Fala de Maju sobre sua carreira mostra quão longe estamos de ser uma sociedade justa

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Giuline Bastos/TV Globo

Maju Coutinho se tornou a primeira mulher negra a ocupar o cargo de âncora do Jornal Nacional e, se seu feito foi bastante aplaudido pelo público e colegas de profissão, também reflete o quão difícil é alcançar oportunidades iguais entre pessoas brancas e negras no Brasil.

Ao responder uma pergunta no programa Altas Horas sobre sua carreira, Maju explicou exatamente como teve que batalhar para chegar onde chegou como uma profissional negra — e revelou um sentimento muito comum à boa parcela da população brasileira.

Maju fala sobre dificuldades como profissional negra

Em participação no programa Altas Horas, Maju Coutinho recebeu uma pergunta da plateia sobre quais foram os seus desafios na trajetória profissional como uma mulher negra.

Apesar de sermos a princípio iguais, a população negra no Brasil ainda colhe uma série de dificuldades para conseguir ter as mesmas chances, no âmbito profissional, por exemplo, que a população branca. Isso porque o racismo está implícito em várias esferas da vida e dificulta o acesso de homens e mulheres negras à educação, saúde, segurança, entre outros fatores.

"Você tem que fazer o dobro"

De forma muito sincera, Maju Coutinho respondeu sobre ter sido questionada por sua capacidade, por ser mulher (resultado do machismo enraizado em nossa sociedade) e por ser negra.

"É uma batalha, é aquela história que virou meio clichê que você tem que fazer o dobro é totalmente real. Você tem essa sensação quando você nasce uma mulher negra.

Uma amiga da minha mãe me contou que quando eu nasci, menina, naquela época não dava para saber o sexo, ela falou para a amiga: 'Mas, eu temo por ela. Porque ela é negra, mulher, e no Brasil. Isso no final dos anos 70", disse.

Durante o programa, ela chegou a comentar que faz terapia há 20 anos e que seu processo de autoconhecimento a ajuda bastante a saber se equilibrar frente aos obstáculos.

"Foi uma batalha de construir muitas blindagens internas. Você lidar com o olhar às vezes mais desprezível, ou de dúvida: aquela assim, 'mas será que ela é capaz? será que vai rolar?'. Então, isso são coisas que se você não se prepara emocionalmente, eu acredito que não teria conseguido.

Porque são muitas barreiras, muitas dúvidas. Mesmo eu tendo vindo de uma família de classe média baixa, que focou muito na educação".

Família incentivou os estudos

A jornalista explicou ainda que o incentivo aos estudos dentro de sua família foi, certamente, uma das pedrinhas que ajudaram a construir seu caminho de autoconfiança e dedicação à carreira.

"Foi isso que me trouxe até aqui, e muito da questão do empoderamento. Não havia essa palavra naquela época, mas era o empoderamento consciente. Que é assim, não basta dizer sou empoderada, tenho poder, 'Black is Beautiful', ['Preto é lindo', em referência ao movimento negro norte-americano de valorização dos negros, nos anos 60] vamos lutar e galgar o caminho na educação para poder abrir barreira.

Foi minha avó, doméstica, que pensou isso lá atrás, quando ela colocou minha mãe para estudar e meus pais que continuaram nessa levada. Acho que foi por aí".

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