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Descoberta: foz do rio Amazonas tem coral gigantesco, mas ele pode estar em risco

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Greenpeace

Descoberto recentemente, o recife de corais localizado à foz do rio Amazonas já nasceu gigante em tamanho e em risco. O estudo que confirmou sua existência foi publicado somente em 2016 e surpreendeu os pesquisadores: este novo bioma marinho ocupa a costa brasileira do Maranhão ao Amapá, com área total de 9.500 km², 20% maior que a região metropolitana de São Paulo.

Ainda há pouca informação sobre esse enorme conjunto de corais do ponto de vista científico. Uma coisa, contudo, já se sabe: o bioma corre risco de ser irreversivelmente afetado pela exploração de petróleo na região.

Coral amazônico: o que sabemos sobre ele?

Em extensão, a barreira de corais tem quase mil quilômetros, na região onde o rio Amazonas encontra o oceano Atlântico. Os recifes se localizam em profundidades que variam entre 25 e 120 metros de profundidade - isto inclui gigantes esponjas de mais de 2 metros de comprimento.

Em entrevista à Folha de São Paulo, o biólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro Fabiano Thompson, um dos autores do artigo publicado na prestigiada revista Science, ressalta que o bioma ainda é praticamente desconhecido. "Mapeamos apenas 5%. Precisamos descobrir praticamente tudo: a arquitetura dos recifes, as dimensões, a composição específica em termos de organismos, o funcionamento", disse.

Em janeiro de 2017, a ONG internacional Greenpeace realizou uma expedição científica à região para estudar o novo bioma marinho. Os pesquisadores puderam confirmar que há enorme diversidade de espécies, foram encontradas 30 diferentes espécies de esponjas, e especular que o tamanho seja ainda maior.

“Há indícios para que a área seja duas ou três vezes maior que isso”, disse Ronaldo Francini Filho, docente da Universidade Federal da Paraíba, que participou da expedição.

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Greenpeace

Há vida nos corais

O estudo assinado por 38 pesquisadores, de 12 instituições brasileiras, explica que o enorme volume de água que o rio Amazonas descarrega no oceano (representa 20% de toda descarga global de rios para o oceano) resulta em fundos lamacentos na margem do continente. A região do Atlântico da região Norte do país é, portanto, bastante afetada em termos de salinidade, pH e penetração de luz - condições difíceis para o desenvolvimento de corais.

Acontece que a barreira continental amazônica, começou a se transformar, há cerca de 9 milhões de anos, em um sistema que os cientistas chamam de sisliciclástico. Neste sistema, encontra-se alta carga de sedimentos, mas é um habitat favorável para o desenvolvimento de biomassa bacteriana - e por isso que os corais puderam sobreviver ali.

Por conta da água barrenta proveniente do rio Amazonas, pouca água entra no oceano (há pontos com 2% de luminosidade), o que compromete o surgimento de espécies que necessitam da fotossíntese, caso dos corais comuns. Já os corais amazônicos usam as bactérias para produzir matéria orgânica e energia a partir de gás carbônico e outras substâncias presentes no mar, como amônia, ferro e enxofre.

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Victor Moriyama/Greenpeace

Novas espécies estão surgindo lá

A expedição liderada pelo Greenpeace registrou evidências que podem levar à descoberta de três novas espécies de peixes: dois tipos de peixe-borboleta e um de budião-sabão. “O próximo passo é continuar o estudo, tentar encontrar esses peixes e estudá-los de acordo com o seu DNA. Só assim teremos certeza de que são uma espécie até então não catalogada pela ciência”, explica Ronaldo Francini Filho.

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Greenpeace

Ameaça aos corais

Além de guardar um rico tesouro do ponto de vista ambiental, a região da foz do rio Amazonas tem imenso potencial para extração de petróleo. De acordo com a Folha de São Paulo, a região já é explorada por três petroleiras, a francesa Total, a britânica British Petroleum (BP) e a brasileira Queiroz Galvão. Somadas, as três desembolsaram R$ 346,5 milhões pelas concessões do campo de extração.

Para o Greenpeace, a exploração de recursos naturais pode comprometer profundamente não só os estudos e pesquisas sobre as formas de vida locais, mas, principalmente, o desenvolvimento saudável dessas vidas. A atividade não só poderia exterminar o recife de corais, como também afetar todo o ecossistema da Bacia da Foz do Amazonas, incluindo animais em risco de extinção, como o peixe-boi-marinho, o tracajá e a ariranha.

“Essa expedição mostrou o quão pouco sabemos sobre nossos oceanos e o quão importante é protegê-los. Nós temos que evitar que a exploração de petróleo ameace esse único, novo e intocado bioma”, disse  Thiago Almeida, da Campanha de Clima e Energia do Greenpeace Brasil.

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Greenpeace

A ONG mantém a campanha Defenda os Corais da Amazônia, uma petição online para impedir a exploração dos recursos naturais da região.

Natureza em perigo