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É LGBT, mas poderia ser LGBTQQI: por que tantas letras para representar um movimento?

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O movimento que luta pelos direitos sociais e legais de pessoas homossexuais e transexuais nasceu sendo chamado de GLS. Depois, virou GLBT. Posteriormente, a letra “L” passou para frente e, então, adotou-se LGBT, sigla mais utilizada atualmente.

Mas, ainda hoje muitos grupos defendem a adaptação da sigla para LGBTIQ (e acredite: ainda assim falta representação). Afinal, por que tantas letrinhas na designação de um movimento? O que todas elas significam? Qual é a importância da existência de cada uma?

Por que LGBT?

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Rawpixel / Istock

GLS

Ao surgir, o movimento político que luta pelo respeito e reconhecimento legal de pessoas homossexuais e transexuais foi chamado de GLS. As letras representavam os gays, as lésbicas e os simpatizantes, pessoas que apoiavam as lutas.

GLBT

Conforme o movimento foi se fortificando, percebeu-se que o nome dado não contemplava todas as pessoas que sofriam preconceito e restrições de direitos por sua sexualidade. Por isso, a letra “B”, que faz menção aos bissexuais (pessoas que se relacionam com homens e mulheres) e a letra “T”, que representa os transexuais (pessoas que se identificam com um gênero distinto daquele designado socialmente pela genitália), foram incluídas.

Paralelamente, a letra “S” foi retirada da sigla. Isto porque, embora todo o apoio fosse bem-vindo, as pessoas que não são vítimas dos preconceitos em decorrência de sua sexualidade não fazem parte do protagonismo do movimento e, por isso, não precisam ser representadas em seu nome.

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Rawpixel Ltd / Istock

LGBT

Com o passar do tempo, frente à necessidade de marcar a desigualdade de gênero existente entre homens e mulheres, inclusive homossexuais, outra alteração foi feita. A letra “L” passou a ser a primeira da sigla.

Outras siglas

Hoje, a maior parte das instituições públicas e associações é adepta da sigla LGBT, que designa lésbicas, gays, bissexuais e transexuais.

Mas, muitos grupos defendem a utilização da sigla LGBTIQQ ou de outras ainda mais extensas, com mais letras e capaz de representar todas as nuances da orientação sexual e da identidade de gênero de um indivíduo.

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Burak Kara / Stringer / Getty Images

Além das lésbicas, gays, bissexuais e transexuais, LGBTIQQ ainda abrange os intersexuais, pessoas que nascem com uma anatomia reprodutiva que não se encaixa na definição típica de “sexo feminino” ou “sexo masculino”, aos fluídos ou indecisos (questioning, em inglês), pessoas que ora se identificam mulher, ora se identificam homem, e ainda adiciona mais um “Q” referente à teoria Queer, que serve como um “termo guarda-chuva” para abrigar todas as outras variações de orientações e identidades, como os assexuais, os pansexuais, entre outros.

Com tantos nomes, significados e abreviações, o tema é realmente complexo. Mas o reconhecimento de cada uma dessas orientações e identidades é essencial para que cada indivíduo se sinta representado em sua singularidade.

A representatividade do movimento LGBT

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David McNew / Stringer / Getty Images

Para Lino Gabriel Nascimento dos Santos, 28, professor do Instituto Federal de Santa Catarina e homem transexual, nesse momento é muito importante que todas essas pessoas, por mais diferentes que possam parecer, se unam em um movimento representativo só. “É importante nos unirmos como um grupo em alguns momentos para mostrar que algumas coisas são parecidas. A parada LGBT de São Paulo é a maior da América Latina. Nesse momento, todas as identidades se unem para mostrar na rua que existimos e resistiremos enquanto estivermos juntos porque, em geral, sofremos pelo mesmo motivo, pela nossa sexualidade e pela nossa identidade de gênero, independente de qual seja ela”, explica.

Mas, embora a união seja fundamental para a representatividade do movimento, é necessário reconhecer e valorizar que as divisões existem e são especialmente importantes por um motivo: cada categoria tem suas pautas e suas necessidades políticas, sociais e legais – e elas são diferentes. “Na minha visão, a união é importante, mas essa divisão também é porque politicamente as pautas são muito diferentes”, comenta o professor.

