Médica diz que há “vontadezinha”, vontade e “vontadezona” de comer – e ensina a diferenciar

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A fome é algo fisiológico e, todos os dias, o ser humano sente a necessidade de “abastecer” o corpo com alimentos. Mas nem todas as vezes em que comemos estamos realmente precisando de nutrientes: segundo a endocrinologista Paula Pires, o ato de comer também está associado a outros fatores, como prazer e até questões emocionais – e há uma forma simples de diferenciar esses tipos de vontade.

A fome e as vontades

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Sentir fome é natural e, com o tempo, outros comportamentos relacionados à alimentação também se tornaram tão normais quanto ela. É o caso, por exemplo, daquele impulso por beliscar uma porção de amendoins que está disponível em um evento, ou o ato de comer simplesmente porque “é hora de comer”, sem necessariamente sentir que o organismo está pedindo isso.

Assim, a endocrinologista e idealizadora do projeto “Médicos na Cozinha” afirma que há quatro “tipos” possíveis de fome:

  1. fome fisiológica
  2. “vontadezinha” de comer (fome social)
  3. vontade de comer e
  4. “vontadezona” de comer (fome emocional)

Identificar estes comportamentos, segundo ela, é uma das chaves para alcançar um padrão alimentar saudável.

1. Fome fisiológica

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Conforme explica Paula, a característica mais marcante da fome “real” é o quão inespecífica ela é. “Se você está com fome, você comeria qualquer alimento que esteja disponível naquele momento e que você goste. Se você achar que está com fome, faça a seguinte pergunta: ‘Será que nesse momento eu comeria um ovo cozido?’. Se a resposta for ‘sim’, você está com fome”, explica.

Nesse caso, o ideal é então preparar uma refeição equilibrada, na quantidade apropriada para o tamanho da fome e, de preferência, elaborada com alimentos que sejam o menos processados possível. Caso a resposta para a pergunta seja ‘não’, porém, o “tipo” de fome pode ser outro.

2. “Vontadezinha” de comer

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Aqui, entram os momentos em que a comida está disponível, apetitosa (em um evento ou restaurante, por exemplo) e, mesmo sem fome, há vontade de consumi-la. “É a chamada fome social. O alimento está ali, você sente o cheiro, escuta falar, olha, e aí às vezes você acaba comendo de forma automática porque está ali na sua frente. Tipo aquele amendoinzinho que está em cima da mesa”, descreve a endocrinologista.

Nestes casos, a indicação dela é não passar a vontade, mas analisar a situação com cuidado para comer de forma consciente. “Pare, pense e avalie. ‘Eu preciso comer?’ Eu estou com fome?’. Se não, não coma. ‘Eu quero comer?’. Se sim, coma. Mas saiba que não é por fome – é uma vontadezinha. Você vai comer com consciência, valorizando aquele momento e aquele ato de prazer para não sentir culpa depois”, afirma.

3. Vontade de comer

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Ao contrário da fome, que é inespecífica, e da “vontadezinha”, que ocorre a partir de coisas que estão disponíveis e sendo percebidas de alguma forma, a vontade é bem específica. “A vontade é bem direcionada para aquele alimento, para aquela guloseima que, muitas vezes, te traz uma memória afetiva, te lembra algum momento de alegria, de felicidade que você gostaria de reviver”, afirma a médica.

Além disso, a vontade também é o que ocorre em momentos nos quais não há necessariamente a fome fisiológica – mas há o desejo de, por exemplo, experimentar um prato ou restaurante novo. Aqui, a dica de Paula é, novamente, não passar vontade, mas fazê-lo de forma extremamente consciente, entendendo o motivo de estar comendo e se atentando para os sinais de saciedade do corpo.

“Tem até estudos que provam que os primeiros pedaços já matam a vontade e liberam os neurotransmissores do prazer que confortam, trazem recompensa. A gente não precisa comer compulsivamente ou de forma automática. Basta comer devagar, pensando que é vontade, que é para matar o prazer, degustando e valorizando aquele momento”, conclui.

4. “Vontadezona” de comer

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Se a “vontadezinha” e a vontade exigem atenção, a “vontadezona” exige ainda mais. Isso porque, além de não estar ligada à fome fisiológica, ela também não é uma vontade específica, e vem, geralmente, para preencher um “buraco” emocional. Chamada também de apetite hedônico ou fome emocional, ela pode ser marcada por episódios de compulsão alimentar – e é preciso tomar muito cuidado com este comportamento.

“A ‘vontadezona’ é o ‘comer emocional’. Ele não é específico: você sabe que precisa de alguma coisa calórica, alguma coisa gostosa, mas você não sabe o que. Normalmente, esse sentimento é de urgência, você precisa daquilo para agora, e pequenas quantidades não bastam”, afirma Paula, lembrando que, geralmente, estes momentos são acompanhados por pensamentos depreciativos.

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“No momento em que você está ingerindo aquela comida gostosa, você está pensando: ‘Será que é disso mesmo que eu preciso? Isso não está me satisfazendo, não está me gerando alegria, na verdade estou até ficando mais triste’. Isso é a compulsão alimentar. É a fome emocional, então não é de comida que você precisa – é de um tratamento emocional”, afirma Paula.

Aqui, o ideal é buscar auxílio médico para identificar as raízes deste comportamento, bem como seus gatilhos, e encontrar a melhor forma de reverter o quadro. Para isso, pode ser necessário o acompanhamento de um endocrinologista, psicólogo ou nutrólogo.

Qual a forma “correta” de se alimentar?

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De acordo com a endocrinologista, o melhor para o corpo e para a mente é um equilíbrio destas situações. Com exceção da “vontadezona”, os outros tipos de vontades são algo natural do ser humano e não é preciso freá-las sempre, e sim saná-las de forma controlada e, acima de tudo, consciente.

Para isso, Paula indica, por exemplo, planejar bem tanto as compras quanto o preparo das refeições, buscando sempre alimentos o mais “in natura” quanto for possível, adotar técnicas de mindfulness (atenção plena) e, para entender melhor os próprios hábitos, fazer um diário alimentar, relatando as refeições, horários, grau de fome e de saciedade, e sensações emocionais que chamam atenção durante a alimentação.

Alimentação saudável