Cobras já tiveram patas e podem voltar a ter, segundo geneticistas

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David Huntley Creative/Shutterstock

No ano passado, cientistas brasileiros questionaram como era possível que um fóssil de cobra com quatro patas tivesse existido por aqui. Muitos se perguntaram se não se tratava de um tipo específico de lagarto ou outro réptil. Duas pesquisas recentes, porém, comprovaram que algumas espécies rastejantes tinham patas, sim.

Membros das cobras

Pesquisa liderada por Len Pennacchio e Axel Visel, do Laboratório Nacional de Lawrence Berkeley, nos Estados Unidos, fez uma simulação com mudanças sequenciais de DNA em cobras de cinco tipos diferentes.

O objetivo era mostrar como um componente sequencial que forma a Zona de Atividade Polarizada (ZRS em inglês), responsável pelo desenvolvimento de membros no corpo de animais e seres humanos, poderia ser reativado.

Eles constataram que a sequência de ZRS das cobras é diferente das de outros animais. Isso por si só já representa um avanço, já que alguns biólogos e geneticistas acreditavam que esses répteis eram desprovidos de ZRS.

“Essa sequência de ZRS foi percebida em quase todas as espécies de cobras”, diz o estudo, publicado na revista científica Cell. De acordo com os pesquisadores, as cobras foram perdendo essa função dos membros com o passar dos anos, devido a alterações no DNA e RNA.

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Ilustração (Julius T. Csotonyi)

Genética e ‘patas embrionárias’

Uma pesquisa diferente, realizada por Francisca Leal e Martin Cohn, do Instituto Médico Howard Hughes, dá a entender que essa mudança genética das cobras pode ter um período específico: o Cretáceo Superior, entre 66 e 100 milhões de anos atrás.

Ao analisar a perda e o reaparecimento de ‘pernas’ em cobras tipo píton, Francisca e Cohn argumentam que as características que mantinham os membros desses répteis não foram totalmente perdidas em seu processo de evolução. “Isso pode ser resultado das patas embrionárias”, analisam.

Em outras palavras, é como se as patinhas estivessem escondidas durante todo esse tempo, mas só surgiam a partir da necessidade, que varia de acordo com clima e localidade.

“O genoma necessário para desenvolver membros tem sido altamente conservado, a partir do circuito de genética ativa já no broto desses membros”, explicam os especialistas de Howard Hughes.

Experiência com ratos

Em busca de entender como essa ‘perda das pernas’ afetou as cobras, os cientistas de Lawrence Berkeley fizeram um experimento. Selecionaram alguns camundongos e aplicaram a sequência ZRS neles.

Numa amostra, é possível perceber como os ratinhos parecem rastejar como cobras quando essa sequência é aplicada diretamente no DNA deles.

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Reprodução/Laboratório Nacional de Lawrence Berkeley

A experiência mostrou que a perda da função de um único elemento fez com que o rato perdesse uma característica importante: o desenvolvimento das patas.

“A perda de função de um único potencial observada nas cobras foi suficiente para causar a redução grave dos membros dos ratinhos”, concluíram os pesquisadores. “Isso levanta a possibilidade de que a desativação do ZRS contribuiu para a perda de membros na linhagem das cobras”.

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