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Analfabeto, lavrador volta a estudar pela TV e consegue, após 19 anos, se formar médico

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José Reinaldo Lopes da Silva, 39 anos, é natural de Monte Belo, uma cidade com cerca de 13 mil habitantes localizada no sul de Minas Gerais. Filho de lavradores, ele parou de estudar na 5ª série do Ensino Fundamental para trabalhar na roça.

Desta forma, seguiu sua vida até os 20 anos, quando, em 1998, sua irmã ficou internada por três meses e ele precisou acompanhá-la no hospital. Lá, observava o trabalho dos médicos, o que despertou nele a vontade de fazer Medicina.

Lavrador volta a estudar para se tornar médico 

“Eu queria voltar a estudar, era analfabeto funcional. Até que um dia eu liguei a TV antes de ir trabalhar e estava passando o Telecurso 2000 (programa de educação pela televisão). O slogan dizia ‘Telecurso 2000 – dando novas oportunidades a quem a vida deu um caminho diferente’ e esta frase me incentivou muito”, relembra o hoje doutor José Reinaldo.

A partir disso, começou a estudar com o telecurso todos os dias antes de ir para a lavoura. À noite, depois do trabalho, Lopes ainda fazia mais duas horas de aula com uma professora.

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“A prefeitura abriu um convênio com o telecurso e aí uma professora dava duas horas de aula por dia de segunda a sexta. Em dois anos e meio, concluí o ensino médio”, relembra.

Como ele conseguiu conquistar o sonho

Depois de ter concluído o supletivo, o jovem ingressou em um curso de Auxiliar de Enfermagem de um ano, porque sabia que isto poderia ajudá-lo a chegar mais próximo de seu sonho.

“Paguei o curso com o dinheiro da colheita de café. Trabalhava de dia e estudava à noite. Depois do curso, consegui emprego em dois hospitais”, comenta sobre a época em que deixou a roça.

Como auxiliar de enfermagem, trabalhou por oito anos sem nunca esquecer seu sonho de ser médico. Durante este tempo, Lopes afirma que lia livros de Guimarães Rosa e Machado de Assis porque tinha muita dificuldade de interpretar textos e nunca parou de estudar.

Dificuldade para estudar 

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Para dar continuidade ao seu sonho, José Reinaldo decidiu pedir demissão e ir para Belo Horizonte, onde havia mais opções de cursinhos pré-vestibulares e universidades.

Na capital mineira, viveu seis meses com R$ 2 mil. “Cheguei lá e não tinha dinheiro para pagar cursinho, então ficava estudando na biblioteca da Universidade Federal de Minas Gerais. Quando o dinheiro acabou, voltei para Alfenas [município vizinho a Monte Belo]”, comenta sobre sua tentativa de conseguir ingressar em uma faculdade.

Para conseguir se sustentar por tanto tempo com pouco dinheiro, José comia todos os dias em um restaurante popular e, aos fins de semana, só comia pão e tomava leite. 

Assim, José Reinaldo conseguiu fazer o cursinho pré-vestibular por apenas 3 meses. O resto do tempo, estudou por conta própria.

Ingresso no vestibular

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Dez anos após o fim do supletivo, e depois de inúmeros vestibulares prestados para Medicina, o ex-lavrador finalmente conseguiu ser aprovado, em 2011, na Universidade de Ribeirão Preto, em São Paulo.

Para fazer a matrícula na faculdade, que é particular, o agora médico precisou pegar dinheiro emprestado com uma sobrinha e alguns amigos e seguiu para São Paulo.

Como não tinha condições de pagar as mensalidades, escreveu várias cartas contando sua história e pedindo bolsa de estudos para a reitoria da instituição.

Seu pedido só foi acatado seis meses depois do início do curso. Com isso, ele já acumulava uma dívida grande. Para quitar o débito, José Reinaldo conseguiu pegar R$ 10 mil emprestado com um banqueiro e arrecadar mais de R$ 5 mil em doações.

Além disso, o pai da ex-lavrador, que é aposentado, precisou fazer empréstimos para ajudar o filho a continuar estudando. 

Formatura em Medicina após 19 anos de sonho

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E o esforço valeu a pena. Em 12 de dezembro de 2016, aconteceu a colação de grau de José Reinaldo.

“O mais difícil não foi chegar até a medicina, e sim sair da condição de analfabeto funcional. Pensei em desistir na época em que estava aprendendo a ler, pensei em largar tudo e ficar só na roça”, comenta sobre sua dificuldade de se alfabetizar tardiamente.

De acordo com o rapaz, que conseguiu realizar seu sonho 19 anos depois de retomar os estudos, só seus pais acreditavam que ele seria capaz. “Ninguém acreditou que eu ia fazer Medicina porque este era o meu sonho desde quando eu estava no supletivo e não conseguia ler direito”, desabafa.

Para quem acha que existem sonhos impossíveis, José Reinaldo manda um recado. “Não tem sonho inalcançável, é só persistir, traçar uma meta e não desistir. Pode demorar, mas todo mundo consegue. Pensamento positivo é fundamental”, ensina. 

Atualmente ele atende pacientes no hospital Bom Pastor, em Minas Gerais.

Histórias de superação