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Esta mulher achou uma função no YouTube que quase ninguém enxergou - e é inspirador

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Gentileza de Carolina Hessel

Entre os diferentes canais do YouTube, um chama atenção por apresentar um conteúdo raro no Brasil e ser direcionado a um público nem sempre priorizado: as crianças surdas.

Batizado de “Mãos Aventureiras”, o canal traz, desde setembro de 2017, histórias infantis em libras (a língua brasileira de sinais) na plataforma de compartilhamento de vídeos contadas pela professora do Rio Grande do Sul Carolina Hessel

Canal de histórias infantis para surdos

O “Mãos Aventureiras” é um projeto de autoria de Carolina e tem como objetivo aproximar crianças surdas da literatura, além de minimizar a carência de contadores de histórias surdos no setor de narrativas.

Atualmente, a iniciativa funciona em duas frentes: como um canal no YouTube e também como um portal de extensão, no qual ocorre a divulgação dos vídeos, em um site da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – instituição em que a professora atua responsável pela disciplina de Libras na Faculdade de Educação.

Por que contar história para surdos

A ideia para o projeto surgiu durante as pesquisas de Carolina sobre produções literárias em línguas de sinais para sua tese de doutorado.

Nelas, a acadêmica constatou a falta de conteúdo em Libras no YouTube. “Observei um grande número de canais com contadores de histórias ouvintes e comecei perceber a carência de materiais em língua de sinais", diz. "A questão é o protagonismo surdo e o acesso à informações por pares linguísticos. O projeto surge com o objetivo de minimizar a carência dos contadores surdos, incentivando as crianças surdas a adentrar o mundo da literatura.”

Para Carolina, a recepção do público ao “Mãos Aventureiras” tem sido positiva, especialmente por famílias de deficientes auditivos. “Tem sido um trabalho muito prazeroso e de grande alcance – até mais do que os objetivos pensados inicialmente. Há alguns comentários na página do YouTube, mas considero interessante o registro no Facebook dos pais surdos da menina Fiorella, que também é surda.”

O registro em questão citado por Carolina trata-se de uma gravação feita pela família de Fiorella que mostra a menina assistindo - bastante concentrada - a um dos vídeos produzidos pela professora. Na legenda do vídeo há a seguinte descrição: "Como eu adoro as histórias, meus pais sempre me contam as histórias em libras, pois não tem muitos vídeos em libras adequados (para bebês e crianças menores). Então, fiquei surpresa que a Carolina Hessel criou projeto: mãos aventureiras. Ela apresenta os seus vídeos em libras com imagens. Estou adorando muito! Não pisco olhos para não perder cena."

A professora ainda chama atenção para o feedback positivo do público ouvinte, que utiliza o material produzido pelo “Mãos Aventureiras” com o intuito de aprender a linguagem dos sinais.

Literatura para crianças surdas

A literatura sempre foi a paixão de Carolina. Não é à toa que a prática de contar histórias se tornou o tipo de conteúdo do “Mãos Aventureiras”. “Ler sempre foi uma das atividades que despertavam meu interesse.”

Além da paixão por literatura, com o passar dos anos, Carolina também passou a manter contato com o universo da educação, área de estudo que cursou na graduação e nas pós-graduações (mestrado e doutorado).

Foi a união desse dois universos que inspirou a professora - apaixonada pela autora Eva Furnari e pelo cartunista Ziraldo - a trazer o ensino da literatura em seu canal no YouTube. “Ao contar histórias em língua de sinais, as crianças surdas entram em contato com referenciais de cultura surda. Trata-se de uma tradução cultural da língua portuguesa para língua de sinais, na qual a expressividade assume o primeiro plano, ou seja, a tradução não é literal.”

Importância do ensino de libras

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adriaticfoto/Shutterstock

O público infantil foi o escolhido por um motivo especial: Carolina é surda e quis proporcionar a crianças iguais a ela a oportunidade de terem contato com a linguagem dos sinais desde o começo da vida.

No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica a presença de 9,7 milhões de surdos. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que 10% da população mundial é surda – ou mesmo sofre algum tipo de dano na audição pela exposição excessiva a sons.

A acessibilidade para surdos ainda é um desafio no Brasil. A libras só foi reconhecida como meio legal de comunicação e expressão no país em 2002. Carolina conta que, durante a infância, teve pouco acesso a produções em linguagem de sinais, apesar da disponibilidade de materiais para este público fornecidos principalmente por organizações como o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines).

“Se hoje com toda a tecnologia disponível são poucas as ações de produção de material em libras, imagina algum tempo atrás. Eu tinha contato com produções em língua de sinais, como contos e narrativas no contexto escolar. Hoje, conseguimos acessar essas traduções nas redes sociais. Antigamente, elas eram enviadas para as escolas de surdos em VHS e DVD.”

É pela falta de acessibilidade a surdos ainda persistente na sociedade atual que Carolina faz um apelo para que o ensino de libras a crianças surdas seja estimulado. “Em contextos escolares, as crianças são alfabetizadas em língua portuguesa, mas compreende-se que a língua de sinais é a primeira língua dos surdos. Como recado, solicito aos familiares que entendam a importância da língua de sinais na constituição dos surdos, buscando por espaços de educação bilíngue com profissionais fluentes.”

Pessoas com histórias inspiradoras