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Da infância pobre ao sucesso no futebol: relato de vida de Daniel Alves é emocionante

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Marco Luzzani / Stringer/GettyImages

Esqueça a imagem sorridente, as tatuagens e até algum tipo de ostentação. Nada disso passa na cabeça de Daniel Alves antes de um jogo importante. Nas vésperas de disputar sua quarta final da Liga dos Campeões da Europa, maior torneio de futebol do continente e um dos mais respeitados e difíceis do mundo, Daniel Alves divulgou um relato emocionante sobre sua carreira, no qual recorda tempos difíceis da infância e a importância de seu pai.

Mas esqueça também qualquer pieguice ou clichê do menino pobre que venceu na vida. O que Daniel Alves tem para dizer vai muito além dos estereótipos de futebol. Ele esta falando sobre ser humano e das dificuldades que todo mundo passa. “Pouco antes de cada partida, eu sigo a mesma rotina. Eu fico de frente ao espelho por cinco minutos e bloqueio todo o resto. Então um filme começa a rodar na minha cabeça. É o filme da minha vida”, disse o lateral direito num artigo publicado na plataforma The Players Tribune.

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David Ramos / Stringer/GettyImages

Campeão de importantes títulos, Daniel ficou muito marcado pelos tempos em que jogou no Barcelona. Foram 23 títulos entre 2008 e 2016, incluindo aí três mundiais de clubes da Fifa, três Ligas dos Campeões e cinco campeonatos espanhóis. Mas o caminho até o Barça não foi nada fácil, como também foi difícil deixar o clube no fim da última temporada. “Quando eu fui para a Juventus, eu fiz uma promessa final para a cúpula do Barcelona. Eu disse, ‘Vocês vão sentir saudades de mim’. Eu não quis dizer como jogador. Eles iriam sentir saudade do sangue que eu derramei todas as vezes que eu coloquei a camisa do Barcelona”.

Texto de Daniel Alves emociona 

O jogador, que carrega em seu currículo 34 títulos em todos os clubes que jogou, incluindo a seleção, recordou os tempos difíceis em que precisava percorrer 20 quilômetros para chegar na escola. Aos 10 anos de idade, ele morava com a família na área rural da cidade de Juazeiro, na Bahia. Todos os dias andava a pé o caminho para a escola, isso depois de ajudar o pai na fazenda.

“Eu olho para o meu pai enquanto eu saio para a escola, e ele ainda está com o mesmo tanque grande e pesado nas costas. Ele tem ainda um dia inteiro pela frente, e então à noite ainda há o pequeno bar que ele administra para ganhar um dinheiro extra. Meu pai foi um jogador incrível quando ele era mais jovem, mas ele não teve dinheiro para ir até a cidade grande e ser notado pelos olheiros. Então ele faz questão de que eu tenha essa oportunidade, mesmo que isso custe a vida dele.”

Primeiro em força de vontade

Aos 13 anos de idade, Daniel se mudou sozinho para estudar numa academia de futebol com outros 100 garotos de sua idade. As dificuldades não acabaram, já que não se alimentava direito e tinha apenas uma troca de roupas. Assim que seu pai conseguiu dar uma segunda roupa para usar nos jogos e treinos, ela foi roubada do varal do alojamento. Ele diz que nesse momento percebeu que estava no “mundo real” e que a coisa era “pra valer”. Percebeu também que não era o jogador mais habilidoso entre os 100 garotos e fez uma promessa a si mesmo.

“Eu digo a mim mesmo: ‘Você não vai voltar para a fazenda até você deixar seu pai orgulhoso. Você pode ser o número 51 em habilidade. Mas você será o número 1 ou 2 em força de vontade. Você será um lutador. Você não vai voltar para casa, não importa o que aconteça”, relata. Foi assim que, em 2001, o lateral chegou ao time do Bahia, disputou o campeonato brasileiro no ano seguinte e conquistou a Copa do Nordeste também em 2002.

