Músico morto tem doação de órgãos rejeitada por ser gay, diz marido: "Estou enojado"

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O marido do baterista Sean Reinert, que morreu em janeiro deste ano, aos 48 anos, após passar mal em casa, desabafou sobre a negativa que recebeu para a doação de órgãos do companheiro.

O músico havia expressado em vida o desejo de ter seus órgãos doados, porém o procedimento foi impedido pelo fato de Sean ser gay, segundo relatou seu companheiro, Tom.

Baterista não pode doar órgãos por ser gay, diz marido

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“Ele era uma pessoa incrivelmente boa e generosa em todos os jeitos imagináveis, assim como muitos de seus amigos mais próximos estão cientes”, escreveu Tom em um longo desabafo no perfil do marido na rede social (leia a íntegra abaixo).

O marido conta que, na própria noite em que Sean morreu, recebeu uma ligação do programa de doações de órgãos do hospital.

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“Eles me notificaram de que Sean foi identificado como um doador de órgãos no banco de dados deles e queriam me perguntar algumas questões para prosseguir. Eu não poderia lidar com esse tipo de estresse no momento e perguntei se poderia esperar para falar com eles na manhã seguinte.”

Após conversar com a irmã de Sean, Tom retornou a ligação para o hospital a fim de finalizar o protocolo para que os órgãos do marido fossem destinados a outras pessoas.

Para isso, Tom respondeu algumas perguntas sobre o companheiro. Uma delas, no entanto, questionou a orientação sexual de Sean.

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“Após as primeiras perguntas padrões, ela [a atendente] perguntou se Sean era um homem homossexual sexualmente ativo. Sem pensar, respondi 'sim' e quase sem perder um segundo ela disse 'bom, infelizmente isso significa...'”, relatou.

Ao entender que Sean não poderia ser um doador por ser homossexual, Tom protestou: “Fiquei anestesiado, porque eu sabia o que ela estava prestes a dizer. Ela disse algumas poucas palavras a mais e então eu a interrompi. Disse algumas palavras de volta e desliguei o telefone.”

De acordo com Tom, o marido não era portador do vírus HIV ou qualquer outra doença sexualmente transmissível.

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“Ele era um homem gay vivendo na América em 2020. Não era permitido que ele realizasse um de seus últimos desejos: doar seus órgãos para ajudar a salvar a vida de outras pessoas. O governo prefere deixar as pessoas que estão esperando por um transplante morrerem do que dar-lhes um dos órgãos de Sean. Como seu marido, estou enojado e incrivelmente bravo.”

Ao final de seu texto, Tom ainda compartilhou um artigo do Diário Oficial do Governo Federal dos Estados Unidos da América (FR, na sigla em inglês) que traz recomendações para a redução da contaminação do vírus de hepatite B e C e do HIV por meio da doação de órgãos.

Uma das estratégias da FR é descartar do banco de doadores homens que tiveram relações sexuais com outros homens.

Doação de órgãos por LGBT no Brasil

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Micolas/Shutterstock

Aqui no Brasil, o Ministério da Saúde também adota critérios para que uma pessoa seja apta para ser doadora de órgãos.

De acordo com o MS, não há restrição absoluta para que um indivíduo seja doador, contudo, é preciso analisar a causa da morte, se há doenças infecciosas ativas, dentre outros.

Também não poderão ser doadoras pessoas que não possuem documentação ou menores de 18 anos sem a autorização dos responsáveis.

Leia a íntegra do relato de Tom, viúvo de Sean:

"Meu marido Sean era um doador de órgãos. Ele acreditava que, quando morresse, seus órgãos pudessem ir para alguém que precisasse e isso seria uma coisa ótima. Ele era uma pessoa incrivelmente boa e generosa em todos os jeitos imagináveis, assim como muitos de seus amigos mais próximos estão cientes.

Depois que cheguei em casa do hospital na noite em que Sean faleceu, recebi uma ligação por volta de uma da manhã. Era de uma pessoa que trabalha com o programa de doações de órgãos no hospital em que Sean faleceu. Eles me notificaram de que Sean foi identificado como um doador de órgãos no banco de dados deles e queriam me perguntar algumas questões para prosseguir. Eu não poderia lidar com esse tipo de estresse no momento e perguntei se poderia esperar para falar com eles na manhã seguinte. Eles disseram que, embora tempo seja a essência [do procedimento de doação], não teria problema porque existe uma janela de 24 horas para coletar órgãos.

Na manhã seguinte, quando a irmã de Sean, Patti, chegou de Miami, eu expliquei a ela a situação e nós concordamos que se Sean queria doar seus órgãos então nós honraríamos seus desejos. Eu liguei de volta para o pessoal da doação e disse que estava pronto para prosseguir. A moça no telefone disse que isso era ótimo e começou o questionário. Após as primeiras perguntas padrões, ela perguntou se Sean era um macho homossexual sexualmente ativo. Sem pensar, respondi 'sim' e quase sem perder um segundo ela disse 'bom, infelizmente isso significa...' e eu fiquei anestesiado, porque eu sabia o que ela estava prestes a dizer. Ela disse algumas poucas palavras a mais e então eu a interrompi, disse algumas palavras de volta e desliguei o telefone.

Sean não tinha HIV, ou nenhuma outra DST, para constar. Mas porque ele era um homem gay vivendo na América em 2020 não era permitido que ele realizasse um de seus últimos desejos: doar seus órgãos para ajudar a salvar a vida de outras pessoas. O governo prefere deixar as pessoas esperando por um transplante morrerem do que dar-lhes um dos órgãos de Sean. Como seu marido, isso me deixa enojado e incrivelmente bravo.

-Tom

Edição: Comentário rápido para vocês olhando sites de doação de órgãos e pensando que algo deu errado aqui. As instruções específicas são para homens que tiveram contato sexual com outro homem nos últimos 12 meses. É regulado e essas instruções continuam válidas. Então, enquanto sites dizem que é um 'mito' que pessoas LGBTQ+ não podem doar, isso não é verdade para homens sexualmente ativos."

Preconceito a LGBTs