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Caso irmão de Suzane Richthofen: como traumas podem levar às drogas?

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Jaromir Chalabala/Shutterstock

Andreas von Richthofen, irmão de Suzane von Richthofen, que está presa após ter planejado o assassinato dos próprios pais, em 2002, foi encontrado em estado alterado pelo uso de drogas, em São Paulo.

Conforme noticiou o site do Jornal O Globo, Andreas, 29 anos, foi flagrado pela Polícia Militar enquanto tentava pular um muro de uma casa na região de Santo Amaro. Ele estava com cabelos e roupas em mau estado. "Em estado de surto”, foi levado a atendimento psiquiátrico do Hospital Campo Limpo.

Parte da imprensa informou que, antes de ser flagrado pelos policiais, Andreas era visto em regiões comuns de usuários de droga, conhecidas como "Cracolândia". 

Fato é que o prontuário médico de Andreas indicava que ele foi encontrado em condições condizentes a “abuso de drogas ilícitas”, como informou o site do Jornal O Globo.  

Apesar de a situação ser chocante, o caso é mais uma oportunidade de se falar sobre o uso de drogas e suas consequências na vida das pessoas do que, propriamente, uma forma de abordarmos a tragédia na vida de Andreas. 

É preciso sensibilidade para se analisar caso a caso. E essa tarefa não cabe a pessoas que estejam fora da realidade de cada usuário e de seu familiar.

A dependência química, principalmente entre jovens, entretanto, merece atenção de toda a sociedade pelo efeito devastador que esse hábito traz na vida dessas pessoas.

Caso Richthofen

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Reprodução/Estadão

Andreas tinha 15 anos quando seus pais foram assassinados pelo namorado de Suzane na ocasião, Daniel Cravinhos, e o irmão dele, Cristian. Os três confessaram o crime contra Manfred e Marísia von Richthofen. O jovem nunca falou à imprensa sobre a tragédia familiar. 

Andreas se formou em Farmácia e Bioquímica e fez doutorado em Química na Universidade de São Paulo (USP). De acordo com matéria do UOL, os professores que deram aula ao jovem informaram que ele era um aluno exemplar e solidário. Afirmaram ainda que ele não fazia comentários sobre a morte dos pais e mantinha discrição.

Uso de drogas como fuga de problemas

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Celiafoto/Shutterstock

Em entrevista ao VIX, a psicanalista Cristiane M. Maluf Martin, que atua há 15 anos no tratamento de dependentes químicos, explicou que o abuso de substâncias químicas tem uma motivação em comum: a fuga de problemas e de traumas que podem ter impactado o indivíduo de alguma forma mais dolorosa.

"Nada é por acaso", comenta. "A pessoa não entra nas drogas só por embalo e porque se sentiu atraído. A busca, geralmente, é para preencher um vazio muito grande que, aliás, todos nós sentimos".

A dificuldade de lidar com a dor, como a perda de um familiar, por exemplo, pode ser motivação para alguém ter o primeiro contato com a droga e esse fator não está ligado a nenhuma condição social ou financeira, como explica Cristiane.

"Os problemas de família não têm classe social, acontecem em todas as casas. Por isso, é importante conversar para detectá-los o quanto antes e tentar resolvê-los".

Isto porque, para a especialista, a dependência química, antes de se tornar um problema físico, é uma doença comportamental. "A pessoa sabe o malefício que a droga traz, mas, mesmo assim, começa a usar para uma fuga: para se livrar da dor, de um luto, de uma separação, de problema financeiro, de um amor mal resolvido", elenca.

A partir do momento que um indivíduo passa a usar drogas para esse fim, segundo a psiquiatra, os familiares e as pessoas que o cercam conseguem perceber algumas mudanças no comportamento.

"Começam as mentiras, manipulações, sumiços e é comum que a pessoa fique 'despersonalizada', isto é, perca elementos da própria personalidade".

Nesta situação, os usuários se apresentam mais vulneráveis e entram no ciclo do vício.  "Em um primeiro momento, a droga é prazerosa. Depois, ele passa a sentir uma culpa por ter usado e, então, pode sofrer com comorbidades associadas ao uso, como transtorno de ansiedade, de pânico, depressão".

Jovens e o uso de drogas

A psiquiatra ressalta que os pais ou quem é responsável pela criação de crianças e jovens devem manter uma dinâmica familiar positiva, com base no diálogo e no cuidado com o outro.

"Hoje, vemos que o que falta é conversa. Temos que entender que pais superprotetores ou ausentes, por exemplo, podem ser um motivo para esse jovem tentar fugir da realidade".

O uso de drogas, entretanto, não é a única forma comum para a tentativa de fuga dos problemas. "Casos de transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, por exemplo, podem ser consequências de traumas e dificuldade de saber lidar com frustrações", pondera. "Comer demais, jogar demais. Tudo que é feito em excesso é patológico". 

Relação com a família

Em todos os casos, Cristiane reforça que é preciso que a família se apoie e buscar soluções reais em conjunto.

"Acredito que temos três partes: o físico, o mental e o espiritual. Assim, o tratamento precisa de acompanhamento psiquiátrico, com medicação, se necessária, psicoterapia e espiritualidade, sem se preocupar com religião. É preciso que se tenha fé em alguma coisa", afirma. "A família também precisa se tratar. Não existe tratamento do dependente químico sem seus familiares".

Ajuda a dependente químico e família

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Andrey_Popov/Shutterstock

A dependência química preocupa tanto os pais e familiares mais próximos, quanto amigos e conhecidos.

Para ajudar uma pessoa que esteja viciada em álcool, crack, cocaína e outras drogas que comprometem a vida do usuário, é preciso buscar ajuda. Dialogar, buscar suporte de profissionais de saúde (física e mental) e manter uma rede de assistência são alguns dos caminhos dessa difícil batalha para controlar o vício nessas substâncias.

Os grupos de apoio são uma saída. O Amor Exigente, por exemplo, dá suporte aos parentes e pessoas que se importam e amam o usuário de droga, dando oportunidade para que as pessoas compartilhem suas histórias e aprendam como cuidar de um dependente químico. De acordo com a Federação de Amor-Exigente, são mais de 1.000 grupos espalhados pelo Brasil.

Há ainda o grupo familiar Nar-Anon, com reuniões públicas em várias partes do Brasil.

Para os usuários, as reuniões dos Narcóticos Anônimos e dos Alcoólicos Anônimos ajudam a enfrentar a dependência e evitar a recaída no uso das substâncias.

O serviço público também deve estar à disposição dos usuários e dos familiares. Vá até o posto de saúde mais próximo e se informe sobre os cuidados de apoio psicossocial, leitos psiquiátricos e clínicas de recuperação que existem na sua cidade. 

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