Morte trágica de blogueira toma as redes e famosos fazem apelo por menos ódio

View this post on Instagram

Mais fotenha só da Sejje ❤️

A post shared by Seje Sincera (@sejjesincera) on

Nos últimos dias, a blogueira Alinne Araújo estampou veículos de notícias ao compartilhar que, após ser deixada por seu então noivo pouco antes de eles subirem ao altar, decidiu casar-se consigo mesma, aproveitando a cerimônia, a festa e tudo a que tinha direito ao lado de entes queridos. Após a repercussão, porém, Alinne voltou a ser assunto, mas por algo terrível: a notícia de que ela havia cometido suicídio.

Para quem acompanhava Alinne nas redes sociais, não era segredo que ela tinha depressão, distúrbios de ansiedade e um histórico de tentativas de suicídio – assuntos sobre os quais falava abertamente, buscando passar uma mensagem de acolhimento. Apesar das boas intenções, porém, a jovem recebeu inúmeros comentários negativos após o casamento, algo que despertou uma discussão importante sobre como as redes afetam a saúde mental de quem faz uso delas.

depressao ansiedade tristeza 0717 1400x800 0
MikeDotta/shutterstock

Suicídio de Alinne gera comoção e apelos

Após ser deixada pelo noivo, Alinne fez uma postagem emotiva, se mostrando frustrada e bastante deprimida com a situação, mas avisou que, mesmo assim, subiria ao altar para realizar seu sonho.

Porém, ao mesmo tempo em que sua atitude foi elogiada por muitas pessoas, a blogueira também recebeu uma avalanche de comentários maldosos ou que faziam especulações sobre o que ela havia passado. Muitos a acusaram de encenar todo o caso por "marketing", dentre outras acusações.

Agora, com sua morte, o fato de seu perfil no Instagram ter se inundado de críticas tem sido apontado por muita gente como um dos possíveis fatores que agravaram seu estado mental, provocando um debate importante na internet que chegou até aos famosos. Na rede social da jovem, onde antes havia elogios e especulações sobre sua história com o ex-noivo, agora há comentários sobre como esse universo digital pode ser nocivo.

whindersson nunes 0719 1400x800
Reprodução/Rede Globo

Uma das pessoas que falou sobre a questão foi o humorista Whindersson Nunes – que, há poucos meses, desabafou abertamente nas redes sociais sobre ter depressão. Nos comentários de uma postagem, ele escreveu: “Julgaram a moça, e agora estão julgando quem julgou. Pelo visto nem a morte ensina. Eu espero profundamente que essa moça encontre a paz em um outro plano, e que vocês aprendam algo nesse. Deus nos abençoe nesses tempos difíceis”.

Nos comentários de postagens feitas por Alinne, há também mensagens do apresentador Luiz Bacci e da escritora e blogueira Alexandra Gurgel. “Que Deus tenha piedade de cada um que atirou pedra nessa menina. Triste. É o dia em que testemunhamos como a internet ajudou uma menina a se matar. Se não tem o que acrescentar: se cale”, ele disse.

look marina ruy barbosa bermuda ciclista 0419 1400x800
Thiago Duran/AgNews

“Uma pessoa que tem depressão severa fazer o que ela fez foi LINDO. Foi um ato de amor-próprio. Infelizmente não souberam reconhecer isso e decidiram dar ‘opiniões’. Ódio não é opinião. Ódio mata. Meus mais sinceros pêsames aos familiares”, escreveu Alexandra. Além disso, usando os próprios perfis, a atriz Marina Ruy Barbosa, a cantora sertaneja Simone e a coach Mayra Cardi também se juntaram à discussão.

Usando a ferramenta Stories, Marina compartilhou uma publicação antiga de Alinne em que ela havia falado sobre depressão, desejando forças para a família e escrevendo, em seguida: “Depressão NÃO é brincadeira”. Enquanto isso, também com stories, Mayra contou ter se sentido muito inspirada pela blogueira casando-se consigo mesma, e que agora está horrorizada tanto com o desfecho da história quanto com a maldade presente nas redes sociais.

“Isso precisa parar, esses ‘haters’ são uns demônios. Vocês não têm noção do que estão fazendo com as pessoas, vocês estão matando gente! Vocês não têm ideia do que é você estar aqui numa vitrine e todo mundo te metendo o dedo, te julgando, falando da sua vida. As pessoas são muito sem noção, aonde a gente vai parar?”, disse, questionando também qual é o propósito de enviar mensagens maldosas aos outros. “Não agrega em nada. Para que você vai na rede social de uma pessoa para destilar teu veneno? Vai mudar o que na vida da pessoa?”, perguntou.

simone festa simaria 0619 1400x800
Leo Franco / AgNews

A cantora Simone, dupla de Simaria, também se mostrou consternada com a situação. Em uma série de vídeos publicados no Stories, ela fez um apelo para que os internautas não julguem e critiquem pessoas que não conhecem e entendam que artistas podem ser afetados por esses ataques.

Além deles, o poeta e autor Fabricio Carpinejar postou uma longa reflexão também no Instagram lembrando o enorme poder que as palavras têm de colocar uma pessoa para cima ou para baixo.

