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Ela foi jogadora da Seleção, virou açougueira e voltou a campo: “todo esforço foi válido”

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Getty Images/Al Bello

Quem já precisou escolher times na aula de educação física ou em qualquer brincadeira infantil, sabe o que é ter a turma separada em equipes e passar pela tensão dos times sendo escolhidos. 

Duas ou mais pessoas lá, na frente de todo mundo, chamando as melhores escolhas para a equipe ou fechando as famosas panelinhas. Ninguém quer ser a última opção porque, geralmente, isso está relacionado à habilidade em praticar a atividade – quem sobra, sobrou porque é ruim.

Única garota a jogar entre os meninos, Daniela Alves nunca foi a última escolhida no futebol.

Nessa época ela pensava que era a única menina no mundo que jogava bola. Percebeu que estava errada e começou a jogar com outras mulheres a tempo de ser convocada para a Seleção Brasileira de futebol feminino com apenas 15 anos de idade. “Para mim era indiferente, eu jogava de igual para igual com os meninos”, conta a meio-campista medalhista olímpica por duas vezes.

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Museu do Futebol

Medalha de ouro no Pan-Americano e vice-campeã mundial em 2007 e prata nas Olimpíadas de 2004 e 2008, ela anota outra vitória em seu currículo: “hoje, onde tiver uma quadra, um campo, vai ter menina jogando. Essa é uma conquista da minha geração”. Por “nossa geração” ela está ser referindo às craques Marta, Formiga, Cristiane e outras atletas que jogaram com ela.

Ainda em 2007, quando foi criada a Copa do Brasil de Futebol Feminino, ela foi artilheira, eleita melhor jogadora da competição e campeã pelo Saad Esporte Clube.

Mas a sensação de estar sozinha em um campo repleto de homens que sentia na infância voltou anos mais tarde, quando teve a carreira interrompida e precisou trabalhar atrás do balcão do açougue da família para complementar a renda mensal.

Carreira de jogadora interrompida e trabalho no açougue

Já nos acostumamos com jogadores de futebol recebendo salários as vezes difíceis até de ler de tanto número envolvido na cifra. Os valores chegam aos milhões, passam da quantidade de dígitos legíveis e impressionam. Por isso, é quase impensável que um jogador da seleção interrompa sua carreira e precise trabalhar no comércio.

Para exemplificar usando um meio-campista homem com características similares a de Daniela Alves, imagine que Gilberto Silva tivesse se machucado logo após a conquista do penta em 2002 pela Seleção, na qual era titular. Na época defendendo o Arsenal, seria inimaginável que ele largasse o futebol e fosse trabalhar como vendedor.

 Se é difícil pensar num cenário desse para um jogador, não é nada fora da realidade de uma jogadora. Foi exatamente o que aconteceu com Daniela em 2010.

Num lance que ela julga ter sido propositalmente maldoso, algo difícil de discordar vendo as imagens, a jogadora norte-americana Abby Wambach deu um carrinho que tirou a meio-campista brasileira não apenas daquele jogo, mas de sua carreira.

Dois anos depois, Wambach ganhou a bola de ouro da Fifa como melhor jogadora. Daniela Alves ficou com o posto de açougueira no estabelecimento da família na zona sul de São Paulo. Ela tinha 26 anos na época.

A jornalista e estudiosa de futebol feminino Luciane Castro lamenta a interrupção da carreira da jogadora. “O caso da Dani é mais um entre tantos em que a atleta lesionada fica sem amparo nenhum e tem que procurar outros meios”.

Castro recorda outros jogadores do passado que passaram necessidades quando paravam de jogar, como Pedro Rocha. O uruguaio canhoto que fez história jogando pelo São Paulo pedia ajuda financeira na Santa Casa de Santo Amaro no fim da vida. O salário de porteiro não ajudava a pagar as contas. “Antigamente tinha mais isso, mas hoje a seleção dá outro status”, avalia.

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Museu do Futebol e Acervo Pessoal/Daniela Alves

Passarinho na gaiola

Trabalhar no comércio acabou servindo de retiro e fuga para a ex-atleta. “A Dani ficou bastante ressentida por conta da lesão e não queria mais saber da modalidade”, recorda a jornalista Luciane Castro. Alves passou cerca de cinco anos no açougue e totalmente fora de qualquer atividade ligada ao futebol.

