Festa polêmica no final de semana gerou discussão enorme envolvendo artistas e famosos

A festa de 50 anos de Donata Meirelles, diretora da revista Vogue Brasil, gerou uma série de questionamentos nas redes sociais por se associar a padrões de comportamento do Brasil Colonial.

A foto da famosa sentada em uma cadeira, ao lado de duas mulheres negras usando vestimentas brancas, em pé, sofreu duras críticas na internet. A imagem remete ao quadro em que pessoas escravizadas ficavam perto das sinhás para atendê-las.

Por ser uma pessoa influente no meio da comunicação e de famosos, Donata recebeu críticas de artistas e ativistas. A diretora chegou a se desculpar pelo tema da festa nas redes sociais.

Festa de Donata Meirelles, da Vogue Brasil: acusações de racismo

Donata Meirelles fez uma festa no Palácio da Aclamação, em Salvador, na Bahia, para celebrar seus 50 anos. Assim que a foto da aniversariante sentada em uma cadeira e cercada por mulheres negras com roupas brancas caiu na internet, publicada por uma das convidadas, muitos usuários criticaram a postura de Donata.

A cena tem referências bastante associadas ao período colonial no País, em que muitos negros sofreram não só pela condição de escravizados, como foram marginalizados por sua cultura, envolvendo, inclusive, o exercício de suas crenças, como o candomblé.

Um dos pontos que geraram mais polêmica foi o fato de que, em vários registros históricos, há a mesma cena sendo vivenciada por sinhás e suas mucamas — por definição, a mulher escravizada que cuidava dos serviços da casa e sempre estava à disposição de sua patroa.

Reações negativas à temática da festa

Em um vídeo publicado no Instagram, a filósofa, ativista e escritora Djamila Ribeiro definiu a festa de Donata como "absurda".

"[A festa] tratou pessoas negras de maneira muito desrespeitosa, remetendo a uma herança colonial. É extremamente absurdo, mas o que me incomoda mesmo é a conivência das pessoas. As pessoas que lá estavam. Se a gente chega em um lugar desse, em que tortura, porque meus ancestrais foram torturados, [em que] insistem em romantizar isso como se fosse algo banal e a gente não fala nada, a gente tá compactuando com isso", pontuou.

"Além da dona da festa, que tem que ser responsabilizada, as pessoas que lá estavam também devem ser responsabilizadas, sobretudo aquelas que se dizem anti-racistas. Não é meramente uma festa, é o reforço de uma estrutura colonial".

A diretora de Marketing de uma empresa de cosméticos nos Estados Unidos, Shelby Ivey Christie, expôs o caso da festa de Donata a seus seguidores nos Stories do Instagram e no Twitter:

"A diretora de moda da Vogue Brasil, Donata Meirelles, teve um tema de aniversário de 50 anos com um tema muito detestável na noite passada. Parece ter sido um tema "escravo + senhor". Mucamas (escravas da casa), que eram muito claramente retintas, foram colocadas como adereços ao lado de convidados", escreveu, elencando algumas imagens registradas do Brasil Colônia para contextualizar a comparação de situações.

Elza Soares publicou foto com forte posicionamento

Uma das respostas mais sensíveis e contundentes ao tema da festa foi a da cantora Elza Soares, que tem uma carreira artística baseada na valorização da cultura negra e da ancestralidade. Ela aparece em duas fotos (deslize abaixo para ver mais), ocupando a posição central da cena.

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Gentem, sou negra e celebro com orgulho a minha raça desde quando não era “elegante” ser negro nesse país. Quando preto não usava o elevador dos “patrões”. Quando pretos motorneiros dos bondes eram substituídos por brancos em festividades com a presença de autoridades de pele branca. Da época em que jogadores de um clube carioca passavam pô de arroz no rosto para entrarem em campo, já que não “pegava bem” ter a pele escura. Desde que os garçons de um famoso hotel carioca não atendiam pretos no restaurante. Éramos invisíveis. Celebro minha raça desde o tempo em que gravadoras não davam coquetel de lançamento para os “discos dos pretos”. Celebro minha origem ancestral desde que “música de preto” era definição de estilo musical. Grito pelo meu povo desde a época em que se um homem famoso se separasse de sua mulher para ficar com uma negra, essa ganhava o “título” de vagabunda, mas não acontecia se próxima tivesse a pele “clara”. Sou bisneta de escrava, neta de escrava forra e minha mãe conhecia na fonte as histórias sobre o flagelo do povo negro. Protesto pelos direitos da minha raça desde que preta não entrava na sala das sinhás. Gentem, essas feridas todas eu carreguei na alma e trago as cicatrizes. A maioria do povo negro brasileiro. Feridas que não se curaram e são cutucadas para mantê-las abertas demonstrando que “lugar de preto é nessa Senzala moderna”, disfarçada, à espreita, como se vigiasse nosso povo. Povo que descende em sua maioria dos negros que colonizaram e construíram o nosso país. Hoje li sobre mais uma “cutucada” na ferida aberta do Brasil Colônia. Não faço juízo de valor sobre quem errou ou se teve intenção de errar. Faço um alerta! Quer ser elegante? Pense no quanto pode machucar o próximo, sua memória, os flagelos do seu povo, ao escolher um tema para “enfeitar” um momento feliz da vida. Felicidade às custas do constrangimento do próximo, seja ele de qual raça for, não é felicidade, é dor. O limite é tênue. Elegância é ponderar, por mais inocente que sua ação pareça. A carne mais barata do mercado FOI a carne negra e agora NÃO é mais. Gritaremos isso pra quem não compreendeu ainda. Escravizar, nem de brincadeira. Seguimos em luta ✊🏾

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"Hoje li sobre mais uma 'cutucada' na ferida aberta do Brasil Colônia. Não faço juízo de valor sobre quem errou ou se teve intenção de errar. Faço um alerta! Quer ser elegante?

