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Amazônia já foi enorme campo de vulcões: alguns continuam no subterrâneo da floresta

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Zauberschmeterling/iStock

Ao longo da formação do planeta Terra, a Amazônia, que é hoje a maior floresta tropical do mundo, já foi bastante diferente. Há 2 bilhões de anos, parte dela equivalente a 1,2 milhão de quilômetros quadrados (cerca de 15% de todo território brasileiro) foi um gigante e muito ativo campo de vulcões - algumas formações vulcânicas continuam por lá, mas cobertas por quilômetros de sendimentos.

A atividade vulcânica foi constante na região durante pelo menos 300 milhões de anos, durante a era geológica conhecida como Paleoproterozoica. Não era, contudo, uma condição singular da Amazônia, uma vez que os grandes ciclos vulcânicos terrestres costumam ocorrer de forma uniforme em todo planeta. Mas há algo de especial no campo de vulcões amazônico: em nenhum outro lugar do mundo os vestígios são tão bem preservados.

“No Brasil, temos terrenos vulcânicos muito antigos, a gente descobriu vestígios das estruturas vulcânicas. Mas isso não é comum, não é normal estar em estado tão bem preservado. É excepcional que esteja assim, mas não se sabe o porquê”, disse o professor do Departamento de Geologia Sedimentar e Ambiental do Instituto de Geociências da USP Caetano Juliani em entrevista ao VIX.

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Susanne Pommer/Por Susanne Pommer

Como se formaram os vulcões amazônicos?

Geralmente, áreas de intensa atividade vulcânica estão em lugares onde há separação de placas continentais, placas oceânicas e fissuras na crosta continental. Durante a formação da estrutura da Terra, a porção de terra que hoje entendemos como Brasil já esteve no olho dessa instabilidade magmática.

Caetano Juliani explica que, no caso da Amazônia, houve uma intensa movimentação da placa oceânica para baixo da camada continental. “Vimos, inclusive, duas fases de placas oceânicas abaixo da Amazônia e temos convicção de que isso gerou o vulcanismo”, esclarece.

Em condições terrestres muito distintas, o que ocorreu há 2 bilhões de anos é semelhante ao fenômeno da formação da Cordilheira dos Andes e, mais recentemente, à movimentação tectônica do México e da costa oeste dos Estados Unidos. No Brasil, o epicentro dos vulcões se concentra na região entre os rios Tapajós e Xingu e sob os morros amazônicos do estado do Pará.

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Sandra Moraes/Shutterstock

Vulcões da Amazônia eram explosivos

Quando a placa oceânica se mete embaixo da placa continental a um ângulo maior que 45 graus, ela gera atividade vulcânica e terremotos – e pode se afundar até 600 km abaixo da superfície. “Acontece que quando esta placa mergulha sob a outra, leva consigo muito sedimento e muita água. Quando a água entra, provoca a fusão das rochas e, portanto, acelera a formação do magma”, explica o professor.

Quando o magma está com pressão muito alta, ele sobe e forma os vulcões. Neste contexto, a água (aqui, em estado conhecido como “super crítico”, que não é nem líquido e nem vapor) é elemento central: quando ela está envolvida na formação do magma, a atividade vulcânica se torna explosiva. 

“A água extrai os elementos químicos das rochas e concentra no fluido. Quando resfria, explode em direção à superfície”, esclarece Caetano Juliani. Isto pode ser constatado graças à coleta e investigação das rochas e da topografia da Amazônia: os cientistas conseguem identificar resíduos de derrames magmáticos, produtos explosivos (espécies de “pegadas” que as explosões deixaram no solo) e bombas vulcânicas, mesmo de 2 bilhões de anos atrás.

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Ecuadorpostales/Shutterstock

Região tem reservas importantes de minérios

A investigação sobre o solo e as camadas subterrâneas da Amazônia tem como objetivo científico ajudar a entender como o planeta se formou. Mas há também uma aplicação comercial no trabalho: estuda também as características da mineração no local, que rende produtos como ouro e cobre.

“Como a formação desses metais é associado ao vulcanismo, é preciso entendê-lo também”, explica o professor. A atividade vulcânica como a que ocorreu na Amazônia é propícia para que ocorra grande concentração de metais no solo: a água em estado super crítico “puxa” as substâncias do interior das rochas e as absorve na composição do magma.

Quando o vulcão explode, o fluido leva consigo os metais, que resfriaram ao longo dos milhões de anos e foram sobrepostos por sedimentos mais recentes.

A área, portanto, pode atrair a atenção de diversas empresas mineradoras, afinal, pode abrigar jazidas de ouro, cobre e outros minérios valiosos. “O potencial teórico e a descoberta de depósito de fato são coisas muito diferentes. A cada mil áreas estudadas, apenas uma vira campo de mineração”, pondera Juliani, que investiga a região desde 1998.

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