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Brasileiro de 18 anos cria máquina capaz de ajudar pessoas em coma a se comunicarem

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Luiz Fernando da Silva Borges/YouTube

Estamos mais próximos de saber o que se passa na cabeça de quem está em coma. E o responsável por isso é um brasileiro de 18 anos.

Luiz Fernando da Silva Borges, natural de Aquidauana (Mato Grosso do Sul), desenvolveu o projeto Hermes Braindeck, um sistema capaz de identificar pulsos cerebrais diretamente do cérebro de qualquer pessoa, inclusive de quem está em coma - e, por isso, recebeu um dos prêmio da Intel International Science and Engineering Fair.

Como funciona a máquina "Hermes Braindeck"?

O Hermes Braindeck tem como objetivo central estabelecer um canal de comunicação entre uma pessoa em estado comatoso ou vegetativo com o mundo a seu redor. Sua tecnologia é baseada na captação da atividade cerebral dos pacientes, de forma não invasiva, nos mesmos moldes do projeto do exoesqueleto desenvolvido pelo pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicoleli.

“Há casos nos quais a pessoa está totalmente consciente, mas não consegue movimentar seus músculos, logo não podem mover os olhos, membros ou falarem. Para tentar contornar esse problema eu propus que criássemos um dispositivo portátil capaz de detectar se a pessoa consegue responder a comandos, sem que mova um músculo, mas apenas usando seus pensamentos”, explica Luiz Fernando.

Captação de pulsos elétricos gera respostas

Para captar os pulsos elétricos produzidos na comunicação cerebral, é instalada uma touca repleta de antenas na cabeça do paciente. As informações captadas por essas antenas são enviadas para um computador, dotado de um programa capaz de identificar e reconhecer os padrões cerebrais - cada grupo de pensamentos, sentimentos, sensações estabelece um padrão neurológico gravado neste software.

O programa pode, então, transformar o reconhecimento dos padrões de pulso cerebral em expressões de comunicação binárias. Por exemplo, se o médico perguntar para o paciente se ele sente dor, ele pode relacionar a resposta “sim” a um grupo de pensamentos e a resposta “não” a outro grupo.

“Se a pessoa estiver escutando os comandos, ela gerará estes pensamentos, que geram os pulsos distintos que o computador consegue reconhecer. O computador então transforma estes pensamentos em respostas para perguntas dos médicos e da família por exemplo”, explica o jovem cientista.

É surpreendente o tamanho do equipamento. Nada de máquinas que ocupam uma sala inteira: ele cabe em uma maleta comum, dessas de viagem. São necessários a touca com as antenas de eletroencefalograma, os fios que a conecta com o computador e, claro, o próprio computador.

Paciente poderá até “falar”

Um dos mais famosos e mais brilhantes cientistas do mundo se comunica por meio de máquina. Para quem não se lembra, Stephen Hawking “fala” intermediado por uma máquina, que lê o movimento de seus olhos em um teclado virtual - semelhante ao que temos no Smartphone, mas com um mecanismo que capta a direção que seus olhos tomam e forma as palavras desejadas.

Um paciente em coma não pode, obviamente, fazer o mesmo. Mas, de acordo com Luiz Fernando, é possível estabelecer um padrão para o estímulo cerebral de modo que sejam formadas palavras. Nos testes realizados até aqui, em pessoas saudáveis, o projeto conseguiu decodificar palavras de até seis letras, em um período de 15 minutos.

“O programa de computador consegue guiar os pensamentos da pessoa para que estes sejam convertidos em palavras, sem o uso da visão”, explica. Luiz Fernando acredita que, assim, o paciente poderia se comunicar via mensagens de texto com família, amigos e equipe médica.

Questões éticas

“A tecnologia da Hermes Braindeck vai balançar os pilares da medicina de tratamento intensivo em todo o mundo. Questões éticas dignas apenas de obras de ficção científica virão à tona pois, pela primeira vez, pessoas acreditadas inconscientes serão capazes de se comunicar”, anima-se o sul matogrossense.

O cientista destaca que uma vez que o projeto esteja sendo aplicado, poderá influenciar a relação com pacientes comatosos e vegetativos de duas formas. Uma delas pela via da ética médica, afinal, o paciente, antes acreditado inconsciente, seria capaz de tomar decisões e dar informações sobre seu estado de saúde. E, acredita, poderia impactar também investigações em relação a crimes, uma vez que a eventual vítima poderia dar seu relato à polícia.

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Luiz Fernando da Silva Borges/YouTube

Exoesqueleto é a inspiração

O projeto Walk Again, de Miguel Nicolelis, é o exemplo de sucesso para o Hermes Braindeck. Após dois anos de treinamentos com os exoesqueletos robóticos, os pacientes do Walk Again demonstraram grande evolução em seus quadros, destaca Luiz Fernando. Alguns deles recuperaram movimentos e sensibilidade de membros afetados pela lesão.

“Alguns sentiram novamente o sol queimando em suas pernas, quando estavam na praia, recuperaram também a vida sexual, sendo que uma das voluntárias decidiu ter um filho por parto normal”, afirma. “Portanto, eu não me espantaria que a Hermes Braindeck pudesse ter desfechos similares, proporcionando também um ancoradouro para sua consciência, lucidez e responsividade, ajudando-os a despertar mais rápido e não sofrer tanto com as sequelas”.

Luiz Fernando recém terminou o ensino médico técnico e agora planeja submeter sua candidatura a uma uma universidade norte-americana - ele cita MIT, Stanford e Harvard entre as opções. O objetivo é, de lá, seguir com o projeto. “Minha obsessão atual é implantar uma operação que viabilize a requisição de serviços de comunicação nos hospitais por todo o Brasil, pelas famílias dos pacientes”, afirma.

Previsão de chegada ao hospitais

Depois de diversas demonstrações realizadas no desenvolvimento do projeto, o Hermes já está pronto para testes definitivos em hospitais. Os primeiros estão previstos para serem aplicados na Santa Casa de Campo Grande (MS) e já negociações em andamento com o Hospital Albert Einstein.

Caso a eficácia do projeto seja comprovada por comitês especializados, o equipamento e seus protocolos serão submetidos à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que é responsável pela regulamentação de produtos médicos no Brasil. Luiz Fernando estima o prazo de dois anos para que o sistema esteja em pleno uso nos hospitais.

Ciência feita no Brasil