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Como um vício é criado no cérebro? Do início ao fim, uma substância é primordial

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Naeblys/Shutterstock

Cada vez mais, a ciência caminha para explicar o vício em drogas e remédios como uma reação neurobioquímica e afastar a ideia de que se trata meramente de falta de força de vontade. Em artigo publicado na plataforma de debate científico The Conversation, o neurocientista Mike Robinson descreveu como ocorre este complexo processo que envolve ativação de determinadas áreas cerebrais e liberação de neurotransmissores.

“Nós deveríamos reformular a maneira como pensamos sobre o vício. A falta de compreensão do que prevê risco de dependência significa que poderia facilmente ter afetado você ou eu”, afirma o cientistas. “O indivíduo que sofre de dependência não carece de força de vontade para abandonar drogas, o vício simplesmente cria um desejo que muitas vezes é mais forte do que qualquer pessoa poderia superar sozinha”, conclui.

Como o vício mexe com o cérebro

Tudo começa na liberação de dopamina

Durante a década de 1980, diversas pesquisas convergiram em um resultado surpreendente à época: o uso de drogas, assim como sexo e alguns alimentos, causa liberação de dopamina em determinadas áreas do cérebro.

Suspeitava-se que a dopamina era o neurotransmissor responsável pela ativação das regiões neurais que determinam sensações de prazer. Hoje, sabe-se que não é a dopamina que impulsiona o “gostar” de algo, mas ela tem papel fundamental nisso.

Diferenças entre gostar e querer

“No cérebro, gostar de algo e querer algo são suas experiências psicológicas distintas”, explica o neurologista em seu texto. Ele exemplifica: “gostar” se refere ao prazer espontâneo de provar um chocolate; “querer” é o desejo intenso de comer o chocolate quando o vemos em cima da mesa.

A dopamina é a responsável pela sensação do “querer”. Isso significa que o uso de drogas - ou, em certa medida, sexo ou comida - desencadeia uma onda de dopamina no cérebro e faz o indivíduo desejar mais drogas em seu organismo. E o que ocorre é um processo inverso: com o repetido uso dessas substâncias, o “gostar” da droga tende a cair (processo que os cientistas chamam de tolerância), mas o “querer” a droga cresce a cada sessão de consumo.

Robinson cita um teste realizado em ratos nos quais eles tiveram sua produção de dopamina interrompida. Eles rapidamente perderam o desejo de comer, mas ainda assim demonstraram prazer quando os alimentos foram introduzidos em suas bocas.

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Surtos de dopamina

Assim como as drogas e alguns alimentos, o consumo de cigarros, bebidas alcoólicas e remédios para dores produzem surtos na liberação de dopamina, explica o neurocientista. Em todos esses casos, com o tempo, as substâncias começam a desenvolver uma tolerância e a droga se torna cada vez menos efetiva. E, claro, ocorre maior consumo dela e o cérebro passa por grandes surtos de dopamina - consequentemente, mais vontade da droga.

“O resultado dessa ingestão regular de grandes quantidades de drogas é um sistema hiperativo da vontade”, explica Mike Robinson. E isso leva, afirma o cientista, a ataques intensos de desejo da substância.

Amígdala também influencia vício

A região da amígdala é a responsável pela regulação do medo e das emoções. Em uma pesquisa realizada por ele mesmo, Robinson identificou que quando essa área é ativada, os ratos se tornaram mais propensos a mostrar comportamentos aditivos: estreitamento de foco na droga, aumento rápido de ingestão e comportamento compulsivo.

Ele conclui que isso pode, nos seres humanos, estar relacionado à decisão de escolhas arriscadas diante de desejos excessivos.

O que desencadeia todo esse processo cerebral?

Esses surtos de desejo do uso da droga podem ser reações bioquímicas e também gatilhos provocados por elementos externos, como a exposição à substância, emoções negativas fortes, alto nível de estresse ou até mesmo pessoas ou lugares específicos.

“O gatilho de sugestão do uso de drogas é um dos maiores desafios de quem tem o vício”, afirma. Para o neurocientista, este é o principal aspecto a ser entendido para o auxílio de quem sofre de adição. Ele entende que este fator é bem mais importante do que minorar os efeitos da abstinência, diz, que, apesar de intensos, se esgotam em média em duas semanas.

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Leszek Czerwonka/Shutterstock

Efeitos genético e psicológico ligado ao vício

A literatura científica neste campo é baseada em pesquisas que sugerem fatores genéticos como um dos aspectos de risco para o vício - o histórico familiar de dependência é um elemento a ser considerado. Além disso, é sugerido que problemas emocionais da infância, como problemas de relação com pais ou abusos físicos, também determinam um fator de risco.

“Algumas pessoas parecem ser mais propensas a sofrer essas mudanças no cérebro, que podem ser duradouras ou até permanentes”, afirma. “É por isso que as pessoas que lutam contra o vício merecem nosso apoio e compaixão, em vez da desconfiança e exclusão que nossa sociedade muitas vezes fornece”, conclui o cientista.

Efeito das drogas