As principais diferenças citadas por Lino dizem respeito à legislação e às políticas públicas de educação, saúde e assistência social. Casais homossexuais, por exemplo, querem manter o direito de se casarem e de adotarem um filho. Pessoas transexuais querem ser reconhecidas pelo seu nome social. A violência contra mulheres lésbicas precisa ser tipificada como lesbofobia, enquanto a contra pessoas trans, como transfobia. Cada grupo possui suas particularidades e necessidades específicas decorrentes.

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Orientação sexual x identidade de gênero

Essas diferenças se dão exatamente por que o movimento LGBT não é composto de pessoas na mesma situação, não é “tudo a mesma coisa”. Para entendê-lo é necessário compreender a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero.

Orientação sexual diz respeito sobre a maneira como uma pessoa se relaciona, por quem ela desenvolve interesse emocional, afetivo e sexual. Essa “categoria” abrange os homens gays, as mulheres lésbicas e as pessoas bissexuais, que se relacionam tanto com homens como com mulheres. São as pessoas homossexuais.

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identidade de gênero é a maneira como uma pessoa se identifica – como homem ou como mulher, independente do seu órgão genital. “A criança nasce, o médico olha e [ao ver que ela tem pênis] diz que é um homem. Mas, ela cresce e entende que não é um menino, mas sim uma menina. Isso é identidade de gênero, é como uma pessoa se reconhece. Ela então é uma mulher trans”, explica Lino.

De maneira geral, a sociedade reconhece e reforça dois gêneros: feminino e masculino. Mas, existem pessoas que não se identificam com nenhum deles. Esse grupo é chamado de “não binário” - ou seja, não se enxerga de um lado (homem) e nem do outro (mulher) – ou “fluído”, que transita entre os dois. “Tem pessoas que são gênero fluído e por isso tem dias que são mais femininas, tem dias que são mais masculinas. Outras não se identificam com nenhum desses dois”, exemplifica o professor, que ainda comenta que estudos já designaram mais de 40 variações de gênero.

Nesse grupo estão pessoas que se identificam tanto como homem quanto como mulher (bigênera, trigênera, pangênera ou multigênera), parcialmente como homem ou mulher (demigênera), nem como homem e nem como mulher (sem gênero, agênera), que flui entre os dois gêneros (gênero fluído) e que não nomeiam seu(s) gênero(s) (terceiro gênero).

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CREATISTA/Shutterstock

Todas essas pessoas, independente da nomeação específica, são pessoas transexuais. Mas, é comum também ouvir os termos travestis e transgêneros. Qual é a diferença entre elas?

Travesti

De acordo com Lino, a nomeação “travesti” só existe no Brasil. “Mulheres transexuais que faziam programa começaram a ser chamadas de travesti. Até hoje essa é uma percepção”, comenta.

Transexual

Foi exatamente para dissociar este estigma que mulheres trans que não estavam na prostituição criaram outra terminologia. “Mulheres trans que não eram prostitutas e que não queriam ser confundidas criaram a categoria mulher transexual”, explica o professor.

Transgênero

Posteriormente, as mulheres trans que se submetiam à cirurgia de readequação de gênero passaram a ser chamadas de transgênero.

“Mas, na prática essa diferença não existe. São categorias apenas políticas porque entende-se que ser mulher não depende de ter ou não uma vagina e ser ou não prostituta. Hoje, a maior parte das mulheres que eu conheço que são ativistas se reconhecem e se chamam de travesti exatamente para tirar esse nome da marginalidade”, comenta Lino.

Se orientação sexual é uma coisa e identidade de gênero é outra, por que estão juntas?

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Bannach / Istock

Embora tendo definições distintas e trazendo características específicas, a luta é a mesma porque há pontos primordiais que as unem.

De acordo com o professor, o principal deles é o preconceito com a sexualidade e a discriminação que pessoas cisgêneras (que se identificam com o gênero designado pela genitália) e heterossexuais (se relacionam com pessoas do gênero oposto) não enfrentam.

“Nenhuma pessoa heterossexual ou cisgênera precisa dizer à família ou aos amigos que é hetero ou homem ou mulher. Não tem que chegar para a mãe e para o pai e dizer que é LGBT, não são cobrados para dizer o que são. A primeira coisa que coloca a gente em um ponto comum dentro da comunidade LGBT é a necessidade de 'sair do armário'”, explica Lino.

Movimento LGBT