Pense no quanto pode machucar o próximo, sua memória, os flagelos do seu povo, ao escolher um tema para “enfeitar” um momento feliz da vida. Felicidade às custas do constrangimento do próximo, seja ele de qual raça for, não é felicidade, é dor. O limite é tênue. Elegância é ponderar, por mais inocente que sua ação pareça. A carne mais barata do mercado FOI a carne negra e agora NÃO é mais", disse em um trecho da legenda.

A publicação foi apoiada por anônimos e famosos. "Obrigado pelo legado e por estar sempre à frente do seu, Dona Elza. Lucidez e elegância!", escreveu o ator Danilo Ferreira. "Rainha", resumiram outros usuários.

A rapper Preta Rara também se posicionou sobre o caso. "Nossas dores não pode ser fantasias, estampa de roupa ou decoração. O problema do racismo nem é dos pretos, é de vocês que estão sentados nesse trono aí da foto trabalhados no privilégio, sendo assim revejam!", disse, em um trecho da publicação abaixo.

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Uma diretora de uma famosa revista fez 50 anos ontem 08/02 e comemorou com seus amigos num hotel luxuoso na Bahia com vários artistas famosos,até aqui tudo bem! A decoração da sua festa foi tipo Brasil Colônia Escravocrata, com direito a mulheres pretas vestidas de mucama ambientando a festa e recebendo os convidados, como vimos na foto até o trono da sinhá tinha. Terão pessoas nesse post que falarão que não viram problemas nenhum que é mimimi e por aí vai, pois qdo não se sabe argumentar utilizam dessas falácias pra tentar reverter o irreversível. A branquitude (não estou falando do indivíduo e sim de uma sociedade privilegiada por ter a pele alvo mais que a neve) voltando... A branquitude ama vivenciar o ranço da escravidão, pq a final de contas eles gostariam que não tivesse acabado mas, será que acabou? Vivemos na tal escravidão moderna, onde nossas dores viram fantasias, decoração de festas pra beneficiar o mal gosto das sinhás e sinhóres. A senzala moderna continua sendo o quartinho da empregada. Quando leio sobre escravidão dá um nó na garganta, arrepia a pele e é óbvio que sinto meu corpo doer, sinto as dores dos meus ancestrais, afinal de contas fazem apenas 131 anos que o Brasil “deixou” de ser escravocrata. Nossas dores não pode ser fantasias, estampa de roupa ou decoração. O problema do racismo nem é dos pretos e de vcs que estão sentados nesse trono aí da foto trabalhados no privilégio, sendo assim revejam! E a sua riqueza hoje tem sangue indígena e preto, o que vc faz pra reparar essa história? E eu cobro mesmo, seja na internet ou cara a cara, pq aqui não passa batido não. Um povo sem história é um povo sem memória, a nossa história nesse país foi escrita com sangue, morte e dor e estamos aqui pra dar uma nova sequência para que não esqueçamos o nosso passado porém reescrever essa história atual de luta, resistência e sorriso, pq sorrir para nós tbm é um ato político! O tempo fechou pra vcs branquitude e agora não abaixaremos mais a cabeça até que todxs pretxs sejam realmente livres ✊🏿 . No meu storie tem mais fotos desses absurdos #PretaRara #BeemBonita #PesaDona #doshow50

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O que disse Donata Meirelles sobre festa

Em uma publicação no Instagram, Donata se manifestou sobre as acusações de racismo. "Nas fotos publicadas, a cadeira não era uma cadeira de Sinhá, e sim de candomblé, e as roupas não eram de mucama, mas trajes de baiana de festa. Ainda assim, se causamos uma impressão diferente dessa, peço desculpas".

Mesmo com o posicionamento da famosa, o debate segue com uma questão: as roupas e objetos usados no candomblé também não devem ser vistos como itens de decoração, ou como algo exótico, já que são elementos fortemente conectados à cultura negra, valorizados dentro de um contexto religioso.

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Ontem comemorei meus 50 anos em Salvador, cidade de meu marido e que tanto amo. Não era uma festa temática. Como era sexta-feira e a festa foi na Bahia, muitos convidados e o receptivo estavam de branco, como reza a tradição. Mas vale também esclarecer: nas fotos publicadas, a cadeira não era uma cadeira de Sinhá, e sim de candomblé, e as roupas não eram de mucama, mas trajes de baiana de festa. Ainda assim, se causamos uma impressão diferente dessa, peço desculpas. Respeito a Bahia, sua cultura e suas tradições, assim como as baianas, que são Patrimônio Imaterial desta terra que também considero minha e que recebem com tanto carinho os visitantes no aeroporto, nas ruas e nas festas. Mas, como dizia Juscelino, com erro não há compromisso e, como diz o samba, perdão foi feito para pedir.

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Leia abaixo o posicionamento na íntegra:

"Ontem comemorei meus 50 anos em Salvador, cidade de meu marido e que tanto amo. Não era uma festa temática. Como era sexta-feira e a festa foi na Bahia, muitos convidados e o receptivo estavam de branco, como reza a tradição.

Mas vale também esclarecer: nas fotos publicadas, a cadeira não era uma cadeira de Sinhá, e sim de candomblé, e as roupas não eram de mucama, mas trajes de baiana de festa. Ainda assim, se causamos uma impressão diferente dessa, peço desculpas.

Respeito a Bahia, sua cultura e suas tradições, assim como as baianas, que são Patrimônio Imaterial desta terra que também considero minha e que recebem com tanto carinho os visitantes no aeroporto, nas ruas e nas festas. Mas, como dizia Juscelino, com erro não há compromisso e, como diz o samba, perdão foi feito para pedir".

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