestação, após ela apresentar sintomas da infecção pelo vírus Zika. Com as amostras, também foi feito um exame que confirmou a infecção das células da placenta pelo vírus e a transmissão placentária para o feto.

De forma resumida, o que se acredita atualmente sobre a atuação do Zika no embrião: quando a mãe é infectada pelo vírus, ele entra em contato com a corrente sanguínea e se espalha por todos os tecidos vivos do corpo. Na placenta, o que acontece é uma inflamação, que rompe a barreira que protege o feto. A hipótese mais provável é que, nesse momento, o vírus entre em contato com as células de Houfbauer, que são células móveis responsáveis pela proteção do bebê. O Zika “penetra” nela para conseguir chegar à corrente sanguínea do feto.

O que pode acontecer com o bebê? 

A infectologista Helena Brígido explica que, assim como outros vírus neurotrópicos, o Zika tem atração pelo sistema nervoso central dos infectados e que a microcefalia é apenas uma das consequências das lesões causadas nele.

Helena comenta que bebês infectados pelo vírus Zika podem ter ou não microcefalia e que o fato de não ter microcefalia não isenta eles de doenças decorrentes de lesões cerebrais.

Consequências da infecção 

“Em decorrência do vírus, o bebê pode nascer cego, surdo, com atraso neurológico, malformações esqueléticas e musculares e não ter a microcefalia. Por isso que o diagnóstico completo só pode ser feito conforme o desenvolvimento da criança”, explica Helena Brígido.

A infectologista Lígia Pierrotti comenta que o mais comum é as pessoas falarem em microcefalia porque é uma alteração facilmente identificada, mas que o correto é falar em Síndrome congênita associada à infecção por zika vírus neonatal, ou simplesmente Síndrome Congênita do Zika, já que a microcefalia é apenas um dos problemas desencadeados pela infecção.

“Já foram observadas relações entre problemas oculares em bebês e a infecção por Zika vírus. Ainda é cedo para dizer quais problemas a infecção causa porque vai depender da gravidade de cada caso e como o vírus age em cada organismo, por isso que precisamos acompanhar os bebês que nascem com alterações”, afirma Lígia.

Ou seja, é muito importante acompanhar o desenvolvimento de bebês e crianças, principalmente dos filhos de mulheres que tiveram sintomas da zika durante a gestação, mesmo que esses bebês não apresentem sinais iniciais de algum problema de desenvolvimento.

Caso real: primeiro bebê sem microcefalia, mas com outros problemas

Em um artigo publicado por pesquisadores brasileiros no site da revista científica The Lancet, os especialistas contam sobre o primeiro caso de um bebê que não nasceu com microcefalia, mas apresentou lesões neurológicas e oculares graves causadas pelo vírus Zika. A mãe da criança não apresentou nenhum sintoma durante a gestação, mas um exame do líquido cérebro-espinhal de seu filho apontou a existência de anticorpos para o vírus Zika. (Vale lembrar que 80% dos casos de Zika são assintomáticos e, por isso, não é possível descartar a possibilidade de uma mãe ter sido infectada pelo vírus, nem mesmo se o bebê nascer aparentemente saudável).

O bebê, que é pernambucano, nasceu com 38 semanas, 3,5 kg e perímetro cefálico medindo 33 cm, características normais, mas desde o nascimento apresentou espasmos musculares nos braços e pernas. Exames de imagem identificaram calcificações em seu cérebro – cicatrizes causadas por infecções que impedem o desenvolvimento cerebral.

Os médicos também observaram lesões oculares semelhantes às encontradas em bebês com microcefalia. À BBC Brasil, a oftalmologista que conduziu os exames deste bebê, Camila Ventura, disse que outros dois casos semelhantes estão sendo estudados e que em qualquer suspeita de que existem lesões cerebrais tem que se levantar a suspeita de Síndrome Congênita da Zika.

"Queremos mostrar que isso é uma síndrome e tem um espectro. A criança pode ou não ter microcefalia, lesões oculares, auditivas, espasmos, convulsões. Como o Ministério da Saúde tem colocado a microcefalia como critério para continuar investigando os casos, você pode acabar excluindo crianças que têm lesões neurológicas. E muitas dessas mães são do interior, demoram a chegar até nós", afirmou na entrevista.

Recomendações da OMS

A partir disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou recomendações com o intuito de padronizar o diagnóstico de microcefalia no mundo todo para ajudar no tratamento de crianças afetadas, especialmente no Brasil, por causa do surto de Zika.

De acordo com a cartilha, a cabeça do bebê deve ser medida depois de 24 horas após o parto e com menos de uma semana de vida. A cabeça de um menino normal tem 34,5 cm de circunferência, enquanto a de menina deve ter 33,9 cm, podendo as medidas variarem um pouco para mais ou para menos. A microcefalia é confirmada em meninos com cabeça medindo um perímetro menor de 31,9 cm, e meninas com menos de 31,5 cm.

A orientação da OMS é que bebês diagnosticados com microcefalia façam exame de imagem para detectar má formação do cérebro, exames auditivos e oftalmológicos, medições periódicas da cabeça, investigações médicas nos pais, exames físicos e neurológicos e tenham acompanhamento médico durante toda a infância.

O documento da OMS afirma que parte das crianças tem desenvolvimento normal e evidencia que a microcefalia não é uma doença e sim um sinal de que o bebê corre o risco de ter atraso no desenvolvimento e deficiência intelectual.

A partir desta recomendação, os médicos começaram a liberar recém-nascidos que não apresentavam as características da microcefalia sem antes fazer outros exames.

Contudo, em junho, a OMS afirmou que existem várias outras anomalias observadas em recém-nascidos que podem ser causadas pelo vírus Zika. De acordo com um grupo de especialistas da organização, estas anomalias apontam para a presença de “uma nova síndrome congênita”.

No editorial em que as informações foram divulgadas, os pesquisadores afirmam que existem evidências de que as anomalias congênitas são muito mais amplas do que pensavam.

“A OMS estabeleceu um processo para definir o espectro desta síndrome. O processo se centra na elaboração de mapas e na análise de manifestações clínicas, incluindo anomalias neurológicas, auditivas, visuais e de outros tipos", indicam os especialistas.

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