Como Leopoldina influenciou a política do Brasil e se tornou uma grande imperatriz?

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Acervo Paulo Rezzutti

Muito mais que a mulher traída de Dom Pedro I ou a mãe do imperador Pedro II, Maria Leopoldina Josefa Carolina de Habsburgo foi uma das pessoas que mais influenciaram a vida política de seu tempo, tendo contribuído diretamente para a independência do Brasil.

Nascida numa das cortes mais tradicionais da Europa, imperatriz Leopoldina rompeu com várias ideias monárquicas de sua criação em prol do Brasil, país que adotou como seu. Porém, as desilusões de casamento arranjado e o desgaste da atuação política talvez tenham cobrado um preço alto demais: ela jamais voltou a ver sua família na Áustria e faleceu por causa de um quadro agudo de depressão.

Criação na corte austríaca e herdeira do império

Nascida em 1797, Leopoldina era a quinta filha de uma família de 12 irmãos. E essa família não era pouca coisa. Os Habsburgos eram a linhagem detentora do poder do antigo Império Sacro Romano havia mais de 300 anos. A influência deles atravessava os limites da Áustria e se alastrava por toda a Europa. Para se ter uma ideia, Leopoldina era sobrinha de Maria Antonieta, a rainha francesa levada à guilhotina na revolução do país.

Paulo Rezzutti, autor da biografia “D. Leopoldina, a história não contada. A mulher que arquitetou a Independência do Brasil”, contou ao VIX que ela tinha aulas de teatro desde a infância para saber como demonstrar as expressões corretas em público. Essa era apenas uma das lições que ela teve por crescer em uma das mais rígidas e tradicionais cortes da Europa, na qual as mulheres eram criadas sob protocolos e métodos que visavam o bem do reino acima da satisfação pessoal delas.

Dessa forma, desde muito cedo ela se entregou aos estudos intelectuais e deveres protocolares. “Na corte de Viena, as princesas eram preparadas de forma metódica para servir ao Estado. Nessa função, amor e felicidade no casamento eram coisas acessórias, com as quais jamais deveriam contar”, escreveu outro autor que se debruçou sobre a história da família real, Laurentino Gomes, no livro “1822”, focado na nossa independência.

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Acervo Paulo Rezzutti

Casamento arranjado

O casamento entre Leopoldina e o jovem Pedro foi um acerto entre os pais do casal. De um lado, o português Dom João VI queria ser bem visto e estreitar laços europeus com uma das famílias mais respeitadas do continente. Do outro lado, Francisco I tinha o intuito de tirar parte da influência inglesa sobre as terras de Portugal e abranger um pouco da sua própria no continente americano.

Ao ser informada, Leopoldina jamais questionou a decisão de seu pai, atitude ligada a sua rígida educação formal. A união foi então realizada por uma procuração assinada pelo marquês de Marialva, embaixador português responsável pelo casamento. Como a noiva viria morar no Brasil, Dom Pedro não viajou até a Áustria para se casar. Matrimônios por procuração eram um ato comum nas uniões entre famílias poderosas.

Chegada ao Brasil e amor pelo país

Os noivos se conheceram em novembro de 1817, quando o navio que trazia Leopoldina desembarcou no porto do Rio de Janeiro. Essa fase marca um encantamento da monarca com sua nova terra, o povo e principalmente com seu marido. Estudiosa de rochas e colecionadora de borboletas, Leopoldina ficou encantada até com as pedras do Brasil.

“Apesar do ‘choque térmico', ela gostou muito do Brasil. Há uma carta que ela escreve para a tia dizendo que o Brasil seria o paraíso se não fossem os mosquitos e o calor”, disse ao VIX o biógrafo da imperatriz, Paulo Rezzutti. Segundo sua pesquisa, a corte portuguesa implicava com ela por ser uma estrangeira. “Eles queriam que Dom Pedro se casasse com alguém da família”.

Aparência não chamava atenção

Ao que tudo indica, a implicância não era exclusiva à ala mais tradicional da corte portuguesa. No livro “1808”, Laurentino Gomes cita o registro que uma viajante francesa, Rose Marie de Feycinet, fez sobre quando foi recebida pela família real em 1820 e apontou seu desgosto em relação à monarca. “Não pude ver nas maneiras da princesa real a aparência nobre e tão cerimoniosa de uma dama vinda da corte da Áustria”, escreveu Feycinet.

