Prisão de Temer fez muitos comentarem a mesma coisa (e isso está bem errado)

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Marcos Corrêa/PR/Agência Brasil

Na última quinta-feira (21), o nome de Michel Temer dominou as manchetes após o ex-presidente ser preso em São Paulo pela operação Lava Jato da Polícia Federal, sob a acusação de liderar uma organização criminosa que atua há décadas no Rio de Janeiro. Apesar de sério, o assunto – como sempre – rendeu inúmeras piadas na web, mas nem todos eles se referiam ao político em si.

Pela grande diferença de idade que tem com o marido, a esposa do ex-presidente, Marcela Temer, foi assunto nas redes sociais por diversas vezes durante o período em que foi primeira-dama – e agora teve sua vida pessoal transformada em memes de maneira machista (e errada).

Imediatamente após a notícia de que Temer fora preso, diversas brincadeiras a respeito do próprio ex-presidente já começaram a pipocar. Junto delas, porém, vieram piadas que incluíam Marcela e, enquanto algumas delas são inofensivas, outras são bastante problemáticas.

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Antonio Cruz/Agência Brasil

Marcela Temer: por que memes são machistas?

Em primeiro lugar, mesmo com as graves suspeitas contra Temer e o fato de ele ter sido, por cerca de dois anos e meio, presidente da República, as piadas humilhantes e de cunho sexual foram direcionadas especialmente à sua mulher – mesmo quando a intenção é “atingi-lo”.

Algumas, por exemplo, insinuavam que, já em sua primeira noite preso, Temer seria traído por Marcela. Nesse caso, apesar de a “brincadeira” ser direcionada ao ex-presidente, ela sai como a “mulher que não vale nada”, estereótipo comum que mostra a grande tendência das pessoas em criticar homens usando a integridade das mulheres ao redor dele.

Com as notícias sobre a prisão do ex-presidente pipocando, também surgiram internautas “se oferecendo” para fazer companhia à Marcela. Apesar de não parecer nada demais, essas “brincadeiras” também têm um fundo bem machista; até algumas décadas atrás, a mulher era praticamente uma propriedade do pai ou do marido, portanto precisava ter um homem do lado para ter valor e até mesmo para andar na rua.

Apesar dos muitos avanços, essa herança ainda se apresenta atualmente em situações como a desvalorização da opinião feminina em relação à masculina, o fato de que, muitas vezes, a única forma de fazer um homem desistir de investir em uma mulher é dizer que ela é comprometida (ou seja, “tem dono”) e presumir que mulheres necessariamente precisam de um homem por perto.

Além disso, dadas as incontáveis comemorações sobre Marcela estar “sozinha”, fica claro que essas sugestões têm duplo sentido – e isso é a base das muitas situações graves que as mulheres enfrentam diariamente. Ainda que não precisem mais se reportar a homens, mulheres ainda são, em geral, vistas como um objeto sexual, algo que motiva desde as cantadas de rua até o abuso sexual.

Mesmo que por “brincadeira”, dar a entender que agora Marcela é um terreno baldio disponível para ser ocupado por qualquer um é extremamente problemático, já que, como em casos de assédio, invalida a liberdade da mulher em dizer “sim” ou “não”. Ainda que pareça óbvio, porém, esse é um dos discursos que têm rolado soltos no Twitter desde a prisão de Michel Temer:

Reações às piadas machistas

Apesar da ampla rejeição recorde com a qual Temer finalizou seu governo, diversos internautas mostraram que, neste caso, a problematização dos “memes” com Marcela não têm relação alguma com política.

Independente de acusações contra a família Temer, essas “brincadeiras” transbordam a esfera política e mostram como a mulher segue sendo vista como um objeto sexual – ou seja, que só serve para satisfazer o homem e está sempre disponível.

Machismo na sociedade