"Talvez tenhamos que repensar os comentários maldosos que postamos na web sem pensar que o outro pode sofrer com cada um deles. São pessoas, não avatares. São corações, não bytes. Aja nas redes sociais como se estivesse presencialmente. Com o cuidado e o respeito de uma visita", sugeriu em parte do texto.

View this post on Instagram

SEJAMOS SINCEROS Fabrício Carpinejar Uma jovem entre nós tirou a sua vida na segunda (15/7), no Rio de Janeiro (RJ). Ela precisava da gente. Precisava das redes sociais para se sentir amada. E não foi. Ela sempre dividiu a sua ansiedade e a sua depressão conosco, a ponto de mostrar que era capaz de picotar o seu cabelo durante uma crise de pânico. Não estava brincando, não procurava multiplicar seus seguidores com gestos desesperados: ela realmente sofria. Sua dor pública deveria ser um terço da sua dor privada. Não era marketing, não era vaidade, mas unicamente solidão. Vinha pedir um abraço, um socorro, a ternura do iodo para parar de arder a ferida aberta pelos desencontros por dentro. Quanto mais se mostrava, mais era atacada. Talvez tenhamos que repensar os comentários maldosos que postamos na web sem pensar que o outro pode sofrer com cada um deles. São pessoas, não avatares. São corações, não bytes. Aja nas redes sociais como se estivesse presencialmente. Com o cuidado e o respeito de uma visita. Ela morreu de confinamento digital. Não tinha para onde correr do bullying, já que a sua força de vontade consistia em colher palavras de ânimo em seus comentários. Tentou remendar a sua história de todos os jeitos. O noivo terminou a relação um dia antes do casamento. Ela não quis se entregar e manteve a festa, para casar consigo mesma. Acabou sendo zoada sem precedentes. Será que ninguém entende a frustração de planejar um casório por meses para ter que cancelar o sonho em cima da hora, comunicando o vexame de ser desamada a cada um dos convidados? Sua atitude representou mais susto do que afirmação pessoal. Quando ela postou a mensagem da ruptura do noivado, já estava por um fio de náilon do precipício. Era o momento de fazer uma corrente do bem para puxá-la de volta para a esperança. Vozes anônimas só a empurraram para o fim, desprovidas da consciência da gravidade de sua influência. Porque sempre estamos influenciando as outras vidas com os nossos atos, com a nossa postura, com as nossas frases. Uma jovem morreu por aqui. Tinha a idade de minha filha. O silêncio agora não adianta mais nada. Não serve para mais nada. É só pêsames da verdade.

A post shared by Fabricio Carpinejar (@fabriciocarpinejar) on

Rede social, haters e saúde mental

Apesar de ter se tornado um ambiente de trabalho para alguns e uma válvula de escape para outros, as redes sociais estão virando um ambiente cada vez mais nocivo, e seu lado negativo é detalhado pela psicóloga Ellen Moraes Senra.

“As redes sociais se tornaram um grande ringue, onde as pessoas se vestem de máscaras para ofender os outros partindo do princípio de que não vai haver consequências, sendo que quem está sendo alvo está sofrendo”, afirma.

depressao celular redes sociais 0719 1400x800
KieferPix/Shutterstock

Isso, de acordo com ela, é especialmente prejudicial para quem, como Alinne, já tem a saúde mental fragilizada. “É aí que a situação se complica ainda mais. Quando a pessoa já sofre de algum transtorno mental, seja ele qual for, ela acaba realmente não dando conta, recebendo aquilo com uma carga emocional muito maior do que uma pessoa que não sofre de transtorno algum”, explica Ellen, ressaltando que, para quem é suicida, situações assim podem ser um gatilho.

Outro ponto importante do debate é o fato de que, como pessoas famosas estão constantemente sob os holofotes e recebem milhares de comentários e mensagens diariamente, não é raro encontrar quem tenha para si a ideia de que eles não se afetam com o ódio que aparece em suas redes sociais. Isso, conforme explica Ellen, não é a realidade, já que a exposição é algo bem pesado na vida de qualquer um.

internet hater notebook 1217 1400x800
ValeraJakushev/shutterstock

“Pessoas que são influenciadoras, famosas, que têm sua vida exposta com frequência, sofrem, sim, muito com o que é dito sobre sua vida pessoal. Qualquer pessoa que veja sua vida exposta, que está sendo julgada a todo momento por todo mundo nas redes e na vida, vai sentir. Pessoas famosas estão mais habituadas a precisar lidar com esse tipo de situação, mas isso não quer dizer que não gere sofrimento para elas também”, diz Ellen.

Para a especialista, o caso de Alinne deve ensinar uma lição. “Ela sofria de depressão, compartilhava isso com o público e usava a rede como um recurso para buscar apoio e auxiliar pessoas que sofriam do mesmo mal. O que houve foi que os juízes das redes sociais se apropriaram dessa circunstância e simplesmente julgaram a menina. O ideal é que a gente reforce a necessidade de menos julgamento e mais acolhimento”, conclui.

Saúde mental