“Desde que me conheço eu jogo futebol, minha alegria sempre foi o futebol. Isso ser tirado de você é muito difícil de lidar. Me sentia muito triste, magoada. Fui para outro lugar, tinha que fazer alguma coisa pra conseguir minha renda. Mas passarinho solto não consegue viver em gaiola, não consegue, né”, diz Daniela.

Em 2015, a ex-zagueira da seleção Juliana Cabral convidou Lu Castro para organizarem ciclos de debates sobre a modalidade feminina no Museu do Futebol, em São Paulo. Médicas, preparadoras físicas e ex-jogadoras foram convidadas para contar suas histórias e levarem acervos pessoais para o museu digitalizar no projeto Visibilidade para o Futebol Feminino. A ida de Daniela como palestrantes iniciou um resgate de sua história no futebol.

Para a jornalista, Alves “não podia simplesmente cair no esquecimento” por conta de sua trajetória de mais de uma década defendendo a seleção. Depois das palestras, Castro foi curadora da exposição “O Futebol Delas”, que focou em apresentar dados e imagens raras das participações olímpicas do futebol brasileiro feminino. Uma “homenagem em vida”, como definiu Daniela.

Ela conta que participar da exposição e sentir carinho e reconhecimento do público foi ajudando a trazê-la de volta ao mundo do futebol. “Você ver todo mundo ir na exposição para te homenagear é uma coisa que não tem como explicar. Me mostrou que todo o esforço que eu fiz foi válido e que as pessoas viram o que eu queria passar. Isso me fez realmente voltar. Podem te tirar o braço ou a perna, mas não suas lembranças”, se emociona.

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Museu do Futebol e Getty/Jeff Gross

O retorno de Daniela Alves aos campos de futebol – a vida de técnica

“Tentei sair do futebol, mas o futebol não saiu de mim”. Triste e magoada, Daniela conta que se sentia presa em trabalhar no comércio. A adaptação foi complicada porque sua vida no futebol sempre foi viajando por conta dos jogos, ela “vivia no mundo”, como recordou.

Deixou de trabalhar no açougue e ligou para o Acadêmico Cidade Dutra Futebol Clube perguntando se eles precisavam de professora de futebol para as crianças. O mesmo clube que anos atrás abriu as portas como primeiro time de Daniela voltava a dar oportunidade para ela no esporte. “Em menos de seis meses fiz o curso de treinadora e recebi o convite para comentar jogos femininos no rádio e na TV”.

De volta à seleção

Estar na mídia comentando futebol pode ter ajudado a retorno ao time brasileiro. Doriva Bueno, técnico da seleção feminina sub-20, explica que estava em busca de alguém para compor sua equipe técnica quando chegou no nome de Daniela.

“A gente precisava de uma mulher na nossa comissão, o Dr. Marco Aurélio [Cunha, coordenador do futebol feminino] sugeriu a Dani porque ela tinha conceitos importantes: formação na base e conhecimento de atleta como jogadora da seleção”. Foi assim que ela se tornou auxiliar técnica e retornou para a seleção, agora nas categorias de base.

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CBF/Lucas Figueiredo

“Vivemos o fim de um ciclo e a sub-20 tem importância fundamental. Ver ela voltar ao futebol é motivo de muita alegria. A Dani tem muito para agregar lá”, avalia Lu Castro. Doriva também não poupa elogios. “Eu a vejo como exemplo de pessoa e atleta, uma mãe de família que deixa o filho em casa para poder se dedicar ao período que a gente esta trabalhando. O fato de ter trabalhado no açougue não é demérito e valoriza muito a pessoa e o caráter. Mostra que ela encara as situações”.

O retorno consolida o nome de Daniela Alves na história da seleção brasileira ilustra a injustiça e desigualdade de gênero no esporte. “Estava triste e fui em busca da felicidade. Estou feliz agora onde estou – passando o caminho mais correto pra que elas [atletas que treina] cheguem além de onde cheguei”.

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