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Memória falsa: todas aquelas lembranças da infância podem não ser reais; entenda

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ESB Professional/Shutterstock

Aceite: sua memória mente pra você de vez em quando. Sabe aquela lembrança muito real da sua festa junina do pré?  Ou aquela festa de aniversário de 5 anos que parece inesquecível? Pois é. A verdade é que sua memória pode estar te aplicando um truque. Mas, calma, você não é o único: todos estão sujeitos às memórias falsas.

Rotinas conturbadas, excesso de informações a todo tempo e jornadas de trabalho com acúmulo cada vez maior de tarefas contribuem com essa ‘bagunça’, mas estudos comprovam que as memórias falsas podem surpreender mesmo aqueles que são capazes de recordar detalhadamente o que fizeram há mais de dez anos, por exemplo.

‘Pegadinha’ da memória

O psicólogo Lawrence Patihis, da Universidade da Califórnia-Irvine (UCI), publicou um estudo em que separou pessoas com idades parecidas em dois grupos: um de indivíduos com ‘memórias extraordinárias’ (fenômeno conhecido como hipertimésia, ou Síndrome da Memória Autobiográfica Superior); e outras pessoas consideradas ‘comuns’, que reconhecem não ter uma boa memória.

Para as pessoas com ótima memória, Patihis e sua equipe fizeram perguntas específicas como “que dia um iraquiano jogou um sapato no presidente George W. Bush?” ou “que evento público aconteceu em 11 de outubro de 2002?”. A maioria delas acertou.

Então, o grupo de pesquisadores decidiu fazer uma ‘pegadinha’. Ao perguntar em detalhes sobre eventos que ocorreram no fatídico 11 de setembro de 2001, eles colocaram alguns vídeos. Quando eles assistiram, acharam que se tratavam, sim, dos aviões que se chocaram com o World Trade Center. Uma em cada 5 pessoas disse ter visto essas imagens – inclusive os que têm memórias extraordinárias.

Mas a verdade é que eles se enganaram: as imagens mostradas por Patihis e sua equipe tratavam-se do voo 93 da United Airlines, que tinha sido sequestrado por terroristas naquele mesmo 11 de setembro, mas não chegou à Nova York.

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Andrzej Sowa/Shutterstock

Tudo bem, o teste era difícil. Por isso, outros foram feitos. Os cientistas criaram listas de palavras que os participantes tinham que memorizar, incluindo termos que lembram outros – como duvet (edredon) e nap (soneca), que fez com que muitos deles confundissem com sleep (dormir). Nesse jogo, todos os participantes erraram pelo menos 8 vezes!

“O que mais amo desse estudo é como ele se comunica com algo que os pesquisadores de distorção da memória já suspeitavam há algum tempo”, disse Patihis à revista TIME. “Talvez ninguém esteja imune às distorções de memória”.

Palavras confundem a memória

É exatamente quando se processa a memória que ela pode nos enganar. Por isso a etapa de jogos de palavras ‘pegou’ tanta gente. Esse é um campo já conhecido na psicologia: o paradigma DRM (Deese/Roediger/McDermott), que “promove a criação de ilusões de memória a partir da apresentação de listas de palavras associadas a um item que não consta da lista”, segundo psicólogos da Universidade do Minho, de Portugal.

Ao estudar o processamento das memórias falsas nos indivíduos, eles constataram que a semântica das palavras está associada a criação de memórias falsas. A produção de memórias falsas no paradigma DRM tem forte contribuição na nossa forma de evocar a memória, segundo Eduarda Rodrigues e Pedro Albuquerque, que escreveram artigo sobre o tema na Universidade do Minho. “O processamento profundo dos itens em listas de associados pode favorecer tanto a produção de evocações corretas, como de memórias falsas”.

Ninguém escapa; todos estão sujeitos a isso.

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Sergey Nivens/Shutterstock

Memória falsa ou manipulação de nossas lembranças?

Enquanto você ainda desconfia das peças que a memória pode te pregar, alguns especialistas já estão pensando além: em como usar as memórias falsas das pessoas para encontrar soluções que estejam ligadas a costumes da infância.

Por exemplo, a obesidade. Alguns especialistas já comentam sobre a possibilidade de implantar memórias falsas em pessoas de peso elevado, com o objetivo de ‘mudar’ a relação delas com alimentos gordurosos desde quando eram crianças.

A ONG britânica Wellcome Trust, instituição que detém o maior financiamento do mundo para pesquisas médicas, patrocinou um estudo com pessoas dos Estados Unidos e Inglaterra, com a seguinte pergunta: seria aceitável que uma pessoa obesa que recorresse a um tratamento para perda de peso estivesse sujeita à implantação de ‘memórias falsas’?

O resultado foi surpreendente: 48% dos entrevistados disseram que sim, seria aceitável (41% disse que não, e o restante ficou em dúvida ou não quis opinar).

Por mais que um problema médico pudesse ser resolvido com as memórias falsas, o que se discute é: isso seria ético? Porque não se sabe em até que ponto essas memórias poderiam ‘roubar’ nosso livre-arbítrio e nosso senso de identidade.

Em artigo para a BBC, o psicólogo da Universidade Aston Robert Nash não acredita que isso possa se tornar comum nos próximos anos, mas não esconde uma preocupação. “Se tratamentos que modificam a memória se tornarem possíveis, e se uma parcela substancial da população acredita que a ideia de plantar memórias possa ser atraente, então precisamos fazer a nós mesmos questões importantes sobre o tipo de relacionamento que desejamos ter com as nossas memórias”.

E, depois disso, fazer o possível para não esquecer.

Dicas para cuidar bem da memória