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Como o homo sapiens se tornou a espécie dominante na Terra?

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sarahnev/shutterstock

Desde os primeiros sinais da evolução de nossa espécie, há 7 milhões de anos, compartilhamos espaço e alimento com diversas espécies de primatas. O homo sapiens sapiens evoluiu de um tronco que gerou chimpanzés e gorilas, e viveu lado a lado com homos erectus, neandertais, floresienses, denisovanos e possivelmente outros ainda não catalogados. Dentre tantos gêneros de hominídeos, por que chegamos até aqui?

O início do homo

As evidências arqueológicas e genéticas indicam que houve um racha na descendência dos primatas há pelo menos 7 milhões de anos. De um lado, um tronco que resultaria nos gorilas e nos chimpanzés - estes, os animais mais semelhantes aos humanos. De outro lado, desenvolveu-se aquilo que viria a ser chamado de hominídeo; ou seja, os nossos antepassados.

Estima-se que os primeiros símios tenham surgido há aproximadamente 10 milhões de anos. Este teria sido a origem comum que torna homens e macacos primos. Embora tenhamos nos desenvolvido, do ponto de vista cognitivo, mais que os demais primatas, a ciência mostra que não estamos tão longe assim: os estudos mais recentes demonstram que a diferença de DNA entre homens e chimpanzés é de, na pior das hipóteses, apenas 5% - é menor que a diferença entre ratos e camundongos.

“Se olharmos mais para trás, todos os seres vivos vieram do mesmo tronco. De 3,6 ou 4,2 bilhões de anos atrás, nas primeiras bactérias. Vida veio desde lá e não devemos pensar que somos mais evoluídos que outras espécies”, explica Reinaldo Brito, professor do departamento de genética e evolução da Universidade Federal de São Carlos. “Evolução não é progresso, é mudança na descendência”, completa.

Neste processo evolutivo, nosso tronco primata resultou em espécies diversas, entre elas o australopithecus, que teria vivido entre 3,9 milhões até 2,5 milhões de anos, e que aparentemente é o ancestral direto do gênero homo, o nosso.

“Entre esses 7 milhões de anos e os últimos 30 mil, os registros fósseis não são lineares. A evolução não aconteceu como naquela linha evolutiva tão famosa”, afirma Walter Neves, arqueólogo e coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

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Usagi-P/Shutterstock

Irmãos mais velhos que ficaram pelo caminho

O mais antigo homo que conhecemos bem é o homo erectus, que viveu entre 2 milhões e pouco mais de 300 mil anos atrás. Atingia até 1,70 metro e 70 quilos, e seu volume craniano chegava a 1250 cm³, 50% maior que seus ancestrais. A tese majoritária é que a espécie nasceu na África e se espalhou pela Europa, Ásia e Oceania. Foi com eles que aprendemos a lidar com o fogo e a cozinhar alimentos.

Outras espécies de hominídeos conviveram com nosso antepassados homo sapiens. Mais que isso, houve, inclusive, cruzamento entre eles. Hoje já se sabe que cidadãos europeus têm até 4% de seu DNA provenientes do Homem de Neandertal, e que centro-asiáticos apresentam também entre 2% e 4% de seus genes oriundos de uma espécie ainda sem nome científico, mas conhecida como Homem de Denisova (ou denisovanos).

“Importante entender que outras sub espécies não acabaram apenas por dominação e guerra. O homo sapiens sobreviveu também por ter tecnologia mais avançada. É uma linhagem só, mas com outros materiais genéticos incorporados”, informa professor Reinaldo.

Homem de Neandertal

O Homem de Neandertal era tão parecido conosco que sua nomenclatura científica é também de homo sapiens - ele, sapiens neanderthalensis; nós, sapiens sapiens. A análise do DNA de seus fósseis confirmou que se assemelha ao de nossa espécie em 99,7%.

De todas outras sub espécies de hominídeos, foi a mais próxima de nós geneticamente, fenotipicamente e, também, do ponto de vista cultural. Os neandertais viveram entre 350 mil anos até 30 mil anos, aproximadamente, e tinham, em média, 1,65 metro e corpo bastante musculoso; seu crânio era levemente maior que o nosso.

Ocuparam praticamente toda Europa continental e apresentavam características bastante sofisticadas: cozinhavam alimentos, tinham ferramentas elaboradas, dominavam uso de plantas medicinais e até foram capazes de desenvolver uma linguagem rudimentar (cientistas ainda debatem se, de fato, se comunicavam por linguagem).

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Nicolas Primola/Shutterstock

As causas de sua extinção não são claras, mas se dividem em duas hipóteses principais. Uma indica que mesmo antes da chegada do homo sapiens africano à Ásia e Europa, já estavam em rota de extinção, causada por uma erupção vulcânica anos antes. A outra é de que foram incorporados e destruídos pela espécie mais eficiente.