Em seus livros, Gomes observa que Leopoldina não fazia usos de acessórios da época que modelavam o corpo das mulheres, como espartilhos, algo que não chegava a chocar as pessoas, mas também não agradava os mais críticos numa sociedade moralista como a da época. Não que isso tenha impedido a imperatriz de conquistar a população brasileira e ter um bom relacionamento com seu marido. Pelo menos nos primeiros anos.

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MARIA LEOPOLDINA NA ILHA DA MADEIRA, de 1817, autor não identificado/ Museu Histórico Nacional

Relacionamento com Dom Pedro

É possível dizer que Leopoldina e Pedro viveram relativamente bem até 1821. Em seu trabalho chamado “Leopoldina, ensaio para um perfil”, a psicanalista Maria Rita Kehl analisou mais de 850 cartas da imperatriz e traçou seu perfil psicológico. Com base nisso, Laurentino Gomes afirma que “pelas cartas, observa-se que a princesa, antes carente de afeto e de aprovação, rapidamente dá lugar à mulher adulta que encara a vida sem ilusões”.

Estando mais preocupada com eventos oficiais e cerimoniosos e atividades intelectuais, ela nunca acompanhou seu marido nas noitadas pelo Rio de Janeiro.

Mesmo que Dom Pedro fosse um pai presente e atencioso com seus filhos, como atenta Rezzutti, nunca foi bom marido, principalmente por conta dos casos extraconjugais que, cada vez mais, foram se tornando mais escancarados.

Apesar disso, eles tiveram oito filhos (tendo sofrido aborto na última gravidez) durante os nove anos de casamento.

Realeza brasileira: filhas e filhos de Dom Pedro e Leopoldina

  • Maria da Glória, nascida em 1819;
  • Miguel, morto ao nascer em 1820;
  • João Carlos, nascido em 1821. Morto aos 11 meses;
  • Maria Januária Carlota, nascida em 1822, viveu até 1901;
  • Paula Mariana, nascida em 1823, viveu até 1833;
  • Francisca Carolina Joana, nascida em 1824, viveu até 1898;
  • Pedro de Alcântara, nascido em 1825, o imperador Pedro II, viveu até 1891.

A política Leopoldina: “Dia do Fico” e independência do Brasil

Por conta de revoltas populares em Portugal, Dom Pedro estava sendo pressionado a retornar ao seu país de origem para exercer seu poder na terra natal. Em 9 de janeiro de 1822 ele decidiu que ele e sua família iriam permanecer no Brasil, o famoso “Dia do Fico”. “Costumo dizer que o ‘fico’ da Leopoldina é anterior ao de Pedro”, analisa Rezzutti.

O historiador conta que meses antes de Dom Pedro anunciar a decisão, Leopoldina poderia ter pressionado o marido a irem para a Europa. Mas ela fez o contrário: dando como desculpa sua terceira gravidez, que não impediria sua viagem, ela forçou o marido a ficar. Na verdade, “Pedro demora para ver o quadro geral do Brasil, mas ela percebe logo e começa a influenciar o marido a ficar no Brasil”.

O quadro geral era que a independência era uma questão de tempo e Leopoldina percebeu que se fosse proclamada pelo herdeiro do trono, isso garantiria que o Brasil mantivesse sua extensão territorial ao cortar o vínculo com Portugal. Nossos países vizinhos, que na época já haviam se separado da Espanha, tiveram seus territórios desmantelados ou divididos por disputas internas.

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SESSÃO DO CONSELHO DE MINISTROS, de 1922, de Georgina de Albuquerque/ Museu Histórico Nacional

Influência feminina

“Em 1821, Leopoldina está mais propensa a ficar aqui do que voltar para a Europa, o que é engraçado porque ela se casou com um herdeiro europeu, com a promessa de voltar para o continente. Mas em algum momento ela abdica de volta, de um dia poder rever a família. Existe aí um sacrifício pessoal. Ela vira, de fato, a imperatriz do Brasil”, diz Rezzutti.

Outro homem influenciado por ela nesse período é José Bonifácio de Andrada e Silva, que entrou para a história como o “patrono da independência”. Ela “distancia-se das ideias conservadoras da corte de Viena e adota um discurso mais liberal a favor da causa brasileira”, como relata Gomes em seu livro. “Foi ela quem convenceu José Bonifácio a aceitar a nomeação para o ministério em janeiro de 1821, cargo que o paulista insistia em recusar por ainda não confiar em D. Pedro”.