Mentira dentro de campo

Outro trecho importante de sua carreira é quando fica sabendo que um olheiro, pessoa no futebol responsável por observar novos talentos, e diz que o time de Sevilha, da Espanha, está interessado nele, momento em que contou “uma das únicas mentiras que já disse no futebol”. Ao ser questionado se saberia onde ficava a cidade do clube, mentiu afirmando que sabia. “Claro que eu sei onde Sevilha fica. Sev-iiiiiilha. Eu amo”, relata num dos trechos humorados de seu texto.

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Marco Luzzani / Stringer/GettyImages

As portas para a Europa estavam abertas. É muito comum que times do segundo ou terceiro escalão europeu se interessem por jovens talentos do Brasil. Esses times acabam servindo de trampolins para agremiações maiores. Foi o caso de Daniel Alves com o Sevilha. De início, ele não tinha muita chance no time titular e depois ficou preso no esquema tático do clube. Em um dos momentos de maior ousadia, desobedeceu as regras táticas e acabou inaugurando uma de suas características mais marcantes como jogador.

Segundo o relato, a orientação técnica do Sevilha era bem clara: a defesa não ultrapassava a linha do meio de campo. Isso significava que Daniel Alves não poderia avançar em direção ao gol adversário, só poderia desarmar os atacantes do time oposto. “Eu jogo alguns jogos, chuto a bola por aí, olhando sempre para aquela linha. Então, num jogo, por alguma razão, eu apenas me solto. Eu tenho que ser eu mesmo. Eu digo, ‘Agora’. Eu simplesmente vou. Ataque, ataque, ataque. Funciona como se fosse mágica”.

Dani Alves: auge no Barça e novos desafios na Juve

Funcionou tanto que o técnico mudou de estratégia, permitindo que Daniel atacasse sempre que quisesse. Ser um lateral que “sobe para o ataque”, no jargão futebolístico, é uma das maiores características e diferenciais de Daniel Alves. O bom desempenho chamou atenção do Barcelona, e foi para lá que foi jogar em 2008, vencendo a Liga dos Campeões da Europa logo na primeira temporada em que jogou no time. Mesmo título que ele disputará nesse sábado (3), jogando agora pela Juventus.

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Paolo Bruno / Stringer/GettyImages

Ele fez parte de um dos maiores esquadrões da história do clube espanhol, jogando ao lado de Messi. “Esse cara estava jogando contra os melhores defensores do mundo, simplesmente flutuando, e ele age como se fosse um domingo no parque. E esse foi o momento em que eu soube que eu jamais jogaria com alguém como ele novamente na minha vida”, escreveu se referindo a um treinamento em que o atacante argentino estava com as chuteiras desamarradas.

“Quando eu vim para a Juventus nesta temporada, foi como se eu estivesse saindo de casa novamente. Eu fiz isso com 13, quando fui para a escola de futebol. Eu fiz novamente aos 18, indo para a Espanha. E fiz mais uma vez, aos 33, indo para a Itália.”

Quando foi treinado por Pepe Guardiola, técnico que virou símbolo do Barcelona e que impôs um padrão excelente de jogo, Daniel Alves diz que eles jogavam quase que de memória, de tão bons que eram os ensinamentos dele. Hoje, na Juve, é diferente. “É a mentalidade coletiva que nos levou até a final da Champions League. Quando o apito soar, nós simplesmente daremos um jeito de ganhar não importa a dificuldade. Ganhar não é apenas um objetivo para a Juve; é uma obsessão”.

Reconhecimento do pai

Daniel irá duelar e disputar o título contra Cristiano Ronaldo, atual melhor jogador do mundo eleito pela Fifa. Vencendo, será o 35º título de sua carreira, aos 34 anos de idade. Mas o mais importante nem é levar a “orelhuda” para a casa, o apelido que a taça da disputa tem.

O importante é o reconhecimento de seu pai. Da última vez que venceu o torneio, em 2015, seu pai estava lá e, nas comemorações, recebeu o troféu das mãos de Daniel. “E você quer saber? Ele estava chorando como um bebê. Aquele foi o grande momento da minha vida”.

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