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Ciência aponta fórmula para criar filhos que não sejam preconceituosos (e é simples)

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Ao longo do século passado, estudiosos como Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro analisaram como a mistura de raças ajudou a constituir a sociedade brasileira. Depois de mais de 400 anos de convívio entre brancos, negros e índios, todos eles de diversos cantos do mundo, o Brasil é visto como um exemplo de nação miscigenada, embora ainda esteja longe de resolver um de seus maiores problemas: o preconceito.

Dia após dia as redes sociais estão infestadas de mensagens racistas. Casos de textos raivosos contra a jornalista Maria Júlia Coutinho ou contra a jovem Titi, a filha adotiva de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, são alguns desses tristes exemplos.

A grande verdade é que o país “fracassou em lidar com a discriminação enraizada, exclusão e pobreza”, segundo relatório do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), de 2016.

Durante muitos anos, pesquisadores tentaram entender qual a melhor forma de combater o preconceito. A resposta seria a convivência. Mas isso não é tão simples quanto parece.

Lutando contra o racismo desde a escola

Quando não conhecemos muito bem o outro, tendemos a criar um estereótipo. Esse estereótipo é mantido, até que o convívio vai quebrando as ideias preconcebidas que tínhamos sobre eles.

Uma criança negra que tem um colega branco ou uma criança branca que tenha um colega negro tende a compreender mais sobre racismo e preconceito racial que outras crianças que convivam apenas com pessoas iguais a si.

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Segundo o psicólogo social romeno Serge Moscovici, isso faz parte de um processo psíquico “capaz de tornar familiar, situar e tornar presente em nosso universo interior o que se encontra a certa distância de nós, o que está de certo modo ausente”.

A partir dessa representatividade social, a pesquisadora Ana Célia da Silva, da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), fez uma análise sobre como o negro era apresentado nos livros didáticos escolares. É uma forma de perceber como as crianças aprendem a lidar com as diferenças culturais.

Entender a base familiar é uma forma de estabelecer a aproximação entre pessoas de raças diferentes, segundo a pesquisadora. Por dois motivos: é a família da criança que cria o “determinante de transformação da representação do negro”, nas palavras de Ana Célia. Quando a criança entra em contato, por exemplo, com histórias de que o seu colega tem uma avó que descende de escravos, forma uma nova percepção sobre o assunto.

“Aí as diferenças poderão ser vistas sem desigualdades e hierarquias, permitindo, através do contato diário, do diálogo, das experiências comuns cotidianas, da luta do dia a dia, o reconhecimento do real concreto daqueles que o estigma transformou em nossos ‘outros’”, conclui a pesquisadora.

Empatia X preconceito

Em busca de diminuir o índice, que permanece alto, de pessoas preconceituosas, alguns cientistas têm explorado técnicas para melhorar o convívio entre indivíduos de raças e culturas diferentes. Programas interculturais, treinamento aplicado sobre diversidade cultural e diversos ensinamentos foram aplicados por psicólogos sociais.

Com o passar dos anos, muitos programas desse tipo falharam em acabar com a discriminação entre os grupos. Uma pesquisa da Universidade do Estado do Novo México (EUA), publicada em 2000, estudou o efeito dessas técnicas em americanos brancos e afro-americanos.

Quanto mais os brancos leem sobre discriminação contra os negros norte-americanos, aumenta a empatia entre eles, reduzindo os problemas entre os dois grupos, segundo os estudiosos.

Utilizando dados de convivência entre pessoas de raças diferentes, pesquisadores da Universidade de Queensland (Austrália) foram em busca de saber sobre as implicações fisiológicas dessa harmonia social.

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Eles estudaram o cérebro de 30 chineses recém-chegados à cidade australiana de Brisbane e compararam as informações com dados de estudantes de outras nacionalidades. Depois, gravaram vídeos com atores chineses e caucasianos, que ora recebiam uma pequena pancada, ora um toque mais suave nas bochechas.

A partir dessas reações, eles mediram a atividade do cérebro das pessoas que assistiram a esses vídeos, para verificar o nível de empatia em relação às pessoas de raças distintas.

Quem costuma viver com pessoas de outras raças e nacionalidades reage melhor e se mostra mais compreensível, ou seja, cria mais empatia.

“O mais importante disso é que essa correlação não depende do contato próximo ou das relações pessoais”, dizem os cientistas. “Simplesmente, retrata o nível geral de experiência com as pessoas de outras raças em seu ambiente diário”.

Nosso cérebro tende a se acostumar com os dilemas, dificuldades e até mesmo com a história de grupos diferentes dos nossos quando convivemos com eles. Por isso, é importante que haja maior inserção deles na sociedade, no mercado de trabalho e, principalmente, em nossas vidas.

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