Atuação política

O fato de Dom Pedro e José Bonifácio entrarem para a história como únicos determinantes da independência do Brasil está muito atrelado ao machismo, segundo Paulo Rezzuti. “No geral, mulheres entram na história ou como santas ou como pecadoras, e política é algo masculino. Então isso se perde e os livros escolares citam Leopoldina como mãe de Dom Pedro II ou ou esposa de Dom Pedro I. Mas ela não foi mãe de um ou esposa de outro, foi uma mulher política, uma das primeiras políticas brasileiras”.

Sua atuação se estendeu ao período da independência. Quando Dom Pedro esteve em São Paulo, nas vésperas do “grito do Ipiranga”, deixou a esposa como princesa regente, atitude que evidencia como ela era aliada do marido nas questões políticas, sobretudo num momento delicado como a independência. “Ela foi a primeira mulher a governar o Brasil. Em agosto de 1822 ela preside o conselho de estado q delibera que se faça a independência. Ela nunca ia deliberar algo assim se já não tivesse previamente acordado entre ela e o marido. Foi algo em conjunto”, avalia Rezzutti.

Presença da Marquesa de Santos na corte

Também foi durante o processo de independência que Dom Pedro conheceu Domitila de Castro, a futura Marquesa de Santos e sua amante mais conhecida. Leopoldina foi cada vez mais deixada de lado no quadro político e pessoal.

Se na vida pública o caso extraconjugal do marido era conhecido por todos, na corte, Leopoldina se viu obrigada a conviver com Domitila.

Um episódio humilhante para a imperatriz foi quando seu filho Pedro de Alcântara, que se tornaria Dom Pedro II, foi oficialmente nomeado o herdeiro da coroa. Quem carregou a criança no colo para o anúncio oficial foi ninguém menos que João de Castro Canto e Melo, pessoa próxima ao seu marido e atuante na corte, mas pai da Marquesa de Santos. Conceder essa honra ao pai da amante foi um golpe duro aos olhos de Leopoldina.

Rezzuti conta que esse ambiente da corte também não era dos melhores para ela. “A corte brasileira é remanescente dos portugueses que ficaram aqui. Era uma corte muito tacanha, supersticiosa e religiosa e não aceitavam bem o tipo de educação que ela queria dar aos filhos. Existia tensão entre isso: ela queria um jeito, a corte queria outro e Dom Pedro não queria saber.”

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Acervo Paulo Rezzutti

Problemas financeiros

Além desses panoramas, Domitila se via responsável pelo bem estar da população e ajudava financeiramente muita gente que lhe pedia favores, sobretudo as camadas mais pobres da sociedade. Ela, que já era querida pelas pessoas desde sua chegada ao Brasil, conquistou ainda mais a população depois de sua atuação na independência do país. Mas, para sustentar esse vínculo financeiro, entrou em dívida com agiotas da época.

É estranho imaginar uma imperatriz entrando em dívidas, mas os cofres do Brasil estavam escassos porque o processo da independência não saiu de graça – entre outros gastos, o Brasil precisou pagar uma espécie de multa a Portugal. Pelo contrato nupcial, Pedro tinha que pagar uma mesada a Leopoldina, mas muitas vezes deixava de fazer isso para gastar ele próprio esse dinheiro.

Agressão nunca comprovada

“As circunstâncias da morte são ainda hoje um mistério. Boatos na época diziam que teria sido agredida por D. Pedro com um pontapé na barriga durante uma discussão na presença da marquesa de Santos”, segundo Gomes em “1822”.

Ouvido pelo VIX, o biógrafo das três pontas do triângulo amoroso Domitila-Pedro-Leopoldina também não acredita na veracidade da agressão. Ele opina que dificilmente ele teria batido na esposa por conta da relação que tinha com os filhos. Além disso, não existe comprovação ou registro de violência de Dom Pedro contra a esposa antes desse episódio.

O que não ameniza a questão, pois Dom Pedro não facilitou o fim da vida de Leopoldina e, pelas cartas que ela deixou, é possível enxergar que ela vivia em um quadro agudo de depressão.

“Em novembro de 1826, doente e deprimida, Leopoldina presidiu a reunião do conselho de ministros. Foi seu último compromisso público. Nas horas seguintes, começou a ter febre alta e crises convulsivas. No dia 2 de dezembro, abortou o feto de um menino. Estava na nona gravidez. Morreu às 10h15 do dia 11 de dezembro, um mês antes de completar trinta anos”, registrou Laurentino Gomes.

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