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4 relatos emocionantes dos sobreviventes de Brumadinho: "Existe vida embaixo desse barro"

Na mídia e nas redes sociais, temos falado muito sobre a tragédia humana que se desenrolou após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, Minas Gerais, com o número de mortes aumentando a cada dia.

A perda dos amigos, familiares e colegas de trabalho que foram levados pelo mar de destruição e lixo industrial da mineradora deixou marcas irreparáveis nos sobreviventes de Brumadinho — e o projeto SP Invisível, que tem a proposta de contar histórias de pessoas anônimas, em situação de rua e que quase sempre são invisibilizadas pela sociedade, resolveu dar voz a essas testemunhas do desastre.

Separamos quatro relatos comoventes coletados por eles no local.

Relatos de sobreviventes de Brumadinho

"É muito triste pensar que existe vida embaixo desse barro"

Onofre Agostinho da Silva, 64 anos, perdeu o sobrinho e o cunhado na tragédia de Brumadinho. Da última vez que viu seu sobrinho, lembra com carinho do elogio que recebeu pelo "macarrão com galinha" oferecido. "Essa foi a última vez que eu o vi antes de acontecer essa tragédia com a vida dele (...)".

Após o desastre, ele mudou de comportamento e ficou mais quieto, o que foi percebido pela sua neta. "Ela nem me reconheceu porque eu tava quietinho e eu não gosto de ficar quieto, gosto de trabalhar, de me movimentar, mas tá difícil", disse aos representantes do projeto.

O próprio Onofre havia trabalhado na mineração, "puxando minério com caminhão", antes mesmo de o lugar ser explorado pela Vale.

Assim como o Brasil inteiro, Onofre simplesmente não compreende como tantas vidas acabaram debaixo de lama, em uma tragédia que havia sido anunciada. "É muito triste pensar que existe vida embaixo desse barro".

Leia o relato completo no post:

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“Meu sobrinho veio aqui em casa na quinta-feira, comeu um macarrão com galinha e disse para mim, ‘nossa, tio, como esse macarrão tá gostoso’. Essa foi a última vez que eu o vi antes de acontecer essa tragédia com a vida dele. Meu nome é Onofre Agostinho da Silva, tenho 64 anos. É muito triste pensar que existe vida embaixo desse barro. Não só meu sobrinho ou meu cunhado, mas tem muita gente que essa terra cobriu. Fiquei com muita vontade de chorar nesse fim de semana. Quem veio me animar foi minha neta. Ela nem me reconheceu porque eu tava quietinho e eu não gosto de ficar quieto, gosto de trabalhar, de me movimentar, mas tá difícil. Esse lugar é meio esquisito. Eu trabalhei na mina, mas antes de ser da Vale, era outra empresa. Puxava minério com caminhão, trabalhei por muito tempo.” #SPinvisivel #SP Essa semana estamos em Brumadinho contando histórias para a campanha #BrumadinhoInvisivel. Contribua no catarse.me/brumadinhoinvisivel (LINK NA BIO) para conseguirmos contribuir com a reconstrução da cidade!

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"3 anos atrás eu já previa esse acidente"

Wilson José Ferreira não tem conhecimento técnico ou formação em engenharia, mas já falava sobre os potenciais riscos da barragem da Mina Córrego do Feijão se romper há três anos.

Desde que aconteceu a tragédia em Mariana, Wilson alertou sobre os perigos de um crime ambiental acontecer de novo no estado. "Essa barragem aqui era a mais perigosa. Sempre falei que se ela rompesse, ia tudo embora, sempre bati nessa tecla, mas ninguém me dava atenção", lembra.

Ele contou que foi até entrevistado por equipes de TV na época de Mariana para falar sobre a barragem de Brumadinho. "Trabalhei na área em 2001 e 2002, naquela época já constava muita umidade nas barragens, a estrutura era muito ruim", afirmou. "Agora, não dá para descrever a tristeza. Acabou o nosso sossego, perdemos muitos queridos".

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"3 anos atrás eu já previa esse acidente. Trabalhei na área em 2001 e 2002, naquela época já constava muita umidade nas barragens, a estrutura era muito ruim. Aí quando aconteceu o desastre em Mariana, me entrevistaram pra uma TV e eu falei que ia cair essa de Brumadinho. Meu nome é Wilson José Ferreira. Essa barragem aqui era a mais perigosa. Sempre falei que se ela rompesse, ia tudo embora, sempre bati nessa tecla, mas ninguém me dava atenção, só porque eu não tinha conhecimento técnico, não era engenheiro, não era formado. Só que o que eu falei veio acontecer. Agora, não dá para descrever a tristeza. Acabou o nosso sossego, perdemos muitos queridos. Fica a indignação com a Vale que riu de mim várias vezes através dos engenheiros e com o prefeito. Com esse, eu nem quero papo. Eu me arrependo de não ter ido afundo no meu aviso, podia ter salvo a vida de várias pessoas. Só que sem apoio, sem escuta, sem alguém te incentivando fica difícil. Agora tamo tudo arrasado." #SP #SPinvisivel Essa semana estamos em Brumadinho contando histórias para a campanha #BrumadinhoInvisivel. Contribua no catarse.me/brumadinhoinvisivel (LINK NA BIO) para conseguirmos contribuir com a reconstrução da cidade!

