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"Você não consegue perceber quando isso começa": caso de violência doméstica marcou Luiza Brunet

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Reprodução/Mexeu com Uma, Mexeu com Todas

"Você não consegue perceber quando isso começa". A fala de Luiza Brunet é repetida por muitas mulheres que já passaram por episódios de violência doméstica. "Nos depoimentos, nas coisas que eu tenho lido a respeito de violência contra a mulher, é assim que acontece. É uma agressão aqui, ali. E a coisa vai crescendo. E aí você se pergunta: 'Mas por que que aconteceu isso? Se era o homem que eu amava, se o nosso relacionamento estava tão bem'".

As declarações da modelo fazem parte do documentário "Mexeu com Uma, Mexeu com Todas" (2017), de Sandra Werneck. O filme reúne diversos depoimentos de mulheres que também sofreram violência de seus parceiros, e joga luz sobre um problema ainda longe de acabar no Brasil.

A produção está disponível no streaming VIX Filmes e TV e pode ser assistida gratuitamente pela versão web ou baixando o aplicativo no seu celular, na App Store ou no Google Play. Também é possível assistir à programação em plataformas de TV conectada, como Amazon Fire, Apple TV, Roku e ChromeCast.

Violência doméstica sofrida por Luiza Brunet

O caso de Luiza Brunet ganhou grande repercussão em 2016, quando a famosa denunciou o então companheiro por agressão. A violência do ataque foi tanta que acabou deixando muitos hematomas pelo corpo de Luiza, incluindo no rosto, além de ela ter tido quatro costelas quebradas. Depois disso, ela travou uma luta na justiça pela punição de seu agressor, que foi condenado a um ano de detenção em regime semiaberto em 2019.

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Cineluz Produções/Divulgação

O que poucos sabiam antes do documentário de Sandra Werneck, é que a modelo já tinha marcas de violência doméstica em sua vida, por ter presenciado por muitos anos a tortura psicológica que seu pai fazia com sua mãe. Na produção, Luiza deu detalhes sobre sua história, atravessada pelo machismo, e fez reflexões que podem ajudar muitas mulheres que passam ou já passaram pelo mesmo. Confira trechos do depoimento abaixo!

Relato de Luiza

Eu nasci no interior do Mato Grosso. Minha infância foi muito feliz, mas eu comecei a perceber uma certa época que meus pais começaram a entrar em umas brigas constantes. Era um casal lindo, jovem e apaixonado, que foi desbravar o Mato Grosso e tiveram oito filhos.

E eu me lembro que quando eu tinha cinco, seis anos, já presenciava cenas que me deixavam estarrecida. Meu pai era muito bonito, minha mãe também, e eram bastante ciumentos um com o outro. E eles brigavam feio mesmo, mas ele nunca chegou a agredir ela fisicamente. Mas ele tinha arma em casa, e ele encostava ela na parede e dizia: "Eu vou te dar um tiro". E ele apontava a arma pra ela, mas ele dava na parede.

E teve momentos que eu presenciei também ele com uma faca na mão, jogava ela na cama e sempre dizia que ia matá-la. Mas ele olhava pra ela, e ela dizia assim, abria até o peito e dizia: "Mata, mata". E os filhos ficavam do lado: "Pai, para, por favor!", aquela gritaria, aquela confusão, e aí ele dava uma facada no travesseiro.

Então eu presenciei esse tipo de violência bastante na minha.. nem era adolescência, eu era uma criança, eu tinha seis, sete anos.

E aí, um dia, ela se encheu de tudo isso, colocou alguns pertences dentro de uma mala, pegou todos os filhos e resolveu vir para o Rio de Janeiro. Nós saímos, os filhos e minha mãe. Meu pai acabou entrando no ônibus um pouco depois, e a gente veio parar no subúrbio do Rio de Janeiro.

A minha adolescência foi dura, porque quando eles chegaram no Rio de Janeiro, não tinha nada a não ser os filhos e um pouquinho de objetos. Pra recomeçar a vida naquela época não era fácil. E eu fui, então, designada a morar com uma tia minha, e um pouco depois eu comecei a trabalhar em uma casa de família. Era para tomar conta das crianças e fazer os afazeres domésticos de uma casa. Ou seja, o que comporta a uma empregada doméstica jovem, saudável e ativa como eu era.

Acabou o gás na minha casa um dia e minha mãe pediu para eu buscar dinheiro com meu pai, que trabalhava num bar, no posto de gasolina. E eu vejo que vem um homem muito bonito em minha direção. Olhei pra ele, achei ele bonito, e fui pra casa. E à noite eu ia pra escola. E eu encontro esse mesmo rapaz, sentado na sala da minha casa. Eu acho que ele me achou interessante, procurou saber quem era essa moça, e foi justamente para o meu pai que ele perguntou. E meu pai convidou ele para me conhecer melhor. Foi o homem com quem eu me casei, Gumercindo Brunet. Por isso tenho esse sobrenome.

Eu passei seis anos casada com o Gugu, e iniciou então a minha carreira de modelo, logo no começo do casamento. Então, aos 17 anos, eu já era considerada uma sex symbol, né? Aquela mulher que sai na capa da Manchete da época, nas revistas. Uma sensualidade, assim, mais pra fora. Eu não tinha vergonha do meu corpo, era muito bem resolvida com meu corpo. Era uma espécie de admiração por uma mulher que eu não conhecia, porque depois eu voltava pra casa e continuava a minha vida, de dona de casa, apesar de trabalhar como modelo. Mas eu sempre lavei, passei e cozinhei, sempre gostei de ser mulher, de cuidar do marido, de cuidar da casa, de cuidar da minha família toda.

Bom, depois de seis anos de casamento, a gente passou por umas dificuldades no relacionamento e eu acabei me separando. E conheci acho que o grande amor da minha vida, que é o pai dos meus filhos. Eu fiquei casada com o Armando acho que 24 anos, mas a gente acabou se separando. Eu fiquei durante 3 anos separada, muito tranquila, achando que nunca mais na minha vida eu ia conhecer alguém que valesse a pena. Porque eu estava super criteriosa, com medo de me envolver novamente. E acabei conhecendo o terceiro homem da minha vida.

Eu acho que todo começo de relacionamento, os dois lados são bem amorosos um com o outro. A gente já nasce meio que pronto, né? Eu acho que quando começa a aparecer algum desvio de conduta, em ambos, é porque a coisa já tá lá, né? Principalmente nos depoimentos, nas coisas que eu tenho lido a respeito de violência contra a mulher, é assim que acontece. É uma agressão aqui, ali. E a coisa vai crescendo. E aí você se pergunta: "Mas por que que aconteceu isso? Se era o homem que eu amava, se o nosso relacionamento estava tão bem". Você não consegue perceber quando isso começa.

No meio de um jantar, houve um desentendimento muito sem importância, sobre uma conversa que talvez não tenha sido agradável, eu tenha questionado algumas coisas que eu não achei que fosse certa. E eu não imaginava que isso fosse desencadear uma agressão física tão violenta, que eu sofri alguns minutos, ou uma hora depois, chegando em casa. Na verdade, eu fui agredida verbalmente, com palavras duras para uma mulher ouvir. E agredida fisicamente com chutes, tapas, com olho roxo e quatro costelas quebradas. Eu não consigo avaliar o por que que chegou nesse nível de agressão.

E como é difícil a gente sobreviver depois de uma agressão física tão pesada e dolorosa como essa. Acho que ninguém merece. Nenhuma mulher merece passar por isso. (...)