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Após racismo de funcionário, chefe negro contou própria história em forte resposta

No Carnaval, um grupo de jovens, negros, de Vitória (ES), foi vítima de uma atitude racista de um rapaz branco, que terminou sendo demitido de seu emprego por conta da foto publicada em seu Stories, recurso do Instagram. 

Um dos jovens que foi vítima da atitude viu a publicação e escreveu em seu próprio Facebook sobre a situação. Com a denúncia ganhando cada vez mais repercussão, ochefe do jovem racista se pronunciou em um depoimento forte sobre sua própria vivência como negro e sobre a postagem preconceituosa do funcionário.

Foto publicada por jovem em Carnaval

Atitudes preconceituosas são inaceitáveis em qualquer situação e, quando um caso de racismo vai parar nas redes sociais, o debate sobre isso ganha ainda mais força.

A polêmica deste Carnaval se deu por conta de uma publicação racista de um jovem, branco, durante um bloquinho de rua. Ao ver um grupo de jovens negros reunido, ele resolveu pedir para tirar uma foto com eles, mesmo sem os conhecer. A turma fez pose para a selfie.

O jovem, então, publicou o conteúdo em seu Stories com a legenda "Vou roubei seu celular", uma frase que associa o fato de os rapazes serem negros ao de eles serem ladrões em potencial.

Relato de chefe é forte (e necessário)

Por conta da publicação do jovem, o empresário Fabrício Affonso, sócio-proprietário de um espaço de treinamento funcional onde ele trabalhava, se posicionou em um depoimento real e importante para entendermos o impacto do racismo na vida de milhares de brasileiros.

Ele deixou claro que a empresa não compactua com esse tipo de atitude e emocionou ao contar a própria trajetória.

Leia o relato completo:

"*NOTA DE RESPOSTA A POSTAGEM RACISTA DE UM DOS NOSSOS FUNCIONÁRIOS*

Gostaria de fazer um pronunciamento em nome da empresa Studio Vitória em relação a uma postagem de um de nossos estagiários no facebook. 

Uma postagem preconceituosa, infeliz e racista.

Eu, Fabrício Affonso, negro, nascido em bairro de periferia da cidade de Alegre, sócio-proprietário da empresa Studio Vitória, considero inadmissível a conduta de qualquer funcionário da empresa nesse sentido. 

Sei o quanto a minha cor é carregada de estigma e sei quantas barreiras tive que enfrentar para chegar aonde cheguei.  Minha mãe, caixa de supermercado, moradora do morro do Wilton, teve que criar eu e meus dois irmãos praticamente sozinha.

Eu, com 17 anos, vim pra capital pra estudar, e só consegui me manter porque consegui com muito esforço a bolsa do PUPT (Programa Universidade Para Todos) e depois ser bolsista do Pró - Uni para cursar a faculdade de Educação Física. 

Durante os anos de faculdade, eu estagiava em dois lugares e ainda assim, às vezes não tinha o dinheiro para o lanche nos poucos intervalos que tinha. Assim que me formei, me juntei a dois colegas para montar uma empresa.

Hoje, depois de cinco anos, estamos finalmente abrindo uma segunda unidade. Tenho orgulho de proporcionar a meus funcionários, a dignidade que qualquer estagiário merece. Um salário maior que o teto do mercado, um plano de carreira dentro da empresa, e total apoio em treinamento e cursos, pagando inclusive suas inscrições e dando nós mesmos cursos periódicos.

Nos interessa ter funcionários competentes, mas também devidamente motivados e valorizados. 

Na hora da seleção dos currículos nossa empresa não possuem cotas para negros. Eles são maioria. 

Conheço meus funcionários a nível pessoal, e acredito que a postagem tenha sido profundamente infeliz, beirando a ingenuidade, mas novamente, a empresa não pode compactuar com esse tipo de comportamento irresponsável e muito menos responder por ele. Podem ter certeza que tomaremos as medidas necessárias. Não nos interessa um funcionário com tal perfil.

Nem a imaturidade, nem o carnaval e nem a bebida é desculpa para o racismo. Nada é desculpa para o racismo".

Casos de racismo: é preciso enfrentar e debater