Homem de Flores

Não há certeza se o homo floresiensis conviveu com o homo sapiens. Hoje, a hipótese mais aceita é que sua extinção ocorreu há 50 mil anos, na Ilha de Flores, na Indonésia, o que significaria que não houve contato com nossa espécie, que teria chegado lá há apenas 35 mil anos. Antes, acreditava-se que teriam existido ate 13 mil anos atrás.

Suas características físicas renderam o apelido de hobbits: tinham apenas um metro de altura e cérebro minúsculo, de 380 cm³, embora apresentassem capacidade desenvolver ferramentas elaboradas. Mistura elementos encontrados em australophitecus, homo erectus e homo sapiens.

Homem de Denisova

Sua origem e seu fim ainda são misteriosos para a ciência. Não é para menos: foi apenas há sete anos, em 2010, que esta sub espécie hominídea foi descoberta - e nem tem nome científico ainda. Denisova é a caverna na Sibéria, divisa entre China e Mongólia, onde um fóssil encontrado deu origem à descoberta.

Até aqui, a melhor hipótese é de que os denisovanos tenham vivido entre um milhão e 40 mil anos, e certamente houve cruzamento genético entre eles, os neandertais e os homo sapiens. A descoberta de seu genoma foi uma bomba para os estudos da evolução humana, pois foi constatado que, entre todos hominídeos, é o que apresenta mais variações genéticas e também apresentou genes de uma nova espécie homo ainda não catalogada.

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Petr Student/Shutterstock

Homo sapiens pelo mundo

Cada nova descoberta arqueológica apresenta novos elementos para recompor o quebra-cabeça da história do ser humano. Até 2015, a comunidade científica era praticamente unânime ao afirmar que o homo sapiens como conhecemos surgiu na África Oriental há 190 mil anos e espalhou pelo mundo 60 mil anos atrás. Hoje, as evidências são outras.

Um fóssil recentemente encontrado no Marrocos evidencia que o homo sapiens nasceu há pelo menos 300 mil anos. E uma arcada dentária encontrada na China demonstra que a espécie esteve na região pelo menos 80 mil anos atrás.

A tese mais aceita ainda hoje é que o homo sapiens saiu da África pelo leste do Mediterrâneo, ocupando a região do Cáucaso e do Oriente Médio. De lá, teria se dispersado em três direções: uma para o oeste, na Europa; outra ao leste, para a Ásia central; e mais uma para o sudeste, sentido sudeste asiático e Oceania.

“Há 50 mil anos houve uma mudança no cérebro, um aumento de capacidade criativa em todos os setores da vida. Em 20 mil anos, só havia homo sapiens entre os hominídeos”, relata o professor Walter. “A espécie ocupou toda a Terra, mostrou ter grande adaptabilidade”, completa.

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NoPainNoGain/Shutterstock

Como sobrevivemos? Da quase extinção até o domínio global

Os sete bilhões de seres humanos que vivem hoje em todo mundo têm um único grupo ancestral, dizem os estudos genéticos. Se juntarmos o material genético de toda população mundial, há menos diversidade genética que um grupo de 10 mil chimpanzés, por exemplo. E o motivo é que sofremos um enorme risco de extinção, 70 mil anos atrás.

A ciência sabe que houve um gargalo populacional no registro histórico de nossos genes. Não há certeza de quando e como isso ocorreu, mas a teoria que melhor explica é a da catástrofe resultante do supervulcão de Toba.

O lago Toba, localizado na Ilha de Sumatra, Indonésia, teria tido uma erupção de escala 8 (a maior de todas) entre 80 e 70 mil anos atrás. As cinzas cobriram parte do céu por anos e dificultavam a entrada da luz do Sol na Terra, o que diminuiu a temperatura média do planeta em 5°C - no terceiro ano após a erupção, a temperatura global foi de 15°C abaixo do padrão à época.

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JuliusKielaitis/Shutterstock

O episódio dizimou grande parte dos homo sapiens. Sobreviveram entre mil e 10 mil casais e o risco de extinção da espécie foi real - qualquer novo acidente natural ou epidemia teria acabado conosco. Por outro lado, pode ter tido efeito fundamental para a evolução que nossos ancestrais tiveram.

O cruzamento entre os mais resistentes e adaptáveis pode ter contribuído para o aparecimento rápido e único de capacidades cognitivas que somente os homo sapiens têm. E, quando se iniciou o movimento expansionista da espécie, cruzamento com neandertais e denisovanos somaram ao DNA elementos de capacidade adaptativa a diferentes ambientes.

Evolução, catástrofe e cruzamentos genéticos fizeram o homo sapiens sapiens chegar até aqui.

Evolução da espécie