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"Última coisa que lembro dela me falando foi um 'vai com Deus'"

A história de Leidiane, 24 anos, é da dor da perda de sua mãe. Antes da tragédia, Leidiane conta que trabalhava para dar melhores condições de vida para a família, mas, depois do episódio, ela afirma que sequer tem sonhos.

"Eu tinha o sonho de melhorar minha condição e a condição da minha mãe. 5 dias atrás, meu sonho era encontrar minha mãe viva no meio desse barro. Hoje, não tenho mais sonho nenhum, já não tenho mais esperança de achar ela viva", lamenta.

A jovem afirmou ao SP Invisível que era uma das funcionárias da pousada mais conhecida de Brumadinho, para onde foi antes de ouvir o último "Vai com Deus" de sua mãe. Agora, são só ela e os irmãos, de 21 e de 19 anos, no mundo.

"Tenho vontade de sumir ou de fechar os olhos e ver tudo reconstruído e minha mãe do meu lado. Tá difícil, tenho ódio da Vale hoje".

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"Eu tinha o sonho de melhorar minha condição e a condição da minha mãe. 5 dias atrás, meu sonho era encontrar minha mãe viva no meio desse barro. Hoje, não tenho mais sonho nenhum, já não tenho mais esperança de achar ela viva. Meu nome é Leidiane, tenho 24 anos. Agora tá só eu e meus irmãos, um de 21 e um tem 19. Meu pai faleceu já faz 5 anos. Minha mãe era viúva. Última coisa que lembro dela me falando foi um 'vai com Deus' quando eu fui trabalhar. Eu trabalhava numa pousada, a melhor pousada aqui de Brumadinho. Vinha muito estrangeiro, muito pesquisador que ficava aqui para ir ao Inhotim. Era uma delícia, você tinha que ir lá ver. Tenho vontade de sumir ou de fechar os olhos e ver tudo reconstruído e minha mãe do meu lado. Tá difícil, tenho ódio da Vale hoje. Já chega." #SPinvisivel #SP Essa semana estamos em Brumadinho contando histórias para a campanha #BrumadinhoInvisivel. Contribua no catarse.me/brumadinhoinvisivel (LINK NA BIO) para conseguirmos contribuir com a reconstrução da cidade!

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"Eu perdi minha horta e perdi minha irmã, também"

A experiência de Jefferson Dos Passos, 33 anos, foi de ajudar as pessoas que estavam sob a lama assim que aconteceu a tragédia.

"Eu fui o primeiro a entrar nessa lama aí pra resgatar as pessoas. Quando eu soube da notícia, eu e um amigo, entramos na lama que ainda estava úmida pra ver se tinha alguém vivo", contou.

"Achamos duas pessoas. Assim que achamos, acalmamos as vítimas e esperamos o helicóptero que veio depois de 40 minutos". Ele disse que voltou ao local para tentar ajudar mais pessoas, mas já não encontrava mais ninguém.

Como muitos moradores de Brumadinho, Jefferson está devastado por ter perdido sua irmã, que era camareira em uma pousada da cidade. "Fui correndo pra lá, mas não achei nada. To arrasado. 2019 nem começou, mas já acabou pra mim. Não sei como vai ser daqui pra frente".

Leia o relato completo no post:

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“Eu fui o primeiro a entrar nessa lama aí pra resgatar as pessoas. Quando eu soube da notícia, eu e um amigo, entramos na lama que ainda estava úmida pra ver se tinha alguém vivo. Achamos duas pessoas. Assim que achamos, acalmamos as vítimas e esperamos o helicóptero que veio depois de 40 minutos. Sabe aquela pilota que apareceu na mídia? Era a gente lá embaixo. Depois disso voltamos para ver se tinha mais gente viva, mas não achamos ninguém. Meu nome é Jefferson Dos Passos, tenho 33 anos. Eu perdi minha horta e perdi minha irmã, também. Quando eu soube, tava num caminhão e aí o motorista avisou pra todo mundo que a gente ia parar e avisou onde a lama tinha passado. Quando ele falou que a lama passou na pousada que minha irmã era camareira, fui correndo pra lá, mas não achei nada. To arrasado. 2019 nem começou, mas já acabou pra mim. Não sei como vai ser daqui pra frente.” #SP #SPinvisivel Essa semana estamos em Brumadinho contando histórias para a campanha #BrumadinhoInvisivel. Contribua no catarse.me/brumadinhoinvisivel (LINK NA BIO) para conseguirmos contribuir com a reconstrução da cidade!

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